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sábado, 2 de novembro de 2013

Capítulo 10 - Bem Longe de Tudo

Capítulo 10

Bem Longe de Tudo


Naquela noite, após o jantar, Viriato esperou que seu irmão partisse, e que seus pais se recolhessem para dormir, agarrou um casaco quente e saiu. O que quer que estivesse acontecendo, sabia onde encontraria suas respostas.

Viriato nunca havia sido designado para investigar sua própria família. Superior algum expediria tal comando, mas Viriato o fizera de qualquer forma. Não porque o considerava seu dever (embora lhe agradasse acreditar na ideia), mas porque via nessa missão uma oportunidade, uma forma de escapar do seu futuro que parecia ter sido traçado à sua frente contra seu consentimento. Uma chance de fazer a diferença, uma chance de ser lembrado.

Em retrospectiva, jogado naquele beco escuro, talvez não tenha sido sua mais brilhante ideia. Considerou fortemente ficar deitado naquele beco até que a vida melhorasse, ou ao menos até não sentir as costelas em frangalhos. Riu de si mesmo, e no que riu, tossiu sangue por entre os dentes avermelhados.

***

Julius tossia. Dizia-se que o excelentíssimo general Julius Longo poderia derrubar qualquer homem em combate. Ele não diria o mesmo. Sentia o peso dos seus 59 anos em suas costas, um peso acentuado por ter passado tantos dos seus dias de juventude ferido, sem comer, ou sem dormir. De fato, neste exato momento, enfrentava um dos seus maiores inimigos adquiridos no decorrer dos anos: a insônia.

Desde que sua esposa voltara à cidade de seus pais, Julius encontrara ainda maior dificuldade em dormir. Pudera: Julius evitava até mesmo entrar em sua própria casa. Passava suas noites em seu escritório no QG, sentado à mesma mesa em que passava boa parte do dia. De outra forma, temia que os fantasmas de seus erros não lhe deixassem acordar.

A partida de sua esposa foi decidida em uma espécie de falso consenso, no qual Julius tomou parte mais pela vergonha de saber que havia falhado como marido do que pela compreensão de que Isabel estaria em maior segurança longe de uma base militar de renome. Julius não admitiria, mas temia não vê-la de novo. Havia muito ainda por dizer, que só percebera quando a perdera.

Talvez devessem ter filhos. Talvez não fosse tarde demais? Compraria uma pequena casa branca, em algum lugar bem longe de tudo. Dois filhos, um casal -  a mulher estaria satisfeita. Quem sabe um cachorro? Nunca gostara de cachorros (tampouco de crianças), mas faria o sacrifício. É o que as famílias fazem, não é?

'É o que as famílias fazem', repetiu pra si mesmo. Era irônico, pensava, que um homem que havia ido onde tão poucos foram, um homem que se vangloriava de sua capacidade de análise, fosse incapaz de conceber um conceito tão simples. Perguntou-se em que ponto havia esquecido como ser feliz.

Um estouro ecoou pelos corredores. O general despertou de supetão. Não lembrava de ter cochilado, mas isso não era importante: houve um disparo. Alguém havia disparado uma arma de fogo no quartel general do exército, às quatro horas da manhã.

***

Mara terminava de varrer a taverna quando ouviu o som inconfundível do sino da porta da frente. Antes mesmo de virar-se, abordou "Olha, nós já estamos fechados pela noite, procure outro lugar--", quando viu o vulto do rapaz na porta, sujo e ensanguentado. "Eu não acho que quero ir pra casa agora...", disse o rapaz, e custou-lhe um momento para reconhecer Viriato. Mara o convidou para entrar.

Lhe indicou onde sentar, pos a vassoura de lado, agarrou alguns guardanapos e se juntou a ele. "Me desculpe, ainda não é terça-feira..." disse Viriato, com um sorriso triste no rosto sujo. "Não se preocupe com isso", respondeu, enquanto tentava limpar o excesso de sangue e terra no rosto do rapaz. Viriato ficou em silêncio por um segundo.

"Você deve achar que eu sou algum tipo de fracassado." disse Viriato em meio a sorrisos leves, como que disfarçando o impacto que de tais palavras, agora que as dizia em voz alta.

"Eu não disse nada disso.", corrigiu a moça. Sua expressão parecia inabalável.

Viriato respirou fundo, afastou os cabelos sujos do rosto.

"Eu nunca deveria ter me envolvido com aqueles russos desgraçados...", resmungou.

O comentário, vazio de propósito, chamou a atenção da moça.

"Por que você não me conta o que aconteceu?", disse Mara, e sorriu.

sábado, 12 de outubro de 2013

Capítulo 9 - Um Sorriso Honesto

Capítulo 9

Um Sorriso Honesto


O sol se punha, e as ruas de Lisboa — ainda ignoradas pelos boêmios que resistiam à guerra — não mais se enchiam de transeuntes apressados. As lojas e escritórios já foram evacuadas pelos trabalhadores, na ânsia de deixarem suas tarefas e voltarem a suas famílias. Para Viriato, no entanto, esses momentos de tranquilidade eram o ponto alto do dia, a solidão já considerada um abrigo. A caminhada até a estação de trem permitia a contemplação e análise das informações que recebera durante o dia, por vezes levando a conclusões que muito satisfizeram ao General Longo.

Nos dias em que nenhuma informação relevante aparecera, Viriato observava discretamente os poucos companheiros que compartilhavam desses momentos de calma — sentindo certa cumplicidade com aqueles que reconhecia, que aproveitavam recorrentemente da tranquilidade desse horário.

Naquela sexta-feira, porém, tal tranquilidade fora interrompida pelo tropeço de uma jovem, que carregava uma pilha de envelopes cheios. A pobre moça deixara os envelopes caírem, e os papéis neles contidos se espalhavam desordenadamente pelo chão. O desespero dela em juntá-los fez Viriato se compadecer e ajudá-la — talvez pudesse ser demitida por uma simples página fora do lugar.

"Muito obrigado pela ajuda, senhor...", agradecia a moça, após organizarem e reagruparem os papéis.

"Ah, perdoe meu lapso!",  reconheceu Viriato. "Eu... Eu sou Viriato... Viriato Pontes."

"Prazer, sou Mara Rodrigues. Salvaste minha pele, eu levaria horas para reorganizar os papéis sozinha. Letras não são meu ponto forte."

"Ah, não foi nada... E... pelo que vejo... a senhora já lê relativamente bem... muitos não sabem nada... já é um grande mérito", gaguejou Viriato, tentando ser gentil e causando o riso de Mara.

"És bastante realista, Viriato. Há tempos ninguém me elogia de forma tão humilde, porém honesta. A propósito, me chame de Mara; dispenso os formalismos."

Viriato mal percebera os cabelos pretos e secos de Mara, tão diferentes dos cachos loiros de Aleksandra. Pouco notara seus olhos de um castanho sem vida — em vez de um verde reluzente — e suas mãos calejadas e marcadas — evidência de trabalho pesado. Percebera apenas um sorriso tão diferente do de Aleksandra — em que perfeitos lábios e dentes emolduravam um retrato de cinismo, pena e escárnio. O de Mara era um sorriso honesto, como poucas vezes Viriato havia visto.

"Espero poder retribuir tua gentileza com um bom jantar. Moro em Frielas, um vilarejo nos arredores de Loures, e minha irmã é dona da taverna local. Sua comida, embora simples, é muito saborosa. Se apareceres lá ao entardecer, ficarei feliz em acompanhá-lo no jantar, por minha conta."

"Agradeço o convite, senhora... digo, Mara", disse Viriato, ainda tímido. "Terei o prazer de fazê-lo. Na próxima terça-feira, talvez?"

"Ficarei feliz em recebê-lo", respondeu Mara, novamente com seu sorriso desconcertante. "Agora tenho que ir, antes que me atrase mais. Uma boa noite, e nos vemos na terça-feira."

***

Ao chegar em casa, Viriato ainda pensava no encontro inesperado, e na confusão que o encontro causara. Apesar de ainda morar com seus pais, dificilmente seus pensamentos seriam interrompidos por qualquer conversa — ou pelo menos qualquer conversa que o incluísse. Principalmente nas noites de sexta, em que os dois irmãos, já casados, vinham jantar com a família, e teriam certamente muitas novidades da semana.

Nessa noite, porém, sua mãe o avisou de que Marcelo não viria. Estaria ocupado ajudando Aleksandra e seu pai com alguma tarefa. A notícia não fora tão surpreendente, dada a dedicação crescente de Marcelo a seu sogro.

Tal ausência, além de atípica, era muito frustrante para os pais de Marcelo — afinal, durante a semana eles eram privados de Marcelo e Pedro, tendo que se contentar com Viriato; os jantares de sexta-feira eram um ponto alto da semana. Viriato, porém, viu que chegara a hora de investigar — as atividades do pai de Aleksandra começavam a afetar a sua família, e era apenas uma questão de tempo até que fosse prejudicado por isso.

Tinha esperanças de escapar da tarefa desagradável de investigar sua família, envolvendo-se com ela novamente após anos de abrigo sob um escudo de indifereça. A atividade crescente, porém, indicava uma ameaça real à pátria. Era tempo de afastar os pensamentos de Mara e voltar a seus deveres.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Capítulo 8 - Em nome da minha pátria

Capítulo 8

"Em nome da minha pátria"


Algumas pessoas fomentam nos seus âmagos um plano de vida tão detalhado que em poucas noites insones já construíram uma carreira sólida e uma família feliz. Viriato era dessas pessoas.

Outras poucas pessoas conseguem construir, fora de suas mentes, uma carreira de sucesso e arrebatar o coração de uma adorável dama. Viriato não era dessas pessoas.

Desde criança construíra, pedra por pedra, o seu ideal de vida. Seria telegrafista, como o tio que o pai detestava, e casaria com Aleksandra, uma russa cuja família mudara-se para Portugal por motivos não exatamente claros e razoáveis.

O filho do meio de uma família com 3 filhos, cujo pai era também filho do meio. Há pouco a se fazer de mais insosso na vida que ser filho do meio.

A mãe era lavadeira e precisava de alguém para lhe ajudar; o filho mais velho era o orgulho e levaria o nome da família adiante, o filho mais novo não merecia trabalho tão ingrato, mas um filho do meio era do que ela precisava. Ela lavava, ele passava e engomava. Começara aos 11 anos e não esperava que fosse parar tão cedo.

***

Enquanto fazia o trabalho que a mãe lhe designava, treinava mensagens em código, como havia lhe ensinado o tio. O pai gritava: "Já não bastasse ter as fuças do traste do Antônio, ainda o gosto por essas porcarias velhas e inúteis! Só falta agora o arak e as mulheres sem carnes!". O arak lhe enjoava o cheiro, mas não se podia dizer que Aleksandra fosse uma mulher de carnes.

De tanto engomar e passar roupa, não havia código que já não dominasse. Decidiu prestar prova de telegrafista. Teria conseguido, tinha certeza, não fosse o pai lhe chamar e ameaçar-lhe para que não fizesse essa desgraça com a família.

Acabou um sonho.

***

Frustrado, agarrou-se ainda mais ao amor platônico e infantil que tinha por Aleksandra. Dividiam a classe, mas nunca lhe dirigira a palavra.

O fim do colegial e a proximidade da formatura tornava o ambiente escolar mais propício a... investidas. Por mais que a russa não fosse do tipo que falava muito, também não era muda.

Se não lhe era permitido investir na carreira, nada lhe foi dito que impedisse de investir no amor. "Oi... Eu... Eu sou Viriato", "Sim, eu sei". Acabou o assunto, pelos próximos 6 meses.

***

Voltaram a conversar 6 meses depois, na mesa de jantar da família de Viriato. "Pai, mãe, esta é Aleksandra, minha namorada", anunciava o irmão mais velho. Viriato apenas disse "Eu sou Viriato", "Sim, eu sei.".

Certamente perder pro irmão mais velho doia, mas ainda não tinha conseguido superar não poder ser telegrafista; e isto certamente lhe doia bem mais.

Já pensava em talvez passar a vida passando e engomando, afinal, quando não se tem perspectivas qualquer coisa é melhor do que a idéia de não ter nem isso. Quem sabe viria a casar com uma lavadeira e sua vida estaria mediocremente resolvida.

Era melhor parar de pensar e voltar a comer o bacalhau, antes que alguém lhe perguntasse o que estava se passando, ou, pior ainda, ele passasse mais tempo inerte e ninguém perguntasse nada.

***

Foi o raciocínio rápido, a boa memória e perspicácia no colégio que lhe trouxeram a proposta: "precisamos de um ajudante para a nação, que saiba ler bem e lidar com informações", disse-lhe, com ar de confidência, um homem com ar de empalhado.

Aceitou. O pai haveria de achar bom. Começou no trabalho no dia seguinte.

Decorar mapas, traçar rotas, relacionar características físicas de pessoas que não conhecia, fazia parte do seu trabalho diariamente. Já não queimava os dedos no ferro de passar e o pai estava incrivelmente satisfeito.

***

Em algum momento entre relacionar características físicas de desconhecidos, encontrou algo bastante familiar.

O indivíduo era, certamente, o pai de Aleksandra. Começava sua primeira missão como espião.

Não era como se gostasse, mas sempre se dedicou às coisas simplesmente por honestidade. "Faço em nome da minha pátria".


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Capítulo 7 - Aquele que Martela

Capítulo 7

Aquele que Martela



"Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas."


Por algum tempo essas palavras ficaram na cabeça de Lore, e dessa forma naquela noite chuvosa, sem conseguir dormir ela lembrou de seu encontro com o famoso General Julius Longo.

***

Aquela manhã, que não estava tão distante em dias, parecia uma outra época. A guerra tem esse poder: estende os dias e as horas, mantendo aqueles com que você se importa afastados e sempre deixando a suspeita de que talvez, afastados para sempre.

O General Julius, sentado atrás de sua escrivania estava completamente absorvido em pensamentos. Ainda recebia comunicações de outros generais, portugueses ou até mesmo ingleses que julgavam uma péssima decisão entrar em guerra. A Alemanha enviava propostas e acordos com alguma frequência mas não havia um momento que Julius havia duvidado dessa decisão.

 Contudo, há muito ele já estava frustrado e duvidando de seu exército. Ah, os velhos e bons tempos. No passado o próprio general teria estado na frente do exército, dando a cara a bala, tomando fortes, cidades no grito, na força. Agora ele era obrigado a ter outras responsabilidades, calcular, pensar a frente, adivinhar. Mas não adianta adivinhar se quem executa as ordens não é competente. Qual a utilidade de um martelo macio que não pode pregar?

Estava tão distraído que demorou algum tempo para ouvir a mulher na sua porta.

- ...se o senhor estiver ocupado eu posso voltar mais tarde... - dizia ela.

Ele parou algum tempo para observar aquela mulher. O governo como uma medida para manter a população sob controle promoveu pequenos cargos dentro do exército para civis. Esses cargos simples, como limpeza, atraiam algumas pessoas que não entendiam muito bem como funcionava a hierarquia do exército, o que quebrava muito da atmosfera do local. Essa mulher estava ali agora muito provavelmente porque o marido dela estava entre as incompetentes tropas portuguesas e ela não teria como se sustentar sozinha. E claramente era responsabilidade do exército ter que lidar com tudo isso.

Julius sorriu brevemente com o sarcasmo de seus pensamentos, mas respondeu em bom tom para a mulher.

- Não, agora está ótimo.

Uma das razões pela qual Julius se destacara tanto era sua capacidade de observação. Mesmo sob pressão ele conseguia ver tudo que precisava e tomar a decisão mais adequada, e era um soldado absolutamente competente. O problema dessa guerra, é que ele não estava vendo tudo.

Enquanto a mulher entrava Julius reservou algum tempo para julgar a garota. O cabelo dela, escuro, estava relativamente mal cuidado, supondo que sempre queremos apresentar nosso melhor para os outros, ela devia então apresentar algum problema na sua renda. Julgando que estava ali trabalhando para o exército ela tem algum tipo de relação com alguém na guerra. Em geral, os soldados decidem que seu soldo deve ser entregue diretamente para sua família, o exército não é um banco, portanto guardar o dinheiro não era uma opção. Com o dinheiro do soldo e mais o desse "emprego" no exército ela certamente conseguiria se cuidar o suficiente para que sua aparência não ficasse desgastada. Assim sendo ou ela estava muito deprimida para se cuidar, ou ela estava com problemas financeiros. Enquanto a mulher entrava (aparentava estar se aproximando dos trinta anos) ele pode ver dureza em seu olhar. Ela devia ter um filho e seu marido estava na guerra, essa era a conclusão mais lógica.

- Saiba que estamos fazendo o melhor pelo seu esposo, tenho certeza de que ele voltara para casa.

Por um breve instante a mulher parou surpresa enquanto se dirigia a um dos cantos para tirar a poeira.

- Obrigada.

Julius se sentiu satisfeito ao perceber que havia deduzido corretamente tanta coisa apenas a partir de seu cabelo e voltou sua atenção para as mensagens de seus capitães e de um de seus espiões. "Se todos fossem competentes como  Viriato...".

Lore permaneceu quieta realizando sua função ali na sala e não voltaram a ter nenhum diálogo.

***

Naquele dia, estava realmente ansiosa para conhecer o general, e naquele dia em especial ela realmente não julgou a atitude dele como egocêntrica, mas agora deitada tentando arranjar culpados para a morte de seu marido, Julius era o assassino. E assassinos merecem só um destino.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Capítulo 6 - Estes Olhos que Vestem Preto

Capítulo 6

Estes Olhos que Vestem Preto


A noite já caía quando o cabo Montes fez uma última saudação, já do lado de fora, a porta da casa fechada. Desde que fora designado a esse cargo, já havia entregado esta mensagem a dezenas de viúvas, e nem por uma vez se provou menos árdua a tarefa. Enquanto declarara o comunicado formal, engolia em seco, lembrando a si mesmo que havia prometido nunca deixar escapar um 'desculpa' perante a família desgraçada. Mas naquele momento, no entanto, na companhia apenas da calçada e de sua própria vergonha, Montes pediu desculpas.

E ali permaneceu, como já não era incomum a ele quando a noite caía, a pensar sobre aqueles que já não mais tornaria a ver. Parentes com os quais não teria mais reuniões de final-de-semana desgastantes. Amigos que não lhe dariam nova oportunidade de discordar. Irmãos cuja memória de brigas já não causava dor. Montes pediu desculpas mais uma vez, e seguiu seu caminho.

***

O sol lançava seus primeiros raios mornos contra a cortina branca da janela. No entanto, o calor da luz fez pouco efeito no rosto da moça. Pela primeira vez desde que se podia lembrar (quanto tempo fazia, mesmo?), Lore não tivera um sonho ruim. Seus pensamentos acordados foram horríveis o bastante.

Augusto dormia o sono dos inocentes. Havia dormido como um anjo a noite inteira, mas ainda assim Lore nunca deixou a cadeira, ao lado do berço. Não poderia, nem que quisesse. Enquanto o observava dormir, com olhos vazios, Lore tentara se convencer de que tudo não passava de mais um pesadelo. Falhara.

***

Nos dias que seguiram, embora Lore não tornasse a falar do assunto, quem quer que a conhecesse bem era capaz de perceber no olhar perdido da moça. Sabiam que a moça que viajava ao coche pela manhã e escolhia legumes no armazém pela tarde estava ali em corpo apenas; a alma havia ido para a guerra, e não mais voltara.

Não tardou muito para que Pietro ouvisse do ocorrido. Era tarde de domingo, e sabia que a encontraria na feira. Correu até lá, mas logo que a viu, parou de supetão. E não parara apenas porque a vira; parara porque percebera que ele mesmo sorria.

Era um sorriso muito leve, mas ali estava. E Pietro sabia muito bem do que se tratava. Esta era a sua grande chance, o momento pelo qual havia esperado por todos esses anos. Lá estava ela, sozinha, e precisava dele como nunca- talvez quase tanto quanto ele sempre precisara dela. Ah, o quanto precisava dela...

Foi então que seus olhares se cruzaram. E assim que pôs os olhos nos dela, toda a satisfação de Pietro se esvaiu. Havia na moça alguma sorte de má aura, uma atmosfera de derrota tão forte que era como se fosse palpável. Se sentiu terrivelmente culpado. Quis andar até ela, quis dizê-la que estava ao seu lado para o que precisasse, mas não encontrava forças para mover-se ou falar. Deu um passo para trás lentamente, e depois outro, e quando se deu por conta, o olhar daquela moça, tão profundo e frio quanto a própria morte, havia sumido entre a mulditão de pessoas e frutas, carnes e tendas.

***

Na noite que se seguiu, o som da chuva forte no telhado emudecia tudo se não o som da caneta que rabiscava fervorosamente sobre o papel de carta, pela terceira ou quarta vez, na ânsia de se chegar ao fim antes de vê-lo descartado. Lore continuou:

Prezado Daniel Dolores, 
Escrevo esta carta em confidência, a qual espero que honre. É bem verdade que nunca fomos muito próximos, o senhor e eu. Nosso único vínculo sempre foi o grande apreço que o senhor demonstrara por Marco. 
Entretanto, meu dever como esposa me traz perante o senhor por meio desta carta. Esse dever me injeta com a força necessária para questionar, o esforço para buscar entender. Marco era um homem de bem. O que o levou a tamanha desgraça? Por que ninguém veio ao seu socorro? Onde estava o senhor quando seu amigo mais lhe precisou? 
Marco era um homem de família. Deixa para trás mulher e filho. Em branda honestidade, e me perdoe por tanto: antes tivesse sido o senhor.
Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas. 

Na esperança de que sua jornada o leve a melhores caminhos,

Lore de Leon.


Uma vez ou duas, a chuva torrencial quase o encorajou a bater à porta. Mas ali, sozinho em frente à casa da moça, observando a luz trêmula que vinha de dentro, Pietro sentia o frio da verdade. Não havia espaço para ele ao lado dela. Nunca haveria. Pietro pediu desculpas, e seguiu seu caminho.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Capítulo 5 - A Pilha Errada

Capítulo 5

A Pilha Errada


Era apenas mais um dia do tedioso trabalho de André Junqueira. Seu pai, capitalista e dono de grandes empresas portuguesas, conseguira fazê-lo escapar do serviço militar — o que seria compensado por tarefas burocráticas. Alguns meses perdidos lidando com listas de soldados falecidos e enviando comunicados a suas famílias sem dúvida valiam a garantia de sobrevivência do único herdeiro de um império comercial.

"André, já encaminhaste as notificações de falecimento? Espero que não, pois chegou agora um telegrama retificando algumas delas...", disse-lhe um colega, quebrando a monotonia da manhã.

"Por sorte não, enviá-las-ei após o almoço", foi a resposta.

"Então já separa as notifica
ções sobre os soldados Gonçalo, Carvalho e Flores. Para a sorte de suas famílias, eles ainda estão vivos. E não queremos enviar oficiais para desesperá-los desnecessariamente..."

"Com certeza não, já devem ter preocupa
ções suficientes..." comentou André, enquanto colocava os respectivos papéis em uma pilha separada.

***

Ao chegar na sede do exército, e após deixar o pequeno Augusto aos cuidados da sra. Rosa, Lore recebeu ordens um pouco diferentes. Uma das serventes não viera, e o General Longo não estaria no seu escritório nos próximos dias, então Lore a substituiria na limpeza de um dos grandes escritórios, onde vários funcionários lidavam com as tarefas de administra
ção do exército.

A sala era ampla e bem iluminada, com grandes janelas ladeadas por arquivos de madeira nobre, também presente no piso e nas molduras de belos quadros que decoravam as paredes. Belos tapetes ocupavam o espaço entre as esparsas escrivaninhas de mogno. E, no momento, a sala estava vazia — Lore esperava terminar a limpeza antes que os funcionários voltassem do almoço, para não interrompê-los.

A limpeza das escrivaninhas seguia monotonamente. Todas, exceto uma, estavam organizadas e praticamente vazias. Essa última, no entanto, possuia uma série de papéis em diversas pilhas, que Lore procurou manter intactas. Ao mover uma delas para remover o pó da superfície, viu de relance o nome Flores.

Lore procurava não ler os papéis que via, pois sabia que não eram para seus olhos. Na verdade, tinha certeza de que seus empregadores sequer imaginavam que soubesse ler. Ao ver o nome de seu marido, no entanto, não pode conter a vontade
— necessidade, até — de ler suas notícias.

Falecido em Batalha: Marco Flores
Data: 9 de Setembro
Local:
Argélia

Lore teve de sentar. Não acreditava no que lia, seu marido deveria estar em uma zona segura, a notícia era completamente inesperada. Lágrimas escorriam em seu rosto, e o pânico a tomava. O que faria sem seu Marco? Como explicar a Augusto que nunca mais o veriam, nem sequer para uma despedida?

Teria de ser forte. Sim, sofreria, mas seu amado filho precisaria que ela não o demonstrasse, que ela tomasse conta dele, e que mantivesse o emprego. Não podia deixar que descobrissem que lera o comunicado. Engoliu as lágrimas e tentou se recompor. Resolutamente se levantou, colocou a anotação de volta na escrivaninha e voltou a limpar, sem notar que havia colocado o papel na pilha errada.



***

Ao entardecer, Mara caminhava ao armazém a fim de buscar alguns mantimentos para sua irmã. Desde que seu marido falecera, Lúcia não cuidava mais de si mesma
— não comia direito, não limpava a casa, mal mantia sua taverna. Desde que chegara, Mara se encarregou de trazer Lúcia de volta à vida.

O caminho até o armazém já se tornara familiar novamente. Desde os 7 anos não o percorria mais, quando fora enviada à fazenda dos tios para ajudá-los. A taverna de seus pais mal dava para o sustento da família antes de seu nascimento, e já não tinha como ajudar a mantê-la
— a mãe e a irmã eram suficientes para todas as tarefas femininas; era de um filho que precisavam.

A mudan
ça para a fazenda não fora mal recebida, mas quase uma fuga. Sua infância não fora exatamente feliz, com a escassez pela qual a família passava e a aparente decepção de seus pais. Apenas sua irmã mais velha lhe trazia alguma alegria e companheirismo. Por isso agora vinha ajudá-la, no momento em que ela mais precisava.

Suas memórias foram interrompidas ao esbarrar em Lore e derrubar as sacolas que esta carregava, ao caminhar no sentido oposto tão destraída quanto Mara. Parecia, porém, muito mais abatida.

"Ah, desculpa, Mara!", exclamou Lore, se abaixando, ou quase caindo, para juntar suas compras. "Não sei onde estava com a cabeça, para esbarrar assim em ti...", disse, quase aos prantos.

"Não te preocupes, Lore. Também estava distraída, e não nos machucamos. Te ajudo a recolher."

Enquanto a ajudava com as compras, Mara percebeu que algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Lore. "Lore, está tudo bem? Se eu puder ajudar com qualquer coisa..."

"
É Marco... Ele...", balbuciou Lore, em prantos, surpreendendo Mara.

"Lore... Sinto muito... Te ajudo com o que precisares.", tentou confortá-la. "Quando veio o comunicado?"

"Não veio... Eu li um papel... Não deveria, mas..."

Pobre Lore, perdendo o marido desnecessariamente, nessa guerra injusta. Embora se compadecesse de Lore, Mara viu uma oportunidade na situação. Como suspeitava, Lore tinha acesso a documentos do exército. Não era hora, no entanto, de pensar nisso — primeiro ajudaria Lore a se reestabelecer, ou seria tão insensível quanto aqueles contra quem protestava.

***

O Cabo Montes fora salvo por uma bala em sua mão. Graças ao ferimento, relativamente leve, fora considerado incapaz para a guerra, e desde então fora encarregado a notificar as famílias dos soldados mortos em batalha. Era uma tarefa desagradável e emocionalmente desgastante — mas não trazia perigo de vida.

Era o último comunicado do dia, que já come
çava a ceder à noite. Bateu na porta e, quando esta foi aberta por uma moça, anunciou-se. "Com licença, Sra. Flores? Sou Cabo Montes e preciso de um momento com a senhora."

Na verdade, estranhara a expressão desolada da mulher assim que ela abriu a porta. Estava acostumado a mulheres adivinhando o comunicado após ele se anunciar, mas nunca antes disso. Ainda assim, não tinha como entender as dificuldades por que ela já estaria passando — nem tentaria, ou se tornaria incapaz de executar até este trabalho. Tinha de continuar sendo o mensageiro indesejado.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Capítulo 4 - "Não se faz um herói sem medo"


Capítulo 4

"Não se faz um herói sem medo"


O dia seguia normalmente; havia muito mais rifles a ajustar que homens com alguma noção de prumo. Alguns pareciam incrivelmente ter esquecido o comunicado que lhes deu bom dia. Os únicos marcos do dia eram as terríveis refeições daquela base.

O toque de recolher era dado às 21h; não mais, não menos. Soldado Flores se condoía com cada um dos minutos de atraso... eram 21h07 e ele tinha um péssimo pressentimento.

Sua redenção chegou às 21:13:11, segundo a segundo devidamente contados pelos seus nervos. Finalmente a sirene tocou e todos começaram a se dirigir aos alojamentos.

Sua redenção o deixou às 21:13:57, quando a sirene deu lugar a um comunicado especial. Vendo o rosto de sua mulher e seu filho a cada palavra, ouviu "Tivemos uma mudança no panorama. Partiremos para a Argélia antes do amanhecer. Ponham em execução o protocolo de campo.". Todos corriam para a sala de armamentos; o único animado era Daniel, como já se esperaria.

***

Marco estava estático. Olhava os rifles; as pessoas; os capacetes; os coletes; as bolsas; as botas; rifles; pessoas; capacetes; coletes; bolsas; botas; rifles e pessoas e coletes e bolsas e botas e... o rosto de Lore, sorrindo, com farinha no rosto, o sol entrando pela janela, o cheiro de bolo de laranja... "Soldado Flores? Está me ouvindo? Flores?". Viu a enfermeira; gorda e morena, sorridente por vê-lo abrir os olhos.

Ela deu-lhe um copo cheio de um líquido opaco de cheiro repugnante. "Beba. É, é horrível mesmo.".

Enquanto bebia aquilo como podia, viu uma sombra aproximar-se: "Esperava mais de você, rapaz". "Ah, Capitão Gonçalo, me perdoe, eu não sei o que aconteceu. Foi apenas...", "Não temos lugar na frente de batalha para soldados com fobia a rifles. Seria patético o senhor fazer o mesmo depois do início do confronto. Encontrarei onde possas ser mais útil. Recomponha-se e ajude as enfermeiras com os suprimentos de medicamentos, quando encontrar ocupação para ti, chamarei-te.".

Era impossível não se sentir humilhado, mas ainda mais forte que a humilhação era o alívio. Definitivamente não tinha nascido para uma frente de batalha, para empunhar rifles.

***

Pessoas morriam a todo momento. O ânimo e patriotismo dos soldados portugueses definhava. O primeiro confronto não estava sendo, definitivamente, o sonho português.

O único conforto aos soldados eram as refeições de batalha, que eram menos intragáveis que as da base. Mesmo com as refeições melhores, morrer não parecia tão ruim assim. Muitos não tinham com quem se preocupar, nem para onde voltar. Daniel era um deles, só o que tinha era a guerra, e era a primeira vez que podia dizer que era importante em alguma coisa.

O primeiro da frente de batalha era sempre ele, não havia nada que parece demais pra ele, que tivesse medo. Empunhava o rifle e seguia as ordens do comandante, sem olhar para os lados, sem pensar sequer um momento que podia não voltar. E a ordem agora era invadir o fórum de Argel.

Foi a primeira disputa ganha por Portugal, em incríveis 2 dias. Os soldados tinham sua confiança e patriotismo renovados. Menos Daniel, que voltou sabendo que sua importância tinha acabado junto com sua visão.

Com um estilhaço de bomba, ele perdeu o olho esquerdo. E com a frase, em tom de lamento, de Capitão Gonçalo, ele voltou para a base: "não se faz um herói sem medo, soldado".

***

"Marco, é bom te ver", disse Dolores, ao chegar no ambulatório. Na verdade, era bom ver que não era a pessoa mais desanimada com aquilo tudo. Por mais que o ferimento o deixasse tonto e sem forças, parecia muito mais vivo que o amigo.

A enfermeira logo tratou de levar o ferido para uma cama e começar a limpar o ferimento. Marco levou para ela o kit para desinfecção. Por todo o ambulatório podia-se ouvir os gritos de dor, mais pelo fim do sonho de ser reconhecido por algo na vida que pela dor.

Marco, a mando da enfermeira, foi preparar uma porção de ópio para aliviar a dor. O fez muito bem, incluindo uma generosa porção de estricnina. Nada além disso poderia aplacar a dor que Daniel sentia.
Em 15 minutos o rosto de Daniel transfigurava-se numa expressão horrenda de dor e agonia, seu corpo contorcia-se incontrolavelmente, sua garganta fechava e o ar já não era bem-vindo. Em 40 minutos, toda sua vida estava resolvida.

Era realmente difícil matar uma pessoa para salvar-lhe a vida.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Capítulo 3 - Linha de Frente

Capítulo 3

Linha de Frente


Portugal havia declarado guerra a Alemanha há pouco tempo, mesmo que já estivessem em conflito há dois anos na região da África. Durante esse tempo já enviaram duas forças para expulsar as tropas alemãs de Moçambique, contudo não obtiveram sucesso.

Nesse terceiro esforço de expulsar os alemães Daniel Dolores foi um dos enviados. Quando ele foi acordado pelo alarme da manhã não pôde deixar de sentir raiva por ter dormido tão bem, e mesmo assim não ter descansado o quanto queria. Contudo suas preocupações desapareceram ao olhar para o lado e ver que o seu colega estava acordado, e ao olhar com calma os olhos dele, viu olheiras de quem já está muitos dias sem conseguir dormir.

- O dia começa só agora, soldado Flores. Não era necessário fazer um turno extra acordado.

O soldado Flores parecia distante, e sua resposta veio sem nenhuma vontade.

- Sim.

Muitas pessoas estavam abatidas com a guerra, mas o Marco Flores não parecia estar nesse grupo. Claro que as olheiras eram evidentes e ele passava os dias em um profundo silêncio não falando mais que o necessário, mas Daniel sabia que ele era um homem responsável e até mesmo alegre, e que estava agindo daquela forma pois de fato ele não pertencia aquele lugar, e sua cabeça estava sempre longe, pensando em sua mulher e filho. Daniel, por outro lado, era um falido que não tinha talento para muita coisa, e aceitou o risco da guerra e seu soldo de bom grado. Talvez por isso ele conseguisse até mesmo se divertir no meio de todo aquele caos e abatimento.

***

Enquanto estavam nessa zona mais tranquila, próxima a costa. Os soldados tiveram dias para descansar e recuperar os ânimos. Ainda tinham que se exercitar e fazer alguns trabalhos menores como consertar equipamento, mas de fato estavam tendo dias melhores. Todas as manhãs os esquadrões se reuniam com seus capitães. Nesse momento se haviam cartas para ser entregues, era informado e se houvesse qualquer atividade designada para aquele esquadrão ela já era atribuída a seus membros.

- Estamos de mudança, homens - disse o capitão olhando sério para os soldados.- Acho que todos tiveram tempo para dormir bem, comer bem e colocar as fofocas em dia. Está na hora de honrar nossa bandeira e nosso povo e começar a se mover. Iremos entrar em combate e iremos para ganhar.

O capitão via que o ânimo dos soldados havia sido abalado, todos que estavam naquele batalhão se consideravam amaldiçoados por estar naquele lugar onde não havia tido vitória portuguesa.

Nem todos os dias eram realmente quentes, mas aquele em especial estava com um Sol muito forte, mesmo cedo pela manhã. Acrescentando isso ao ânimo de seus homens, fez com que o Capitão Gonçalo também perdesse a vontade de continuar com seu discurso patriota. Ninguém ali estava em um parque, e todos sabiam disso. Agora a ação iria apenas aumentar. Ele dispensou os homens e se afastou procurando ficar sozinho.

***

Passado algum tempo ele ouviu passos familiares de duas pessoas se aproximando.

- Capitão - fizeram uma continência os soldados Flores e Dolores.
- A vontade, soldados. Mesmo depois de tanto tempo acho estranho ver vocês dois batendo continência para um amigo.
- Regras de hierarquia - disse Daniel se aproximando.

O capitão Gonçalo gostava de ficar próximo a costa, ouvindo as ondas e pensando. Ele nunca de fato fora realmente amigo daqueles dois, talvez de Marco. Mas com a guerra acabaram ficando mais próximos, aquele não era exatamente um ambiente agradável para ninguém, o que criava amizades e as vezes até algo mais.

- Então vamos começar atirar em alemães para variar, hein? - insistiu Daniel puxando assunto.

- Eu não sei o que o Coronel Gil pretende, mas ele parece confiante. Me pergunto se eu estaria mais confiante ficando aqui na costa comandando tudo em vez de estar na linha de frente.

Pairou um silêncio no ar e apenas o som das ondas pôde ser ouvido. Gonçalo olhou para Marco e por um breve segundo lembrou de Lore. Afastou o pensamento da cabeça e se levantou um pouco sem jeito.

- Acho que todos nós estaríamos um pouco mais confiantes nessa situação - respondeu Daniel.

Como sempre nos últimos dias Marco permaneceu a conversa inteira calado, enquanto os outros dois ainda discutiram alguns assuntos que ele não realmente dava muita importância. De fato, ele estava ainda mais preocupado com Lore, pois agora ele provavelmente ficaria sem notícias nenhuma dela e de Augusto. E alguma coisa naquele plano todo de finalmente ir para a linha de frente não estava fazendo bem para ele. Se ele fosse morrer, como ficaria ela tendo que criar seu filho sozinho?

Esse pensamento ficou em sua cabeça por muito tempo sem que ele conseguisse encontrar alguma solução real.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Capítulo 2 - Tempo

Capítulo 2

Tempo


Pietro afiava sua faca favorita contra uma pedra de amolar quando a viu pela primeira vez. Ela tinha os cabelos escuros, a pele clara e os olhos verdes mais bonitos deste lado do Oceano Escuro. Ele era só um filho de ferreiro, sujo do ofício e sem lugar no mundo. Por isso, quando se viu sentado sobre o muro, afiando sua faca e observando Lore escolher entre cebolas e tomates, Pietro sorriu. "Algumas coisas nunca mudam", disse para si mesmo. Desceu num salto e correu até o armazém.

"Adivinha quem é?", disse Pietro, cobrindo os olhos da moça por detrás, com a mão direita. Lore se surpreendeu por um breve segundo, mas logo reconheceu a voz do amigo de infância.
"Hm... Pietro?", respondeu sorrindo de leve.
"Droga, e eu achando que me passava por General Longo", disse o rapaz. Lore sorriu.
Pietro sempre foi assim, desde que eram tão pequenos que conseguiam roubar bolo da cozinha da velha Rita sem serem vistos. Bom, ele conseguia. Se tinha algo que Pietro fazia melhor do que ignorar regras, era ser rápido e silencioso. Mesmo depois de homem feito, não era raro ouvir de alguma peripécia da qual Lore sabia que só ele seria capaz. Era como se o tempo e a guerra não fossem capazes de domar seu espírito de criança.

"Como andam as coisas? Eu não te vejo há dias", perguntou o rapaz. Pietro era um dos poucos homens jovens que restavam na pequena cidade. A guerra havia levado quase todos homens saudáveis, de uma forma ou de outra. Embora fosse consideravelmente forte, o acidente na forja que o fez perder a mão esquerda anos atrás garantiu que nunca seria convocado. Mas Lore tomava o cuidado de não tocar no assunto- parte dela achava que, se tivesse a opção, Pietro escolheria estar na guerra.

"Tudo vai bem", respondeu Lore. "Augusto está crescendo rápido e Marco disse que foi enviado para uma região sem conflitos. Ahh, e eu consegui um trabalho", acrescentou, sucinta.
"Ele disse quando volta?", perguntou Pietro, como que tivesse ignorado o restante da resposta.
"Disse que vai mandar nova carta assim que possível, sim", respondeu de imediato.
Pietro pensou por um segundo, incerto. "Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, não é?"
"Eu sei, Pietro", disse Lore, e gentilmente lhe beijou a testa.
Lore sabia o que Pietro sentia por ela. Mas, depois de tanto tempo, ver o rapaz evocava em Lore sentimentos mistos de nostalgia e tristeza, e ela preferia não pensar a respeito. Já não eram mais crianças. Os tempos haviam mudado.

***

De volta em casa, Lore tratou de seus afazeres domésticos e se recolheu cedo. Enquanto esperava Augusto cair no sono, pegou-se pensando em seu novo trabalho. Segundo os comentários que havia ouvido das demais, era bem provável que o excelentíssimo General Julius Longo estivesse presente no dia seguinte. Estava estranhamente ansiosa para conhecê-lo.

Diziam que o general era um homem enrijecido pelo tempo. Diziam que havia lutado e tomado um acampamento inimigo acompanhado de apenas três homens de confiança, quando mais jovem, e que já esteve tão perto de morrer que era como se já estivesse morto. Lore se perguntou como poderia um homem como esse, que já viu a morte em todas suas mil faces, ser capaz de se agarrar à vida.

A vida se provara mais difícil do que outrora imaginara, em seus tempos de menina. Seus pais partiram juntos, já havia muitos invernos. Eram apenas ela, Marco e o pequeno Augusto. E agora Marco a deixara. O chamado da guerra, irrefutável.
"Mas ele certamente voltará", se assegurou. "Ele tem de voltar. Se ele não voltar..."
Calou-se. O mero pensar no assunto era o suficiente para lhe fazer estremecer. Não havia hesitado até então, não seria essa noite que o faria. Virou-se e deixou o sono lhe tomar.

Naquela noite, como em todas as noites, Lore teve um sonho ruim. As pessoas eram armas e matavam umas as outras por medo. O tempo andava de costas e dançava na ponta da adaga.

sábado, 15 de junho de 2013

Capítulo 1 - Uma Gratidão Amarga

Capítulo 1

Uma Gratidão Amarga


Querida Lore,

Fico feliz que a febre do nosso pequeno Augusto tenha passado. Pode te parecer que em meio à guerra essa seria das menores preocupações que tenho, mas eu genuinamente pensava em pouco mais que isso nos últimos dias.

Nossa divisão teve sorte de ser alocada, desta vez, para uma vila relativamente pacífica em área já consolidada. Mesmo quando não é assim, saibas que tenho vocês sempre em mente. É o que mantém minha sanidade.

Mas não quero que te preocupes comigo, já tens o suficiente para resolver sozinha. Espero que até receberes esta carta já tenhas o emprego de que precisas. Senão, repasso uma indicação de meus colegas: aparentemente o próprio exército está contratando esposas de soldados para trabalhar em suas sedes administrativas, e sendo particularmente generoso com essas moças. Gonçalo conta que sua esposa foi contratada somente para manter as lareiras acesas, por apenas um turno, e que suas duas pequenas são mantidas durante o dia em aposentos do próprio exército, compartilhando uma babá com outras 6 crianças.

Peço que te inscrevas para um emprego do tipo, se ainda não o tiveres. Me parece a melhor solução para todos teus problemas, e certamente tiraria mais uma de minhas preocupações. Deus sabe que preciso disso. 

Com dolorosas saudades,
Marco

***

"Querido, não te preocupes, voltarei em poucas horas para te buscar." Apesar de todos os esforços de Lore, as lágrimas continuavam a escorrer no rosto de Augusto. Era natural que sofresse, após viver os seus primeiros 3 anos na total proximidade de sua mãe, ou pelo menos em ambientes familiares.  "Façamos assim: prometes te comportar e tentar te divertir um pouco, e depois que o coche nos deixar em casa faço um bolo de cenoura. Teu favorito!" A menção do bolo pareceu fazer algum efeito. "Mas só se te comportares e obedeceres à senhora Rosa. Combinado?"—o que gerou um aceno tímido da pequena cabeça. O bolo consumiria todo o açúcar a que tinha direito pelo mês, e que mal podia comprar, mas valeria a pena.

Com um beijo na testa do menino, pôde finalmente deixá-lo para ir trabalhar. Chegaria ligeiramente atrasada para o primeiro dia, mas com sorte isso seria tolerado. Afinal, após empregar tantas esposas e viúvas de soldados, já devem estar acostumados a lidar com esses problemas. 

Lore não podia deixar de sentir gratidão—pelo emprego de um turno, pelo salário melhor que em empregos comuns de dois turnos, pelo coche que a buscava em casa e pelos cuidados com seu pequeno Augusto. Uma gratidão marcada, porém, por um ligeiro amargor—a lembrança de que nada disso seria necessário, não fora seu marido chamado para a guerra pela mesma instituição que agora a ajudava.

***

Limpava um escritório que mais parecia a biblioteca de uma nobre mansão. A sede do Exército causava uma sensação estranha, contrastando o calor e delicadeza das lareiras, dos tapetes, das cortinas, das pinturas e da marcenaria ornamentada com a frieza e seriedade dos homens que lá trabalhavam e das decisões que lá eram tomadas. Uma secretária digitava incessantemente em uma máquina de escrever, sentada atrás de uma elegante escrivaninha de mogno. Outra servente viera pela terceira vez verificar o fogo da lareira.

Lore ainda não pudera conhecer o General Longo, líder do exército e ocupante do escritório que agora limpava futilmente, dado seu estado impecável. Aparentemente, a escrivaninha do General era limpa apenas enquanto ele estava fora, em reuniões.  Uma escrivaninha de mogno com detalhes em ouro, sobre a qual não havia um grão de poeira; apenas alguns papéis, e nem sob eles havia sinal de sujeira

A tinta sobre os papéis, no entanto, parecia desordenada, jogada casualmente para formar letras em ordem aleatória, sem sentido. Em um segundo olhar, porém... Algumas palavras pareciam familiares. Considerando os sons que Lore podia interpretar delas, pareciam vir daquele idioma grosseiro da nação inimiga. Alguns destes deselegantes termos que se infiltraram em nosso idioma.

Tais papéis—escritos no idioma do inimigo—pareciam estranhos, na escrivaninha do homem que dissera não haver mais espaço para diálogo—que mantivera tal posição durante os longos anos da guerra. Mas não cabia a Lore questionar tais cartas; era uma simples servente que pretendia manter o seu emprego e a segurança do filho.

***

"Filho, vou ao armazém. Prometes te comportar enquanto não volto?"

"Prometo", se esforçou Augusto a responder com a boca cheia de bolo. Lore temia deixar o filho sozinho em casa por muito tempo, mas não havia solução enquanto estava sozinha, e o marido longe lutando na guerra.

Enquanto caminhava diligentemente, mal percebia o caminho tão familiar a seu redor—principalmente dadas as preocupações que tinha—, até ser surpreendida por uma voz estranha.

"Olá! Deves ser Lore Flores, não?", perguntou a moça jovem e desconhecida que aparecera ao seu lado.

"Sim," respondeu Lore secamente, "conheço a senhora?"

"Ah, desculpe-me! Sou Mara Rodrigues, irmã de Lúcia Fraga. Vim ajudá-la com a taverna, agora que seu marido faleceu."

Ah, a irmã da pobre Lúcia! Lúcia e Lore foram grandes amigas desde crianças, embora disputassem a mão de Felipe Rodrigues. Desde o noivado dos dois, Lore manteve alguma inveja da amiga—até que a guerra começou e Felipe foi um dos primeiros convocados. Sete anos depois, foi baleado fatalmente em uma patrulha, em território considerado seguro. Isso fora apenas um mês atrás.

"Ah, Mara, prazer em conhecê-la", disse Lore, agora amigavelmente. "Ainda bem que vieste ajudar, a pobre Lúcia já penava para manter a taverna sem o peso do luto. Nas últimas semanas tem uma aparência tão sofrida que sua sobrevivência quase surpreende."

"Por sorte dela nunca casei, então pude vir ajudá-la.  Soube que teu marido também foi chamado, e que agora trabalhas para o exército. Deve ser interessante trabalhar tão perto de onde as decisões são feitas."

"As condições do trabalho são de fato muito boas."

"E a emoção de ver as decisões sendo tomadas? Deves ficar muito mais a par dos desdobramentos da guerra do que os cidadãos comuns". Havia algo de estranho no interesse—quase excitação—de Mara, um pouco exagerado.

A conversa foi, porém, interrompida: chegavam à porta do armazém. Lore despediu-se de Mara, e o preço das cebolas racionadas a distraiu de suas desconfianças.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Capítulo 14 - "Mi Juanita"

1

"Mi juanita, não me deixe. Como pode um homem como eu viver sem sua flor? Não se vá, Juanita, que minha vida agora é por ti" - Deric foi atirado de suas divagações e lembranças de volta ao mundo real. Tinha os olhos surpresos fixos na dona da pousada. Ela, que fazia não perceber, continuava sua declamação, amarga, ressentida: "Como podes amar alguém que te deixa sem amparo numa cidade como esta? Que não te responde cartas, menos então faz cortes ou desfia galanteios?". A mulher pronunciou a última palavra com asco, com olhos vermelhos; com a mesma expressão, tira o revolver do bolso do vestido largo.

2

"Minha vez de contar uma história...", Ao ouvir, Richard juntou-se aos demais, "... é a história de uma menina que abandonou o México por amor. Amor a um filho que não tinha lugar para nascer, que não seria tratado como merecem os inocentes. Uma menina que teve que ter coragem de buscar sozinha uma vida que não lhe batesse na cara, mas algumas pessoas nascem pra apanhar. Elas passam por todos os tipos de agressão que a vida conhece; até que elas decidam bater.", a dona da pousada seca uma lágrima com as costas da mão; sente o metal frio do revolver no rosto e um arrepio.
"Essa menina perdeu a pureza em meio às lágrimas de ódio e dor. Perdeu todos os sonhos afogados no sangue que a vida lhe tirou. Essa menina viu o amor de sua vida, pai de seu filho, morrer sem dizer palavra; viu seu assassino vangloriar-se por vencer o duelo. Entregou-se, grávida e contrariada, a um homem que a tratou como um animal, com sangue de seu amor nas mãos e todas as juras de ódio que ela era capaz sobre seu destino."

3

A dona da pousada caminha em direção de Deric, soturna, "Sempre um prazer revê-lo, meu galante senhor. Espero que lembre deste revolver; ele sentiu tua falta. Espero que o cheiro morno de sangue e meu grito de desespero permaneçam em tua memória."
Deric estava imerso em inanição. Via o brilho do revolver recém polido na linha dos seus olhos. Via suas iniciais do lado direito do cano. Não conseguia suplicar por sua vida, nem pedir perdão, apenas via Juanita, com o cabelo negro caindo no rosto, sua Juanita.
"Olha bem pra tudo aqui, Deric. Olha para o Richard, para mim. Eu vivi estes anos todos pelo dia que vingaria a inocência morta. Que faria sobrepôr este mundo torpe a família que sonhei."

4

"Não precisas ser uma assassina como ele! Tenho certeza que ele...", o momento de coragem de Eytan foi interrompido pela precisa espingarda de Richard. Ninguém conseguiu esboçar qualquer reação. Julia via o sangue escorrer pela cabeça do garoto; sentia quente como que escorresse em si.
Richard apontou a espingarda para Julia, "Por Dita.". A moça lentamente juntou-se a Eytan no centro do círculo, numa poça espessa e brilhante, cheirando à vingança morna.

5

Juanita continuou, "Aprendi com a vida que sangue se paga com sangue. Não há perdão a quem não se arrepende.", chegou mais perto de Deric, com o sorriso da adolescência, e puxou o gatilho, lentamente. Ele continuava inerte; com a mente no amor que teve e não morreu. Que não morreria, nem que ficasse sem um coração para se hospedar. Sentia seu sangue na palma da mão, como sentiu outrora o sangue de outro. Parecia que agora escorria mais devagar, mais saudoso. Em seu delírio, via a face de sua Juanita moça com rajadas vermelhas, sorrindo. Teve no rosto dela o último suspiro.

6

Pegou no bolso de Deric os cigarros, acendeu um, tragou profundamente e atirou o fósforo na trilha de combustível que Richard tinha feito pela pousada.
Todos se afastavam enquanto a pousada pegava fogo. Juanita parou ao longe para vê-la queimar, para sentir o cheiro de sangue em chamas.
Estava livre para seguir sua vida com seu filho. "Sangue com sangue foi pago"


terça-feira, 5 de março de 2013

Capítulo 13 - Esmeralda




Anthony estava sentado em uma cadeira próxima a porta. Deric estava sentado ao seu lado, assim como a dona da pensão. Richard não estava presente.

- Você vai precisar chamar a garota, Eytan. - Falou Anthony com a voz um pouco rouca. Havia algo de estranho na voz dele, mas naquele momento Eytan realmente não soube dizer exatamente o quê.



- Posso saber o motivo pelo qual agora ela deve ser envolvida? - Eytan questionou sem parar de andar na direção dele.

- Claro, jovem, a razão - disse ele gesticulando - é o círculo.

Somente então Eytan notou que não havia como completar um círculo ali.

- Ao menos com a garota podemos deixar mais semelhante a um. - continuou Anthony.

Eythan ficou um tempo parado encarando o velho senhor. Depois percebeu que aquele homem não desejava mal algum a ele e se estava pedindo que Julia viesse, realmente seria necessário.

Voltou alguns instantes depois, trazendo Julia semi acordada para o círculo.

- Muito bem, acho que hoje seremos apenas nós.

Julia olhou em volta e sentiu a falta de Richard, mas decidiu não perguntar a respeito. Não estava habituada àqueles rituais, talvez não fosse uma boa ideia interromper. Estava mais preocupada com o fato de ter sido chamada e tinha plena certeza de que a razão pra isso era pra que ela contasse uma história.

- Hoje quem nos iluminará será, você, Deric.

Eythan ficou realmente surpreso com aquilo, tinha plena certeza de que seria ele quem contaria a história (Deric havia dito isso). Olhou para Deric e notou que se aquele homem estava surpreso, nem em mil anos de observação ele saberia.

Deric ajeitou sua cadeira e mexeu em seus bolsos. Pegou um maço de cigarros. Anthony observou os movimentos calmos dele e achou incrível que mesmo depois de tanto tempo ele ainda tivesse aquele velho maço. Deric deixou cair um cigarro em sua mão. Marcado no filtro estava uma única letra: "E". Arrancou o filtro do cigarro fora e ascendeu um fósforo. Começou a sentir um prazer por voltar a fumar antes mesmo de colocar o cigarro na boca.

- A história que vou contar hoje - começou ele com a voz rouca, talvez por não estar preparado para falar - é sobre uma garota que conheci certa vez. O nome dela era Esmeralda.

"Esmeralda morava perto de onde eu trabalho... ou melhor trabalhava. Tinha um sotaque charmoso, mas não sei dizer se ela realmente era uma mexicana ou algo assim. Eu era um pouco jovem, ao menos imaturo, não demorou muito para que eu caísse de amores por ela. Se hoje sei levantar uma arma foi por causa dela, pois naquele tempo eu não sabia fazer muito. E foi graças a ela que descobri algumas coisas sobre mim."

Durante a narrativa Deric parava algumas vezes, talvez para aproveitar o cigarro, talvez para lembrar o que ia dizer ou talvez para pensar no que não iria mencionar.

"O fim da nossa relação foi algo marcante, ela tinha um namorado de fora do país, mas nunca havia me falado. Certa vez ele veio visitá-la, mas não avisou ninguém. O resultado desse dia foi que eu me tornei um assassino."

Ele parou nesse momento e ficou olhando para lugar nenhum. Depois de alguns segundos retomou:

"Felizmente era um imigrante ilegal, um fantasma. Consegui me livrar dele e nunca fui acusado ou perseguido por ninguém. Esmeralda nunca me perdoou, mas naquele ponto ela já não era mais uma pessoa interessante. Seguimos caminhos diferentes e o meu me trouxe até aqui."

Ele encerrou dando uma última tragada, agora com bastante vontade. Jogou seu cigarro fora e olhou os outros membros do círculo. Estavam todos em silêncio, certamente não impressionados pela narrativa, mas sim pelo fato de nada ter acontecido. Nenhum vento estranho, nenhum som de escorpião... nada.

- Acho que agora que terminei minha história você já pode entrar, Richard.

Richard saiu da escuridão da rua e entrou na pensão. Estava completamente sujo de terra e parecia outra pessoa. Entrou e olhou diretamente para Julia e Eytan. Em um canto da sala o cigarro apagou.