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sábado, 2 de novembro de 2013

Capítulo 10 - Bem Longe de Tudo

Capítulo 10

Bem Longe de Tudo


Naquela noite, após o jantar, Viriato esperou que seu irmão partisse, e que seus pais se recolhessem para dormir, agarrou um casaco quente e saiu. O que quer que estivesse acontecendo, sabia onde encontraria suas respostas.

Viriato nunca havia sido designado para investigar sua própria família. Superior algum expediria tal comando, mas Viriato o fizera de qualquer forma. Não porque o considerava seu dever (embora lhe agradasse acreditar na ideia), mas porque via nessa missão uma oportunidade, uma forma de escapar do seu futuro que parecia ter sido traçado à sua frente contra seu consentimento. Uma chance de fazer a diferença, uma chance de ser lembrado.

Em retrospectiva, jogado naquele beco escuro, talvez não tenha sido sua mais brilhante ideia. Considerou fortemente ficar deitado naquele beco até que a vida melhorasse, ou ao menos até não sentir as costelas em frangalhos. Riu de si mesmo, e no que riu, tossiu sangue por entre os dentes avermelhados.

***

Julius tossia. Dizia-se que o excelentíssimo general Julius Longo poderia derrubar qualquer homem em combate. Ele não diria o mesmo. Sentia o peso dos seus 59 anos em suas costas, um peso acentuado por ter passado tantos dos seus dias de juventude ferido, sem comer, ou sem dormir. De fato, neste exato momento, enfrentava um dos seus maiores inimigos adquiridos no decorrer dos anos: a insônia.

Desde que sua esposa voltara à cidade de seus pais, Julius encontrara ainda maior dificuldade em dormir. Pudera: Julius evitava até mesmo entrar em sua própria casa. Passava suas noites em seu escritório no QG, sentado à mesma mesa em que passava boa parte do dia. De outra forma, temia que os fantasmas de seus erros não lhe deixassem acordar.

A partida de sua esposa foi decidida em uma espécie de falso consenso, no qual Julius tomou parte mais pela vergonha de saber que havia falhado como marido do que pela compreensão de que Isabel estaria em maior segurança longe de uma base militar de renome. Julius não admitiria, mas temia não vê-la de novo. Havia muito ainda por dizer, que só percebera quando a perdera.

Talvez devessem ter filhos. Talvez não fosse tarde demais? Compraria uma pequena casa branca, em algum lugar bem longe de tudo. Dois filhos, um casal -  a mulher estaria satisfeita. Quem sabe um cachorro? Nunca gostara de cachorros (tampouco de crianças), mas faria o sacrifício. É o que as famílias fazem, não é?

'É o que as famílias fazem', repetiu pra si mesmo. Era irônico, pensava, que um homem que havia ido onde tão poucos foram, um homem que se vangloriava de sua capacidade de análise, fosse incapaz de conceber um conceito tão simples. Perguntou-se em que ponto havia esquecido como ser feliz.

Um estouro ecoou pelos corredores. O general despertou de supetão. Não lembrava de ter cochilado, mas isso não era importante: houve um disparo. Alguém havia disparado uma arma de fogo no quartel general do exército, às quatro horas da manhã.

***

Mara terminava de varrer a taverna quando ouviu o som inconfundível do sino da porta da frente. Antes mesmo de virar-se, abordou "Olha, nós já estamos fechados pela noite, procure outro lugar--", quando viu o vulto do rapaz na porta, sujo e ensanguentado. "Eu não acho que quero ir pra casa agora...", disse o rapaz, e custou-lhe um momento para reconhecer Viriato. Mara o convidou para entrar.

Lhe indicou onde sentar, pos a vassoura de lado, agarrou alguns guardanapos e se juntou a ele. "Me desculpe, ainda não é terça-feira..." disse Viriato, com um sorriso triste no rosto sujo. "Não se preocupe com isso", respondeu, enquanto tentava limpar o excesso de sangue e terra no rosto do rapaz. Viriato ficou em silêncio por um segundo.

"Você deve achar que eu sou algum tipo de fracassado." disse Viriato em meio a sorrisos leves, como que disfarçando o impacto que de tais palavras, agora que as dizia em voz alta.

"Eu não disse nada disso.", corrigiu a moça. Sua expressão parecia inabalável.

Viriato respirou fundo, afastou os cabelos sujos do rosto.

"Eu nunca deveria ter me envolvido com aqueles russos desgraçados...", resmungou.

O comentário, vazio de propósito, chamou a atenção da moça.

"Por que você não me conta o que aconteceu?", disse Mara, e sorriu.