1
O Sol raiava forte quando Eytan desceu os degraus da entrada, apressado. Deu a volta pelo lado esquerdo da pousada, e já avistava de longe o homem loiro que polia sua arma, à sombra do galpão.
Mal bateu os olhos em Richard, as pernas de Eytan pareceram reconsiderar a decisão. Mas era tarde demais para voltar atrás agora.
"Ei.", disse Eytan, seco.
Richard moveu apenas os olhos, a fim de se certificar de quem se tratava.
Feito isso, voltou a polir sua espingarda, como se nada mais o preocupasse.
"Eu quero falar com você.". O sangue de Eytan fervia, sua incerteza transformada em fúria.
Richard acenou com a cabeça de forma tão leve que Eytan quase não percebeu.
Eytan continuou.
"... é sobre Julia."
Richard sabia onde essa história iria parar. Sabia que tipo de pessoa Julia era. E ainda mais importante, sabia que tipo de pessoa Eytan era.
Richard estava cansado de pessoas que se deixavam levar por meia dúzia de palavras bem pensadas.
Estes que se dizem puros ou de boa índole, estes não passam de imbecis. São estes tolos que alimentam o ciclo vicioso de mentiras que infesta a vida e corrompe a alma.
As máscaras são repugnantes, mas piores são os que não vêem através delas.
Pensou nisso por um segundo, enquanto terminava de polir sua espingarda. Deu por pronto e se levantou da cadeira rústica, e assim foi, sem nem voltar os olhos ao rapaz.
"Você vai simplesmente sair assim?" Eytan advertiu, nervoso.
A completa ausência de resposta daquele homem lhe aumentava a confiança gradualmente. Talvez estivesse com medo.
"Que espécie de homem você pensa que é, batendo em uma mulher-"
Imediatamente Richard se virou e o socou no rosto, curto e seco. Eytan caiu de bruços.
"Você não sabe quem eu sou, e não tem a menor ideia do que está falando.", disse Richard, sua seriedade habitual ainda estampada no rosto.
Sua voz era grave e um pouco rouca, mas havia nela algum tom sereno que Eytan desconhecia.
Eytan respirou fundo e tentou se acalmar. Ali estava ele, atirado na terra árida e empoeirada. Recebendo um soco de alguém que nunca antes viu, e por alguém que conhecia a pouco mais de um dia.
É, talvez tenha merecido isso. Era isso o que acontecia quando tentava se envolver, ele já deveria ter aprendido.
"Não acredite em tudo que vê.", adicionou Richard ao rapaz, que se levantava lentamente.
Eytan então percebeu que Richard parecia ter socado de mal jeito, seu braço o incomodava. Estava ferido.
Enquanto recuperava o controle e colocava os pensamentos em ordem, Eytan percebeu que aquele homem havia se ferido na noite anterior.
Mas até mesmo um homem como aquele foi ferido? O que diabos FOI essa noite, afinal?
Não sabia o que deveria pensar. Decidiu por fazer o que era certo.
"Esse... você... posso ver isso?", Eytan se prontificou.
2
Julia não podia conter o riso que nascia tão naturalmente ali, apoiada na janela, com aquela visão panorâmica daquele infeliz caindo com um único soco, rosto na poeira.
Não sentia nenhum prazer descomunal por esse tipo de coisa, não: apenas era muito único pra se deixar passar desapercebido um momento desses.
Não era todo dia que ela tinha esse tipo de passatempo, afinal de contas. Naquela pousada encardida.
Em nenhum momento passou pela sua cabeça que Eytan realmente seria capaz de levantar a voz contra Richard. Muito menos que ele lhe retribuiria com um soco. O que quer que Eytan tenha dito,
deve ter sido exatamente o que o bastardo não queria ouvir.
Pensando bem, talvez mandar o infeliz diretamente a Richard não tenha sido uma boa ideia. De qualquer forma, isso não importava agora. O que Julia precisava nesse momento era ganhar tempo.
Não importa o que Richard tenha lhe dito noite passada, não iria ficar depois do jantar. De forma nenhuma. Havia conseguido escapar por todo esse tempo; não seria hoje que falharia.
Em meio a seus devaneios, Julia mal podia perceber o que se passava a sua volta. De fato, nunca o teria, não tivesse Dita pisado em um azulejo quebrado e protuberante, mal fixado no piso do banheiro.
"Quem está aí?", perguntou.
Dita receou, mas logo viu que não adiantaria mais se esconder. Saiu de seu esconderijo improvisado, os olhos sempre no chão.
3
Richard estava com um corte razoável no peito, abaixo do braço direito. Eytan o levou ao interior do galpão.
"Você é médico?"
"Técnico de Enfermagem.", esclareceu Eytan, sem tirar os olhos do ferimento que tratava.
"Viajava a trabalho.", concluiu o paciente.
"Na verdade, não. Eu desisti faz uns dois anos.", acrescentou Eytan, sorrindo.
Eytan havia improvisado uma gase com o que encontrou no galpão. O ferimento ao menos não deveria infeccionar.
"Agora me deixe em paz.", disse Richard.
"Eu... sinto muito por antes.", disse Eytan, confuso. Afinal, no que diabos estava pensando?
Pensou em consertar seu carro e sair dali com aquela mulher que mal conhecia? Não parecia certo. Não estava certo.
"...o que a Julia quer de mim?", indagou.
Richard permaneceu em silêncio.
"...tanto faz.", concluiu Eytan. "Pela tarde, eu gostaria de uma carona até o meu carro-"
"Seu carro já foi levado, rapaz. Não perca seu tempo, nem o meu.", interrompeu Richard.
Como podiam estar todos tão certos que seu carro já havia sido roubado? Mal havia se passado um dia desde que chegou!
Decidiu que cuidaria disso ele mesmo.
Richard se perguntou se agia corretamente. Sim, era o certo a se fazer. O garoto precisava participar esta noite. Precisava saber.
Na verdade, foi muita sorte ele não tê-los visto na primeira noite. Cedo ou tarde, o garoto acabaria por Vê-los.
"Esta noite, você não vai subir depois do jantar.", completou Richard.
Eytan não respondeu.
4
Tudo o que Julia menos precisava nesse momento era de uma outra mulher no quarto de Eytan.
Só o que lhe faltava era uma vadia estrangeira pra disputar pela atenção do infeliz.
De repente, uma outra possibilidade surgiu perante Julia. E esse pensamento a encheu de medo.
"Moça, eu sou-"
"Eu sei quem você é.", Julia interrompeu asperamente."Você é um deles."
"Não!" Dita respondeu assustada, os grandes olhos arregalados pareciam alguma jóia negra.
"Você é um d'Os que Vagam. Você veio me levar.". Julia não parecia ela mesma.
"Por favor me ouça! Eu só preciso de um lugar pra ficar!"
Era uma óbvia mentira, pensou. Mas se vieram para levá-la, porque não no seu quarto? Talvez... talvez tenham vindo para buscar Eytan!
"Escuta aqui, Juanita," atropelou Julia, nervosa,
"Eu não sei quem você pensa que é, mas é bom que você saiba de uma coisa: o Eytan é Meu.
Ele só dormiu aqui uma noite, ele nunca os viu. Ele ainda não viu os Escorpiões. Ele VAI me tirar daqui!"
Eytan entrou neste momento, batendo a porta do quarto contra a parede.
"O que diabos está acontecendo aqui?!", bradou.
"Você tem alguma ideia de quem é esta vadia?", disse Julia, agarrando Mercedes pelo pulso.
"Julia, por favor, só saia daqui.", disse Eytan, sem a olhar nos olhos.
"Nunca! Você não tem a menor ideia do que ela é capaz!"
De fato, isso até poderia ser verdade. Mas Eytan parecia começar a saber do que a própria Julia era capaz.
"Ela vem comigo! Não pode ficar aqui nem por mais um instante!", gritou Julia, e puxou a moça pela mão.
"Julia!!", gritou Eytan, mais alto e mais furioso.
Ela nunca o tinha visto assim antes. No choque, Julia cedeu o pulso. Saiu, e foi para seu quarto em silêncio.
Eytan percebeu que havia algo errado com ela. Mas no momento, suas preocupações se focavam em outra pessoa.
Mercedes estava aos prantos.
"Eu não sou...", repetiu, soluçando.
Custou uns bons minutos até que ela se acalmasse. Minutos que Eytan passou em absoluto silêncio.
"... como está Richard?", Dita perguntou cautelosamente.
"Está bem", informou Eytan. "Você o conhece?"
"Sim, desde criança. Ele morava perto da minh... da casa de meu pai."
"Então é melhor chamá-lo. Ele deve ser capaz de providenciar um abrigo melhor pra você."
"Não! É melhor não. Faz tempo que não o vejo, e penso que ele pode decidir me mandar embora. Só quero você."
Eytan a olhou, perplexo por um segundo.
"Eu não quis dizer isso! Me desculpe!", reiterou a moça, assustada.
"Tudo bem, tudo bem, só faça mais silêncio okay? Alguém vai acabar te ouvindo."
"Me desculpe...", suspirou com um tom de alívio, as lágrimas secando no rosto.
5
No almoço, Eytan reencontrou alguns dos rostos familiares da noite passada. Lá estavam, entre outros que Eytan desconhecia: Deric, o homem do chapéu escuro, e o homem de mais idade, com o qual havia conversado noite passada. Talvez lhe devesse desculpas. Não achou as palavras.
Julia não havia descido para o almoço. Talvez também lhe devesse desculpas. Não procurou as palavras.
Almoçaram em silêncio. Quando ninguém parecia atento, Eytan enrolou um pedaço de carne em um pano de pratos e colocou umas frutas no bolso.
Era o melhor que podia fazer por Dita.
Mas quando Eytan estava prestes a subir as escadas, ouviu uma voz familiar.
"Você tem um minuto, meu jovem?", o senhor da noite passada desejava sua atenção. Ainda carregava em seus gestos a fachada de um cavalheiro, tal como lembrara.
Eytan moveu as mãos com os panos para detrás de si, e respondeu com um sorriso desconfortável.
"Posso ajudar, senhor...?"
"Apenas 'Anthony' está bom. Se importaria de me acompanhar para uma volta?", solicitou o homem.
"... Na verdade agora eu estou com um pouquinho de pressa. Estou esperando uma ligação importante."
O homem lhe pôs a mão sobre o ombro, Eytan já no primeiro degrau da escada que subia aos quartos.
"Me escute agora, garoto. Nem todas as noites são tão barulhentas quanto a passada, fique tranquilo.", disse e sorriu.
"Para o jantar, quero que pense em uma história. Mas não qualquer história; algo real. Algo que tenha acontecido com você."
Eytan estranhou.
"Uma história? Mas por quê?"
"É o que fazemos aqui. Depois do jantar, nós contamos histórias. Hoje vai ser sua vez." concluiu, e lhe deu um leve tapa sobre o ombro.
"Nós estaremos esperando.", disse o homem sorrindo, enquanto se afastava.
"Espere, senhor!", pediu Eytan, urgente.
O homem se voltou para ouví-lo.
"No almoço dei por falta de um homem. Um que parecia... nervoso noite passada."
"Ahh sim, Louis..." disse o senhor, quase que para si mesmo.
"Algo errado?"
"Louis... os Escorpiões o levaram."
Esse capítulo me foi trabalhoso, mas fiquei satisfeito com o resultado.
ResponderExcluirMercedes, que realmente caiu de paraquedas em mim, foi um verdadeiro terror no início. Mas depois de certo tempo escrevendo, ela parecia caber como uma luva. Acho até que enriqueceu um certo lado da história. Sendo assim, obrigado por tentar me ferrar, Rapunzel :D
E falando em enriquecer, foi um dos meus focos principais nesse capítulo. Não digo ficar rico, mas sim tornar o protagonista alguém mais plausível e humano. Pra isso, tomei a liberdade de estender e dobrar alguns dos conceitos estabelecidos pra ele, e até mesmo fiz dele um entendido de algum assunto! Espero que ninguém queira minha cabeça por isso.
Enfim, acho que a história está se encontrando, e isso se pode ver até mesmo no tamanho dos capítulos, que tem aumentado lenta mas constantemente. Muita sorte pro próximo da fila, Drews :D
Vou aguardar ansioso o capítulo 7. Bom Ano Novo!