1
Eytan entrou no quarto no mesmo momento em que Julia desligava o celular. "Por que você estava usando o meu celular?", ele perguntou, desconfiado. "Ele não parava de tocar e... era só a sua mãe, queria saber como você estava".
Era órfão desde os doze anos, mas realmente não estava com ânimo para discutir. Resolveu que falaria com ela sobre isso outra hora.
Julia saiu do quarto; o que foi um alento. Eytan sentou na cama e por um momento esqueceu-se de Dita, quando percebeu que ela estava ali viu também o olhar assustado no rosto da menina. "O que aconteceu aqui antes?"
Mercedes, num ímpeto, ia contar-lhe tudo, mas pensou bem e só confirmou a história de Julia. Sentia medo da garota cínica, que agora tinha uma arma contra ela: conhecimento; por mais que ela não soubesse todos os fatos, ela sabia como acabar com a sua vida. Decidiu ir para o canto da porta do banheiro e tentar dormir.
2
"Eytan, posso dormir com você?", sussurrou Dita, depois de se conformar que tinha coisas demais na cabeça para conseguir dormir. Ele negou-lhe, ainda sonolento. Ela precisava de alguém, mesmo que fosse ele. Precisava aplacar seus medos. Nesta ânsia, deu-lhe um beijo leve. "Posso dormir com você agora?". Pasmo, o ruivo nem respondeu, apenas cedeu um lugar para ela, deixando um grande vão entre eles, mas era apenas isso que Dita queria.
Enquanto dormiam Julia já planejava uma forma de sair dali. Aquele moleque desajeitado já estava acabando com a sua paciência. Certamente os Escorpiões eram muito mais eficientes. Ela tinha o que eles queriam, ou melhor, quem eles queriam, e isso a deixava em vantagem.
Pouco mais de meia hora depois Eytan e foi tomar café da tarde, Julia foi, como uma gata sorrateira, até o quarto dele. Abriu a porta devagar e não encontrou Dita. Decidiu que deixaria um bilhete; "Apareça no último quarto do corredor, assim que anoit...", nesse momento ela ouviu um suspiro, certamente alguém chorando. Levantou as cortinas e viu a mexicana escondendo o rosto nas mãos e abafando os suspiros. "Tão melhor assim. Hoje, assim que anoitecer, no último quarto do corredor. Apenas vá até lá, não conte ao palerma que divide o quarto com você", sussurrou, não menos em tom severo, Julia.
3
No café, Deric senta-se ao lado de Eytan e pergunta-lhe sobre a história. O garoto continua quieto, com o olhar afundado na xícara, não queria mais ter que pensar em toda essa história que ele não entendia. Não queria mais pensar em nada. Só ir pra casa.
Pegou um sanduíche para Dita e foi pro quarto. Chegou, largou o sanduíche sem lhe dizer nada - ainda não tinha entendido o que tinha acontecido na noite anterior -, deitou na cama e dormiu novamente.
Acordou com as batidas de Lindsay na porta, "Garoto! Você está vivo!? Abra a porta", ele abriu, sonolento. Ela pegou-o pela mão e o arrastou até a despensa. "Tenho uma coisa para te contar. Só fique quieto e me escute. Você é um estúpido!", ela sussurrava, escondendo a todo custo o que lhe diria, "Você está com Mercedes. Eles a querem de volta; é a sua obrigação entregá-la e terminar com tudo isso. Ninguém te disse nada, não é mesmo?". Lindsay o olhava com olhos perscrutadores, como que duvidando que houvesse vida há menos que quilômetros dentro daquela expressão impassível. "Dizer?", como se sentia estúpido por não conseguir fazer uma pergunta melhor!
"Essa moça é a causa de tudo isso que vivemos. Richard foi apaixonado por ela, quando ainda eram pouco mais que crianças. Por influência dele, acreditam os Escorpiões, a moça fugiu e nunca mais quis voltar. Eu, sinceramente, acho que foi de tristeza. Assim que a sua amiguinha Julia apareceu por aqui Mercedes perdeu o amor que Richard lhe tinha. Não entendo porque foi que ela voltou para cá, realmente não entendo.". Milagrosamente alguma coisa fazia sentido na sua cabeça. Em todas aquelas intermináveis horas que estava ali, tudo para ele eram mistérios; todos eram mistérios. De súbito uma dúvida arrombou aquela atmosfera de esclarecimento "mas... por que Richard odeia Julia!?". "Oras, garoto. Com tantas coisas tão mais importantes acontecendo aqui, você devia deixar essa dissimulada pra lá. Vá pro seu quarto e pense em uma história, essa noite é sua e a saúde psicológica de todos aqui depende de você". Eytan queria, finalmente, perguntar-lhe o porquê disso, mas era tarde, Lindsay saíra correndo da despensa.
4
Bateu a porta e se atirou na cama, decidido a pensar em uma história, mas tudo que conseguia pensar era na conversa, em Lindsay, Richard, Escorpiões, o calor que fazia, o sol que passava pelo buraco na parede, carro, deserto, sumiço, soco na cara, ferimento, homem com chapéu, mistério, Richard apaixonado por Julia, dissimulada, celular, ligação, sua mãe, e... repentinamente lembrou-se do beijo que Dita lhe dera. Não sabia se porque queria, se gostava dele, ou se simplesmente queria um lugar na cama. Afastou logo esse pensamento e focou finalmente em alguma história.
Contaria a história da morte de sua mãe. Era tudo o que tinha para contar de sua vida. Por mais que tudo aquilo que estava vivendo fosse horrível e assustador, pela primeira vez sentia que estava vivendo. Que devia tomar decisões e elas eram suas. Que era importante e devia fazer o melhor.
5
Julia caminhava de um lado para o outro do quarto pensando numa forma de entregar Mercedes sem que Eytan soubesse ou, pelo menos, tentasse impedir. Nada lhe vinha a mente. Suborná-la era a idéia que melhor lhe parecia, mas não sabia com o quê. Precisava de mais informações sobre ela, sabia que dinheiro, mesmo se tivesse a oferecer, não compraria Mercedes.
Seus pensamentos foram interrompidos por passos ligeiros por toda a pensão. Estava escurecendo.
6
Eytan precisava saber. Tinha uma história para contar, só não tinha uma explicação do porquê era necessário contá-la. Decidiu procurar Anthony. Certamente ele saberia, só precisava convencê-lo a contar. Correu até a frente da pensão e viu-o sentado em uma pedra grande. Aproximou-se.
"Por que devo contar uma história hoje?"
"Você ainda não desistiu, não é mesmo, garoto? Ok, vou contar o porquê.". O velho cavalheiro fez uma pausa que foi, para Eytan, mais que dramática, mas desesperadora. "Os Escorpiões não matam pessoas, nem as seqüestram. Eles as enlouquecem. Jogam com os medos comuns, como escuro, barulho, solidão, sangue, tortura, eles sabem como perturbar qualquer um. Quando disse que tinham levado Louis, não disse que tinham seqüestrado ou assassinado-o, disse que tinham levado a sanidade dele. Depois disso todos aceitam seguir com eles, sob a promessa de que todas aquelas visões não voltarão a assombrá-los. As histórias precisam ser reais para que não nos afastemos do que é possível e realmente acontece. Contamos com você, garoto."
Naquele instante todos correram para as suas posições habituais. Havia uma cadeira para Eytan na frente da porta da pensão. Como se seu corpo tivesse instantaneamente o peso do mundo, se arrastou até ela; sabia seu destino.