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sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo 13 - Atentados

Capítulo 13

Atentados


Lore queria — precisava — continuar seu escândalo, sua resistência. Assim exteriorizava seu desespero, em vez de deixá-lo acumular, enchê-la, quase que explodi-la. O éter, no entanto, forçava sua quietude. Enquanto deslizava em direção à inconsciência, amaldiçoava não só o General Longo e o exército, mas também Mara, Alfredo Neves e o grupo que se aproveitara de sua raiva, para depois traí-la.

***

"Boa noite Mara, a taverna ainda está aberta?"

"Lore, é claro! Entra, senta, por favor."

Normalmente, Mara expulsaria qualquer freguês que chegasse a essa hora, faltando poucos minutos para a taverna fechar. Para Lore, porém, uma excessão era apropriada. Naquela noite Lore destilara sua raiva em uma carta a Daniel Dolores, percebendo a seguir que o real alvo de tal rancor eram aqueles que, em seus jogos de guerra, causaram a morte de Marco. Embora Mara não conhecesse os pensamentos de Lore, podia ver o reflexo do ódio e do pesar em seu rosto.

"Um conhaque, por favor" foi o pedido preocupante de Lore, que não tinha o hábito de beber.

"Lore, tens certeza disso? Sei que perdeste o homem que amas, mas a bebida te trará pouco consolo, e nenhuma chance de recuperação. Já vi muitos seguirem este caminho, e ele só te levará à tua destruição."

"Que seja, pelo menos minha dor será destruída comigo. Comigo, ou com Longo e todos os outros desgraçados que brincam com nossas vidas. Mas Deus sabe que só tenho poder sobre mim mesma."

O desespero de Lore abria uma oportunidade. Mara precisava tomá-la, não só por sua causa, mas também para o bem da amiga. Afinal, sabia de primeira mão como um objetivo pode trazer alguém de volta à vida.

"E se houver uma maneira de ajudares a acabar com esta guerra e com os abusos de nosso exército?"

***

Cabo Montes se dirigia, como já era rotina, ao escritório onde Alferes Junqueira o esperava. Todo início de tarde ia buscar a lista de esposas que se descobririam viúvas, mas nesta vez quase esbarrou em uma servente que saía da sala ao mesmo tempo em que ele ia entrar.

A dor estampada no rosto da servente lhe era familiar, não era a primeira vez que a via inesperadamente — embora desta vez a dor parecesse acompanhada de uam misteriosa determinação. Não foi difícil reconhecer a viúva que, há poucos dias, parecera pressentir a notícia que Cabo Montes daria.
"Nos encontramos novamente, Cabo" disse Lore antes que ele se recuperasse da surpresa. "Suponho que era inevitável que isso ocorresse."

"Não sabia que trabalhas aqui. Meus pêsames, é uma pena que tantos bons homens sejam levados pela guerra. Com sorte ela acabará logo, e positivamente."

"Ah, Cabo, mas todos os jornais concordam que a guerra ainda nos custará muito tempo e muitas vidas." Jornais? A servente sabia ler? "Gostaria de poder esperar por esta sorte, mas tenho que trabalhar. Passar bem."

Enquanto Lore seguia pelo corredor, Cabo Montes ponderava a coincidência. A viúva, alfabetizada, limpava o escritório onde as listas de soldados falecidos eram distribuídas. Talvez não fosse um pressentimento que a levara a abrir a porta já desolada, naquele fim de tarde.

"Alferes Junqueira, acabo de ter um encontro muito estranho."

***

As suspeitas relatadas a Álvaro Fernandes procediam. A moça que seguia há apenas dois dias terminava um breve encontro com Alfredo Neves, um anarquista que há meses escapava de perseguição policial. Como mantiveram uma informante no quartel general, com acesso o escritório do próprio General Longo, ainda era um mistério.

A moça se afastava na direção oposta, desaparecendo na escuridão da noite. Álvaro a havia perdido, mas seu alvo mudara — seguir o homem que percorria o estreito beco em sua direção traria informações mais úteis. A postura do homem indicava que o trabalho não seria difícil: ombros curvados; mãos nos bolsos; olhos no chão; a atenção focada aparentemente nos pensamentos, em vez do ambiente.

Álvaro começava a se esconder nas sombras quando viu a pouca luz das lamparinas refletida em dois locais do corpo de Alfredo: em seus olhos, voltados à direção de Álvaro, e no revólver que tirava do bolso. O estampido de uma arma de fogo foi seguido em breve pelo choro de uma criança.

Felizmente, os reflexos de Álvaro ainda eram rápidos, e seu revólver estava à mão. Infelizmente, homens mortos não contam segredos nem entregam conspirações. Um apito soava à distância, e policiais chegariam em breve — não haveria tempo para esconder o corpo ou disfarçar o ocorrido, apenas para escapar do local.

***

General Longo estava sentado no pequeno quarto do hospital, seu olhar inquisidor repousando ora sobre a servente — que vira limpar seu escritório, sem suspeitar da alfabetização nem do envolvimento da moça com grupos subversivos —, ora sobre o Coronel — que tanto estimara e que em tão suspeitas circunstâncias se envolvera.

Com algum alívio, pôde constatar que Viriato já se recuperava, seus olhos já refletiam novamente sua inteligência como a luz do sol nascente que entrava pela janela. A servente ainda aparentava desespero, porém após a noite de sono pesado, induzido pelo éter, não mais se rebelava contra todos.

"Alguns acontecimentos muito suspeitos se passaram na madrugada de anteontem. Às quatro horas da manhã, um homem invadiu o Quartel General, surpreendeu o guarda que patrulhava meu corredor e tentou me assassinar. Por sorte, minhas reações ainda são rápidas, e quando ouvi um tiro no corredor preparei uma emboscada em meu escritório."

"O homem era Mischa Vodyanov — teu cunhado, Viriato!" disse Longo controladamente, observando um misto de raiva e medo no rosto de Lore ao ouvir o nome. "Reconheces o nome, senhora Flores?"

"Foi ele! Ele e outro homem, acho que seu pai... Eles invadiram minha casa anteontem, por volta da meia noite, e me levaram, à força, junto com meu filho!" foi a resposta dita enquanto lágrimas surgiam nos olhos de Lore.

"Temos uma sequência intrigante de eventos em nossas mãos. Por volta das dez horas da noite, Viriato, foste espancado — segundo teu depoimento aos médicos. Por volta da meia noite, teu cunhado e teu sogro sequestraram a senhora Flores — que ainda precisa explicar como escapou — e seu filho. Às quatro horas da manhã, o mesmo cunhado invadiu o Quartel General e atentou contra minha vida. Agora vocês precisam explicar exatamente o que ocorreu."