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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Capítulo 4 - Escorpiões


1

A noite chegava lentamente, trazendo um frio que Richard nunca se acostumava. Era sempre dessa forma. O frio naquele lugar parecia penetrar seus ossos, confundir sua mente e provocar sua alma. Ele gostaria muito de nunca estar ali, mas quando sua mãe morreu, ainda muito jovem, ele foi obrigado a morar com a tia. Provavelmente ninguém naquela pousada imaginava, mas de fato ele não era o filho daquela velha irritante. E por sua relação de sangue não ser tão direta, ele agradecia todos os dias.

Recolhendo a escultura que fizera em madeira, começou a voltar para a pensão. Olhou brevemente a placa de apresentação da pousada e riu sozinho. “Ok, amanhã eu dou um jeito em você” pensou. Mas ele sabia que era mentira. Ele mentia assim uma vez por dia. Naquele lugar ele não tinha ânimo algum para fazer qualquer coisa. Principalmente alguma coisa para ajudar a velha tia. Deixou seus olhos caírem brevemente para a janela do quarto de Julia. Hoje mesmo tinha visto um jovem de cabelos ruivos se esconder ao ser visto no quarto dela. O que levaria aquele coitado a estar esbarrando na Julia? Não teria ele notado o óbvio? “Novatos”.

Lindsay apenas levantou os olhos ao ver Richard entrar. Como sempre, ele estava com um olhar centrado, como se sua próxima atitude pudesse mudar o rumo do mundo inteiro. De seu lugar no balcão da recepção ela sorriu para ele, mas foi completamente ignorada. Mesmo assim ela manteve o sorriso. Richard não era uma pessoa ruim. Quem não o conhecia poderia ter uma impressão inacurada a seu respeito, pois ele não sorria com frequência e não costumava falar muito. Seu porte físico também não era muito amigável, mas mesmo assim ele era alguém que ajudaria qualquer pessoa que pedisse ajuda. Mas não era seu hábito ficar por ai oferecendo ajuda a todos.

2

Ajuda era o que Eytan mais precisava nesse momento. A jovem de vestido preto certamente não estava oferecendo isso, e pior, ainda pedia por sua ajuda também. Ele não estava realmente interessado nos problemas dela com Richard ou etc., queria mesmo sair daquele local. Não, isso era falsidade. Ele queria ajudar. Ele queria muito ver um sorriso verdadeiro naquela jovem que tinha se esforçado tanto para seduzi-lo. Esse era o problema com Eytan, ele se sentia muito dividido as vezes. E sempre que isso acontecia e ele precisava tomar uma decisão, ele escolhia a pior das opções. E nesse caso parecia bem óbvio qual era a pior delas: “Ajudar a Atriz Pornô”. Aquela garota não valia metade do vestido preto e extremamente sensual que estava usando, tinha certeza disso desde quando a avistou no balcão. Mas simplesmente negar que seu pedido de ajuda tinha alguma coisa verdadeira, seria mentir para si mesmo. Mesmo assim, ajudar ela parecia que daria problemas, e abandoná-la não seria algo que estava sequer sendo cogitado como uma realidade.
Richard pareceu uma pessoa interessante. Ainda que Eytan estivesse um pouco assustado com o seu olhar em direção a janela do quarto da garota, pensou em falar com aquele jovem “Forte de mais para alguém que é inofensivo”. Eytan gostava de tirar suas próprias conclusões a respeito das pessoas. E Julia não gostaria de saber disso.

3

Deric segurou uma rocha com a mão direita examinando o que estava abaixo dela.  Ali estava, a salvo como sempre. Não sabia por quanto tempo poderia esconder aquilo dos Escorpiões Vermelhos, mas sabia que tinha que tentar. Ao menos por enquanto. Levantou e viu que o sol estava desejando uma boa noite a ele. Respondeu com um cumprimento encostando o indicador em seu chapéu. Então voltou a trilhar seu caminho. Agora, voltando para a pousada.

4

Eytan saiu de seu quarto quando começou a ouvir passos por toda pensão. Claramente alguma coisa estava acontecendo. Percebeu que alguns dos hóspedes estavam descendo para o jantar. Aquilo lembrou um pouco sua casa, quando era mais novo a família jantava toda junta, mesmo que houvesse qualquer discussão entre ele e sua irmã. Sim, sua irmã ainda precisava dele. De certa forma, ele não podia perder tempo naquele fim de mundo.


Desceu as escadas carregando apenas um sorriso e se espantou ao ver uma mesa larga colocada na área da recepção apenas para o jantar. Distribuindo pratos silenciosamente estavam a recepcionista e o homem que a “Mecha Displicente” dissera se chamar Richard. Por um momento não soube direito o que fazer, então resolveu falar com algum dos outros hóspedes que ali se encontravam. Alem de ele e da garota que ele não sabia que se chamava Julia, não seriam mais do que três, e ela ainda não estava ali. Um deles parecia um pouco inquieto, portanto Eytan decidiu não começar conversando com aquele. Olhou para um homem um pouco mais velho, talvez uns quarenta anos, e decidiu dizer oi.

- Boa noite, senhor.
- Uma noite agradável para você, meu jovem - respondeu o homem.
- Para o senhor, também. Meu nome é Eytan, meu carro estragou durante a viagem enquanto cruzava essa estrada hoje mesmo. Triste essa vida não é mesmo?

- De fato, meu jovem. - respondeu ele olhando para a mesa sendo posta - mas me responda uma coisa, se não for muito abuso da minha parte, onde está exatamente seu carro agora?
- Na estrada - respondeu Eytan e viu que a sobrancelha esquerda do senhor que não tinha ainda se apresentado levantou um pouco mais que a direita. - Algum problema, eu o deixei trancado e tudo, além disso, já pedi para guincharem meu carro pelo meu celular, antes mesmo de chegar aqui.
- Acho que você ainda é muito ingênuo, mas não havia nada a ser feito mesmo. Rezo para que seja diferente com você, mas nenhum carro é encontrado por guincho algum aqui, apenas evidências de que talvez algum dia um carro esteve ali.
- Como assim?
- Essa pousada carrega uma história muito triste, jovem. E como se não bastasse, ainda há problemas entre as pessoas que aqui habitam e algumas que pelo deserto andam.
- Eu não entendo, o que o senhor quer dizer?
- Quero dizer que seu carro não vai ser encontrado, e que talvez você fique preso por aqui por algum tempo, até que talvez alguém com mais sorte que você venha lhe buscar.
- E isso seria culpa de quem - disse Eytan e agora ele percebeu que estava elevando seu tom de voz, e que a mesa inteira estava posta, servida e ouvindo a conversa dele.
- São os Escorpiões - disse um homem subindo as escadas da entrada e indo até um canto da li puxando uma porta de madeira completamente solta e caída e a colocando na entrada como uma espécie de barragem. - Durma aqui hoje e certamente você vai entender.

Por fim, esse homem que usava um chapéu e um sobretudo por cima de suas roupas, retirou o chapéu e se sentou a mesa. Não olhou para lugar algum, apenas para a comida. E ali se concentrou enquanto Eytan começou a se dirigir a sua cadeira. Olhou para a escada e viu que a moça do vestido preto ainda não havia decido. E começou a se questionar “O que ela estaria fazendo?”. Apenas no dia seguinte ele lembraria que ela havia pedido a ele para passar em seu quarto antes de jantar.

Eytan pediu licença em voz baixa e se sentou. Ao seu lado, o senhor com quem falava sentou-se também. Uma velha estava na ponta de uma mesa, e apresentava uma expressão triste. De tempos e tempos olhava para a porta, como se a qualquer momento esperasse que ela fosse abaixo. Ao lado dela, a jovem recepcionista continuava sua tarefa servindo pratos, pois era mais próxima daquela panela com sopa que estava por cima da mesa. Richard apenas a observava, em silêncio, enquanto ao lado dele aquele homem que parecia nervoso devorava seu prato de sopa com toda velocidade fazendo um barulho irritante de tanto bater a colher no prato.

A mesa permaneceu quieta por todo o jantar, mesmo que Eytan estivesse com muita vontade de perguntar ele simplesmente guardou para si. Richard talvez fosse um mecânico razoável, mas pedir para ele sair naquela noite para tentar arrumar seu carro seria um completo abuso. E mesmo assim, aquela garota tinha lhe advertido que ele não era exatamente bonzinho. “Ele me fez mal”, ela dissera. Certamente se encaixava com o perfil, mas ninguém ali parecia realmente incomodado com a presença dele. Talvez o homem que terminava agora sua sopa, mas não parecia que Richard era a razão daquele pavor. No fim, seria melhor esperar por um retorno do guincho em seu celular, mas amanhã ele tentaria negociar com o loirão um conserto para tentar sair dali mais cedo, e levar a moça com ele.

Com esse pensamento aliviando sua consciência, Eytan foi capaz de terminar sua sopa. Começou a subir, sem notar o olhar de Deric nas usas costas. Quando fechou a porta de seu quarto, Richard dirigiu seu olhar a Deric, que recolocava seu chapéu, enquanto Lindsay começou a recolher a mesa.

- Richard, sei o que está pensando, mas hoje pouparemos o ruivo. Os Escorpiões estão vindo e precisamos nos preparar, não estou interessado em meter um novato que podemos usar mais tarde e acabar perdendo ele agora.

Richard apenas assentiu em silêncio, enquanto foi para trás do balcão buscar sua espingarda. Deric sorriu brevemente, algo muito raro de ser visto, e que talvez só ocorresse em situações de extremo perigo. Sacou seu revolver e lançou um olhar de repreensão para Lindsay e a velha. As duas entenderam o que aquilo significava. Se perguntavam se Eytan também perceberia, quando o barulho começasse.

5

Julia esperou por muito tempo por Eytan em seu quarto. Ficou tarde, mas ela escolheu não tomar atitudes. Homens têm um senso de ego frágil. De certa forma o ego de um homem é como seus testículos. Se você o acariciar, ele se sentirá bem, ficará confiante e lhe dará tudo de si. Se você o pressionar, ele vai se sentir mal, sentira uma dor imparável e ficará deprimido por não poder fazer nada. Com isso em mente, ela resolveu acariciar o ego de Eytan, Richard não era alguém realmente ruim, mas um jovem bonzinho como aquele acabaria perdido e tentando ajudar todos naquela pensão. Era importante que ele não tivesse muito contado com ninguém naquele local. A única pessoa que precisava de cuidados ali era ela.

6

Eytan chegou ao seu quarto muito cansado para pensar em qualquer coisa. Retirou seu celular do bolso e notou que não tinha nenhuma mensagem nova, nenhuma ligação perdida e nenhuma esperança de receber alguma coisa tão cedo. Suspirou em voz baixa e começou a se dirigir para a cama sem nem pensar muito se desejava dormir, apenas seguindo um impulso de “estou cansado, quero ao menos deitar”. Contudo um impulso ainda maior o fez levantar quando ouviu o claro som de um tiro sendo disparado. Aquela noite ainda estava longe de acabar para ele.

Um comentário:

  1. Com um pouco menos de 10 dias depois de ler o capítulo que o Grifo escreveu, finalmente postei a minha parte, dando início ao segundo trecho do rodizio.
    Por sinal, eu li os dois capítulos anteriores a esse de uma vez só, mas não sabia como dar continuidade. De fato, uma das coisas que me atrapalhou nesse capítulo foi o fato do Eytan sequer saber o nome da Julia, assim substituí cada referência a ela por um adjetivo, e de fato não foi uma ideia muito brilhante, mas ficou ao menos engraçado (Se não bobo).

    Adorei a oportunidade de descrever um pouco o Richard, e com essa empolgação acabei descrevendo mais alguns personagens.

    O capítulo acabou ficando meio longo (assim como esse comentário está ficando agora) e acabei não dando a devida atenção para o diálogo do Eytan com o senhor que estava na pensão. Ficou um pouco forçado, mas foi a necessidade de explicar que o celular dele realmente funciona nesse local (fugir um pouco do estereótipo) e ele já havia usado antes de entrar na pensão (inventei isso muito no susto).

    Espero que tenha sido um bom capítulo, pois acabou levando um tempo para se formar na minha cabeça, e espero que a Rapunzel consiga lidar com essa tralha toda que se formou no capítulo dela que será o próximo.

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