1
Aquele estrondo ficou ecoando na sua cabeça e ele não sabia se ouvia mais tiros ou se era simplesmente a recordação do primeiro. Tomou um gole d’água suja, que era o que se conseguia naquele quarto, e tentou se acalmar. Sair do quarto não passaria pela sua cabeça; se ele queria saber o que estava acontecendo, ele também não queria ter que descobrir por si só.
O frio era simplesmente insuportável, mas não havia muito a se fazer. Vestiu todas as suas roupas e se enrolou numa colcha velha e poeirenta. Nada parecia resolver. O lugar não tinha nada de aconchegante ou confortável, mas Eytan estava realmente feliz por não estar na rua.
Lembrou que tinha ainda uma garrafa de gim na mala e decidiu resolver o problema dos tiros que ouvia e do frio que sentia. Bebeu dois grandes goles da garrafa e voltou para a cama. Dormir não demorou nada.
2
Dormia profundamente; o dia tinha sido extremamente longo. Nem ao menos sonhava.
Infelizmente não durou muito esta paz. Eytan acordou, assustado. Parecia que tinha alguém em sua cama e... tinha!
Ela não o deixou gritar, embora ele realmente tenha tentado. Acabou dando um tapa no rosto da visitante furtiva e viu o brilho de suas lágrimas. Imediatamente abraçou-a, desajeitadamente, como que pedindo desculpas silenciosamente.
Assim que acalmou-se do susto, precisava mesmo saber o que era tudo aquilo. Afinal, ainda se ouvia tiros na rua, e a moça tremia, chorando ainda mais, disfarçando os soluços.
3
Quando Eytan percebeu, já o sol nascia e o calor tinha voltado. Eles tinham dormido, abraçados. A moça parecia se esconder com a colcha, apesar de todo o calor que fazia.
Ele ficou apenas olhando-a, com uma expressão extremamente curiosa e assustada. Ela percebeu.
“Eu... não sei por onde começar. Meu nome é Mercedes. Eu fugi de casa. Meu pai queria que eu me casasse...”, ela volta a chorar, mas logo se acalma. “... que eu casasse com um deles. Meu pai é um deles. Eu não queria, não queria! Odeio todos! E... a minha mãezinha... ela não merecia... não merecia... eu odeio eles todos!”. Eytan não sabia o que dizer, pra variar.
Consentiu em ajudá-la, não sabia porquê. E realmente devia ser menos ingênuo, mas isso ficaria pra uma próxima ocasião. Escondeu Mercedes junto às tábuas que vedavam o banheiro, cobrindo-a com a colcha da cama e foi tomar café.
4
Por mais que a janta fosse ruim, o café da manhã fazia-a parecer um manjar. Ainda assim comeu, e deu um jeito de esconder uns pedaços de bolo seco no bolso, rezando para que Lindsay não visse; não queria - e não podia - dar explicações.
Quando voltava para o quarto foi puxado por Julia. “Eu te esperei. Por muito tempo.”, disse ela, com uma expressão entre reprovação e tristeza. Eytan, porém, só conseguia pensar em Mercedes e nos terríveis pedaços de bolo que estava levando para ela, “Desculpe-me, eu esqueci”, disse por fim.
Imediatamente Julia percebeu que tinha algo estranho, e sabia que não podia, de forma alguma, perder a atenção de Eytan. Trancou a porta, empurrou-o para que sentasse na cama e foi trocar de roupa, de forma que ele visse sua sombra apenas. “De displicente só a mecha; atriz pornô”, pensou Eytan enquanto Julia usava mais um de seus truques, convencida de que fazia certo.
Ele deixou aquela cena toda correndo; pegou a chave na cabeceira, abriu a porta e correu para o seu quarto, se trancando lá.
“Mercedes”, chamou sussurrando. Ela parecia não estar ali. Será que estava bem? Ele já estava quase chorando. Eles podiam ter encontrado-a. Eles... que ele não sabia quem eram.
Sentou-se na cama e percebeu que havia algo errado. Encontrou Mercedes dormindo embaixo de sua cama. Tudo parecia estar bem agora.
“Mercedes”, chamou novamente. “Dita... me chame de Dita”. Deu à moça os pedaços de bolo, ela lhe agradeceu com o olhar.
Até então não tinha visto o rosto de Dita. Era morena e delicada; bonita. Certamente era mexicana. Tinha uma ânsia por saber qual era o mistério que aquela menina carregava, mas o medo de assustá-la era ainda maior. Ela parecia tão frágil.
5
Alguém batia à porta. O medo era claro no rosto de Dita e Eytan, mas em poucos segundos ele lembrou de Julia. Dita correu para o seu esconderijo junto à gelosia da porta do banheiro; ele abriu a porta, como se nada estivesse acontecendo. Ele fingia muito mal.
Julia tinha os olhos vermelhos e o rosto molhado. Pegou as mãos dele entre as suas e olhou-o com o seu olhar de maior aflição. “Richard... ele me ameaçou ontem à noite”, sussurrou ela, e se atirou na cama.
Não podia deixá-la assim. Precisava fazer algo. Ia falar com Richard. E foi o que fez. Correu até o pátio procurando por Richard, mas quando o viu aquela coragem se esvaiu e voltou para o quarto. Julia olhava-o como quem perguntava o que estava fazendo e ele vagamente respondeu “fui apenas ver se estavam servindo o almoço”.
Eytan foi até a janela, de onde enxergava Richard, e o viu polindo uma arma. Imediatamente lembrou-se dos tiros. Chamou Julia, “Ammm... moça? Venha ver isso!”, “Julia, menino, Julia”, “Ah, sim, prazer, Eytan”, logo ele lembrou-se do que acontecia e mostrou a ela, que imediatamente voltou a chorar.
Dita ouvia tudo, de seu esconderijo, incrédula. Ela conhecia Richard desde a infância, e sabia que havia algo estranho.
“Essa era a arma que ele tinha ontem quando foi até o meu quarto...”, Julia mostrou a Eytan um hematoma que tinha nas costas. “Foi Richard quem fez isso?”, perguntou-lhe. “E quem mais haveria de ser...?”.
“Vou tirar satisfações com ele. Agora”, bradou Eytan. “Não! Ele pode matá-lo!”, suplicou Julia. Não adiantou. Eytan bateu a porta atrás de si, correndo para a rua; à Julia só restou ficar olhando pela janela.
Acerca do processo de criação do capítulo:
ResponderExcluirA história tomou um rumo estupidamente diferente do que eu previra :P
Acabei atirando todas as minhas idéias fora e criando tudo novamente.
Quanto aos novos personagens criados pelo Drews, eu resolvi deixá-los em segundo plano, pra que pudesse explicar alguns furos da história, como por exemplo, introduzir os problemas entre a Julia e o Richard. Se o próximo capítulo fosse meu, saberia perfeitamente como explicá-los, mas a graça disso daqui é ver a história ruir e ser reconstruída a cada novo capítulo - e consequentemente ter que pensar em tudo novamente, a cada um destes processos :P
Confio no Grifo para dar o desenlace deste problema :)
Acabei por introduzir um novo personagem, que caiu de paraquedas na história - ou deveria dizer que caiu da janela?
Espero que ele não complique muito a vida do Grifo (na verdade eu espero que complique muito :P)
parabéns, conseguiu :D
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