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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Capítulo 8 - O peso do mundo


1

Eytan entrou no quarto no mesmo momento em que Julia desligava o celular. "Por que você estava usando o meu celular?", ele perguntou, desconfiado. "Ele não parava de tocar e... era só a sua mãe, queria saber como você estava".
Era órfão desde os doze anos, mas realmente não estava com ânimo para discutir. Resolveu que falaria com ela sobre isso outra hora.
Julia saiu do quarto; o que foi um alento. Eytan sentou na cama e por um momento esqueceu-se de Dita, quando percebeu que ela estava ali viu também o olhar assustado no rosto da menina. "O que aconteceu aqui antes?"
Mercedes, num ímpeto, ia contar-lhe tudo, mas pensou bem e só confirmou a história de Julia. Sentia medo da garota cínica, que agora tinha uma arma contra ela: conhecimento; por mais que ela não soubesse todos os fatos, ela sabia como acabar com a sua vida. Decidiu ir para o canto da porta do banheiro e tentar dormir.

2

"Eytan, posso dormir com você?", sussurrou Dita, depois de se conformar que tinha coisas demais na cabeça para conseguir dormir. Ele negou-lhe, ainda sonolento. Ela precisava de alguém, mesmo que fosse ele. Precisava aplacar seus medos. Nesta ânsia, deu-lhe um beijo leve. "Posso dormir com você agora?". Pasmo, o ruivo nem respondeu, apenas cedeu um lugar para ela, deixando um grande vão entre eles, mas era apenas isso que Dita queria.
Enquanto dormiam Julia já planejava uma forma de sair dali. Aquele moleque desajeitado já estava acabando com a sua paciência. Certamente os Escorpiões eram muito mais eficientes. Ela tinha o que eles queriam, ou melhor, quem eles queriam, e isso a deixava em vantagem.
Pouco mais de meia hora depois Eytan e foi tomar café da tarde, Julia foi, como uma gata sorrateira, até o quarto dele. Abriu a porta devagar e não encontrou Dita. Decidiu que deixaria um bilhete; "Apareça no último quarto do corredor, assim que anoit...", nesse momento ela ouviu um suspiro, certamente alguém chorando. Levantou as cortinas e viu a mexicana escondendo o rosto nas mãos e abafando os suspiros. "Tão melhor assim. Hoje, assim que anoitecer, no último quarto do corredor. Apenas vá até lá, não conte ao palerma que divide o quarto com você", sussurrou, não menos em tom severo, Julia.

3

No café, Deric senta-se ao lado de Eytan e pergunta-lhe sobre a história. O garoto continua quieto, com o olhar afundado na xícara, não queria mais ter que pensar em toda essa história que ele não entendia. Não queria mais pensar em nada. Só ir pra casa.
Pegou um sanduíche para Dita e foi pro quarto. Chegou, largou o sanduíche sem lhe dizer nada - ainda não tinha entendido o que tinha acontecido na noite anterior -, deitou na cama e dormiu novamente.
Acordou com as batidas de Lindsay na porta, "Garoto! Você está vivo!? Abra a porta", ele abriu, sonolento. Ela pegou-o pela mão e o arrastou até a despensa. "Tenho uma coisa para te contar. Só fique quieto e me escute. Você é um estúpido!", ela sussurrava, escondendo a todo custo o que lhe diria, "Você está com Mercedes. Eles a querem de volta; é a sua obrigação entregá-la e terminar com tudo isso. Ninguém te disse nada, não é mesmo?". Lindsay o olhava com olhos perscrutadores, como que duvidando que houvesse vida há menos que quilômetros dentro daquela expressão impassível. "Dizer?", como se sentia estúpido por não conseguir fazer uma pergunta melhor!
"Essa moça é a causa de tudo isso que vivemos. Richard foi apaixonado por ela, quando ainda eram pouco mais que crianças. Por influência dele, acreditam os Escorpiões, a moça fugiu e nunca mais quis voltar. Eu, sinceramente, acho que foi de tristeza. Assim que a sua amiguinha Julia apareceu por aqui Mercedes perdeu o amor que Richard lhe tinha. Não entendo porque foi que ela voltou para cá, realmente não entendo.". Milagrosamente alguma coisa fazia sentido na sua cabeça. Em todas aquelas intermináveis horas que estava ali, tudo para ele eram mistérios; todos eram mistérios. De súbito uma dúvida arrombou aquela atmosfera de esclarecimento "mas... por que Richard odeia Julia!?". "Oras, garoto. Com tantas coisas tão mais importantes acontecendo aqui, você devia deixar essa dissimulada pra lá. Vá pro seu quarto e pense em uma história, essa noite é sua e a saúde psicológica de todos aqui depende de você". Eytan queria, finalmente, perguntar-lhe o porquê disso, mas era tarde, Lindsay saíra correndo da despensa.

4

Bateu a porta e se atirou na cama, decidido a pensar em uma história, mas tudo que conseguia pensar era na conversa, em Lindsay, Richard, Escorpiões, o calor que fazia, o sol que passava pelo buraco na parede, carro, deserto, sumiço, soco na cara, ferimento, homem com chapéu, mistério, Richard apaixonado por Julia, dissimulada, celular, ligação, sua mãe, e... repentinamente lembrou-se do beijo que Dita lhe dera. Não sabia se porque queria, se gostava dele, ou se simplesmente queria um lugar na cama. Afastou logo esse pensamento e focou finalmente em alguma história.
Contaria a história da morte de sua mãe. Era tudo o que tinha para contar de sua vida. Por mais que tudo aquilo que estava vivendo fosse horrível e assustador, pela primeira vez sentia que estava vivendo. Que devia tomar decisões e elas eram suas. Que era importante e devia fazer o melhor.

5

Julia caminhava de um lado para o outro do quarto pensando numa forma de entregar Mercedes sem que Eytan soubesse ou, pelo menos, tentasse impedir. Nada lhe vinha a mente. Suborná-la era a idéia que melhor lhe parecia, mas não sabia com o quê. Precisava de mais informações sobre ela, sabia que dinheiro, mesmo se tivesse a oferecer, não compraria Mercedes.
Seus pensamentos foram interrompidos por passos ligeiros por toda a pensão. Estava escurecendo.

6

Eytan precisava saber. Tinha uma história para contar, só não tinha uma explicação do porquê era necessário contá-la. Decidiu procurar Anthony. Certamente ele saberia, só precisava convencê-lo a contar. Correu até a frente da pensão e viu-o sentado em uma pedra grande. Aproximou-se.
"Por que devo contar uma história hoje?"
"Você ainda não desistiu, não é mesmo, garoto? Ok, vou contar o porquê.". O velho cavalheiro fez uma pausa que foi, para Eytan, mais que dramática, mas desesperadora. "Os Escorpiões não matam pessoas, nem as seqüestram. Eles as enlouquecem. Jogam com os medos comuns, como escuro, barulho, solidão, sangue, tortura, eles sabem como perturbar qualquer um. Quando disse que tinham levado Louis, não disse que tinham seqüestrado ou assassinado-o, disse que tinham levado a sanidade dele. Depois disso todos aceitam seguir com eles, sob a promessa de que todas aquelas visões não voltarão a assombrá-los. As histórias precisam ser reais para que não nos afastemos do que é possível e realmente acontece. Contamos com você, garoto."
Naquele instante todos correram para as suas posições habituais. Havia uma cadeira para Eytan na frente da porta da pensão. Como se seu corpo tivesse instantaneamente o peso do mundo, se arrastou até ela; sabia seu destino.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Capítulo 7 - Ground


1

Deric ainda ficou mais um tempo sentado na sua cadeira, o chapéu cobrindo os olhos. Concentrou-se para ouvir Anthony conversando com Eytan. Ainda que distante pode ouvir as instruções que o velho senhor passou para Eytan. Contar histórias...  sim, faziam aquilo faz tempo. Toda noite, uma união daquele grupo estranho fazia os Escorpiões não alcançarem todo terror que eles tinham potencial. Isso era apenas uma fase daquele drama todo.

Deric sempre se espantava em ver aquela força que mantinha todos na pousadas unidos quando os ventos se tornavam insuportáveis no deserto. Uma preocupação com o próximo e um altruísmo que faria com que qualquer um acreditasse em um futuro melhor não só para os integrantes da pousada, como também para todo o mundo. Contudo, com o nascer do Sol, tudo era esquecido. O Sol, que nos torna capaz de ver o horizonte, capaz de acreditar que podemos manter tudo como está, e que pode ser exagero o que pensamos nas outras noites. É uma estrela que nos faz megalomaníacos e de tão incríveis, nos torna individualistas também. “Essas vidas são o preço de uma descoberta, o custo de uma ambição.” Pensou Deric. Sim, Deric deixava no deserto - abaixo de uma simples pedra – a maneira de afastar os escorpiões. Mas ele não a entregaria agora. Ela tinha importância para muita gente. Principalmente para ele próprio. E foi assim que ele foi capaz de ignorar a dor de Luis; capaz de esquecer o rosto de Jonathan; capaz de abandonar o amor de Lucy. O ser humano pode ser forte unido, mas sua principal característica é ser egoísta a ponto de nunca se tornar poderoso.

2

Julia estava em seu quarto, próxima a janela. Suas últimas decisões com relação à Eytan estavam erradas e movendo o jovem cadê vez mais para longe dela. Ela precisava reparar isso, alguma coisa podia acontecer a seu favor e mudar o andar dos fatos.

- Preciso sair, isso sim. – murmurou para si mesma enquanto se levantava.

Não se arrumou, não se olhou no espelho e não pensou em falar com Eytan. Apenas foi em direção a sua porta e saiu. Antes de passar pelas escadas, ouviu um som baixo e animado. Parecia uma música pop conhecida. Talvez fosse Lady Gaga ou algo do tipo, ela realmente não se lembrava, mesmo que se esforçasse para usar a parte de sua cultura inútil para tentar encontrar a origem daquela música. Por fim decidiu procurar de onde emanava aquele som distorcido e com uma batida extremamente cativante. Percebeu que vinha do quarto de Eytan. Sorriu para si enquanto pensou “Bem a cara do garotão”.

3

Dita estava aflita ouvindo aquela música absurdamente repetitiva saindo do celular de Eytan. Desejava que ele entrasse logo no quarto e acabasse logo com aquele barulho. Ela pensou em  atender, mas não saberia como lidar com a pessoa do outro lado, e não gostaria de estragar um pouco mais a vida de Eytan, ou mesmo colocar algum tipo de relacionamento dele em perigo. Portanto ficou apenas encarando o celular tocar. Poderia colocar no silencioso, mas era um celular cheio de porcarias que Dita não estava acostumada. Logo de início ela percebia que ele não apresentava sequer um botão. Ao ouvir alguns passos dissimulados perto da porta ficou um pouco aliviada pesando que Eytan finalmente houvesse voltado do almoço. Contudo a surpresa lhe cobriu o rosto quando a porta abriu e Julia entrou no quarto.

4

Eytan já estava cansado do dia que mal tinha passado de sua metade. “Agora virei um bardo, que interessante...” O dia dele deveria ser corrido, ele precisava ainda ir em busca de seu carro. Olhou para Anthony que observava cuidadosamente Eytan e avaliava suas reações. Eytan ainda vacilava pensando que havia deixado a porta do quarto aberta para “caso algo desse errado” Dita pudesse sair. Mal sabia ele que já poderia, nesse exato momento, começar a se arrepender dessa decisão.

5

Lindsay estava passando pelas escadas e viu Julia. Sorriu e se preparou para cumprimentar a bela jovem quando a mesma entrou no quarto de Eytan. Lindsay, que acabara de ver Eytan sair com Anthony para a entrada ficou perplexa olhando aquela cena e se aproximou sorrateira do quarto.

6

Julia tocou na porta e testou a maçaneta meio sem acreditar que estava abrindo a porta. Ainda meio dançando entrou no quarto, mas seus embalos rítmicos foram interrompidos no momento que viu Mercedes. Olhou para ela que lhe devolveu um olhar de surpresa e aos poucos e tornou medo.  Julia encostou a porta e voltou a se embalar no ritmo da música caminhando na direção do celular.  Segurou o celular e pressionou a tela com os dedos fazendo destravar a proteção de tela e atender ao telefone. Esperou pelo estranho que ligava se apresentar pois não achou uma boa idéia iniciar aquele diálogo já que o celular não era seu. Depois  de muito tempo de silêncio (que na realidade não durou mais que 5 segundos) ela ouviu uma voz rouca dizer:

- Com quem falo?

Certamente tinha sido uma pergunta, mas Julia acreditou fortemente que parecia uma ordem. Se no lugar da frase proferida tivesse ouvido um “Diga seu nome, vadia!” ela não se sentiria surpresa, e acharia que combinaria melhor com o tom de voz da frase.

- Com quem gostaria de falar?

Julia sabia que provavelmente aquele tipo de resposta não levaria a lugar algum. Poderia ser simplesmente o homem do guincho dizendo que seu carro não havia sido encontrado.

- Procuro por Eytan, é um assunto para ser tratado somente com sua pessoa.

“Hummm que formal... acredito que um velho homem do guincho não seria tão polido assim para perguntar se fora simplesmente enganado.” pensou Julia.

- Sinto informar que ele no momento não pode atender – disse Julia olhando para a porta encostada  – Você está falando com sua noiva Julia, em que posso ajudar?

Ela sabia que dizer “esposa” poderia forçar demais. Esposa faria essa pessoa pensar que talvez fosse uma mentira, e haveria documentos para atrapalhar essa farsa. Um noivado seria mais provável, ainda mais para alguém jovem como Eytan. Além disso, era completamente confiável revelar muitas coisas para alguém que estava acima de uma namorada, ainda que não fosse uma esposa.

- Sinto muito, mas prefiro manter o assunto sob sigilo, mas agradeço a ajuda. Volto a retornar a ligação mais tarde. Passar...

“Mas como é cuidadoso! Melhor agir, não vou deixar isso passar assim.”

- Sim, muito obrigada. Contudo, gostaria de adverti-lo que este celular encontra-se no fim de sua carga - uma mentira rápida, mas ela começou a considerar recolocar aquela música que Eytan usava como toque para dançar depois de toda aquela conversa no celular. – e talvez não seja capaz de receber sua próxima ligação. Estamos viajando, e não tenho certeza se Eytanzinho – “Hahahahaha, eu posso me dar ao luxo de certas brincadeiras com meu ruivinho” pensou enquanto falava. – trouxe o carregador.

A outra pessoa pareceu considerar por muito tempo. Julia pensava que já havia cedido informações demais, ainda que todas falsas. Estava na hora do outro passar alguma coisa para ela. E de fato foi o que ele fez.

- Muito bem então, “Noiva Julia”. Escute bem e seja clara ao passar as informações que lhe direi para Eytan. Sou conhecido como Ground e sou aquele que traz à pousada onde vocês estão os Escorpiões. Tenho um pedido para fazer a Eytan, mas ele pode interpretar como uma ordem, pois as conseqüências de não aceitar minha requisição destruirá suas esperanças de sair desse fim de mundo.

Suspirou por um momento do outro lado do telefone, e começou a falar como se nem mesmo sua morte pudesse interromper sua linha de pensamento e as palavras proferidas. O tom rouco soou mais grave logo que começou.

- Recentemente tenho entrado em conflito com vocês por se negarem a entregar o que é nosso por direito. Sinceramente estou cansado disso e gostaria de um trato. Sei que Mercedes está por ai com algum de vocês, e sei que não é culpa de vocês toda essa confusão ocorrendo. Portanto, tenho uma proposta para fazer: entreguem Mercedes a mim, na noite de hoje. Saiam da casa antes do último raio de Sol tocar o chão árido do deserto e esperem vocês três na frente da pousada. Apenas vocês. Entreguem Mercedes e entregaremos o carro. Fizemos a gentileza de arrumar o veículo, e certamente ele cruzara todo país sem precisar de reparos. Depende apenas de vocês iniciarem o que pode ser um acordo de paz para os dois lados. Lembre meu nome, sou Ground aquele que abriga e comanda os Escorpiões Vermelhos. Se traírem minha confiança e não entregarem a jovem, trarei a noite mais escura que a pousada já viu.

 Julia escutou tudo em silêncio e por fim olhou para Dita. Apenas um pensamento passou por sua cabeça.

“Perfeito.”