1
A noite chegava lentamente, trazendo um frio que Richard nunca se
acostumava. Era sempre dessa forma. O frio naquele lugar parecia penetrar seus
ossos, confundir sua mente e provocar sua alma. Ele gostaria muito de nunca
estar ali, mas quando sua mãe morreu, ainda muito jovem, ele foi obrigado a
morar com a tia. Provavelmente ninguém naquela pousada imaginava, mas de fato
ele não era o filho daquela velha irritante. E por sua relação de sangue não
ser tão direta, ele agradecia todos os dias.
Recolhendo a escultura que fizera em madeira, começou a voltar para a
pensão. Olhou brevemente a placa de apresentação da pousada e riu sozinho. “Ok,
amanhã eu dou um jeito em você” pensou. Mas ele sabia que era mentira. Ele
mentia assim uma vez por dia. Naquele lugar ele não tinha ânimo algum para
fazer qualquer coisa. Principalmente alguma coisa para ajudar a velha tia.
Deixou seus olhos caírem brevemente para a janela do quarto de Julia. Hoje
mesmo tinha visto um jovem de cabelos ruivos se esconder ao ser visto no quarto
dela. O que levaria aquele coitado a estar esbarrando na Julia? Não teria ele
notado o óbvio? “Novatos”.
Lindsay apenas levantou os olhos ao ver Richard entrar. Como sempre, ele
estava com um olhar centrado, como se sua próxima atitude pudesse mudar o rumo
do mundo inteiro. De seu lugar no balcão da recepção ela sorriu para ele, mas
foi completamente ignorada. Mesmo assim ela manteve o sorriso. Richard não era
uma pessoa ruim. Quem não o conhecia poderia ter uma impressão inacurada a seu
respeito, pois ele não sorria com frequência e não costumava falar muito. Seu
porte físico também não era muito amigável, mas mesmo assim ele era alguém que
ajudaria qualquer pessoa que pedisse ajuda. Mas não era seu hábito ficar por ai
oferecendo ajuda a todos.
2
Ajuda era o que Eytan mais precisava nesse momento. A jovem de vestido
preto certamente não estava oferecendo isso, e pior, ainda pedia por sua ajuda
também. Ele não estava realmente interessado nos problemas dela com Richard ou etc.,
queria mesmo sair daquele local. Não, isso era falsidade. Ele queria ajudar.
Ele queria muito ver um sorriso verdadeiro naquela jovem que tinha se esforçado
tanto para seduzi-lo. Esse era o problema com Eytan, ele se sentia muito
dividido as vezes. E sempre que isso acontecia e ele precisava tomar uma
decisão, ele escolhia a pior das opções. E nesse caso parecia bem óbvio qual
era a pior delas: “Ajudar a Atriz Pornô”. Aquela garota não valia metade do
vestido preto e extremamente sensual que estava usando, tinha certeza disso desde
quando a avistou no balcão. Mas simplesmente negar que seu pedido de ajuda
tinha alguma coisa verdadeira, seria mentir para si mesmo. Mesmo assim, ajudar
ela parecia que daria problemas, e abandoná-la não seria algo que estava sequer
sendo cogitado como uma realidade.
Richard pareceu uma pessoa interessante. Ainda que Eytan estivesse um
pouco assustado com o seu olhar em direção a janela do quarto da garota, pensou
em falar com aquele jovem “Forte de mais para alguém que é inofensivo”. Eytan
gostava de tirar suas próprias conclusões a respeito das pessoas. E Julia não
gostaria de saber disso.
3
Deric segurou uma rocha com a mão direita examinando o que estava abaixo
dela. Ali estava, a salvo como sempre. Não sabia por quanto tempo poderia
esconder aquilo dos Escorpiões Vermelhos, mas sabia que tinha que tentar. Ao
menos por enquanto. Levantou e viu que o sol estava desejando uma boa noite a
ele. Respondeu com um cumprimento encostando o indicador em seu chapéu. Então
voltou a trilhar seu caminho. Agora, voltando para a pousada.
4
Eytan saiu de seu quarto quando começou a ouvir passos por toda pensão.
Claramente alguma coisa estava acontecendo. Percebeu que alguns dos hóspedes
estavam descendo para o jantar. Aquilo lembrou um pouco sua casa, quando era
mais novo a família jantava toda junta, mesmo que houvesse qualquer discussão
entre ele e sua irmã. Sim, sua irmã ainda precisava dele. De certa forma, ele não
podia perder tempo naquele fim de mundo.
Desceu as escadas carregando apenas um sorriso e se espantou ao ver uma mesa
larga colocada na área da recepção apenas para o jantar. Distribuindo pratos
silenciosamente estavam a recepcionista e o homem que a “Mecha Displicente”
dissera se chamar Richard. Por um momento não soube direito o que fazer, então
resolveu falar com algum dos outros hóspedes que ali se encontravam. Alem de
ele e da garota que ele não sabia que se chamava Julia, não seriam mais do que três, e ela ainda não estava ali.
Um deles parecia um pouco inquieto, portanto Eytan decidiu não começar
conversando com aquele. Olhou para um homem um pouco mais velho, talvez uns
quarenta anos, e decidiu dizer oi.
- Boa noite, senhor.
- Uma noite agradável para você, meu jovem - respondeu o homem.
- Para o senhor, também. Meu nome é Eytan, meu carro estragou durante a
viagem enquanto cruzava essa estrada hoje mesmo. Triste essa vida não é mesmo?
- De fato, meu jovem. - respondeu ele olhando para a mesa sendo posta - mas me
responda uma coisa, se não for muito abuso da minha parte, onde está exatamente
seu carro agora?
- Na estrada - respondeu Eytan e viu que a sobrancelha esquerda do senhor que
não tinha ainda se apresentado levantou um pouco mais que a direita. - Algum
problema, eu o deixei trancado e tudo, além disso, já pedi para guincharem meu
carro pelo meu celular, antes mesmo de chegar aqui.
- Acho que você ainda é muito ingênuo, mas não havia nada a ser feito
mesmo. Rezo para que seja diferente com você, mas nenhum carro é encontrado por
guincho algum aqui, apenas evidências de que talvez algum dia um carro esteve
ali.
- Como assim?
- Essa pousada carrega uma história muito triste, jovem. E como se não
bastasse, ainda há problemas entre as pessoas que aqui habitam e algumas que
pelo deserto andam.
- Eu não entendo, o que o senhor quer dizer?
- Quero dizer que seu carro não vai ser encontrado, e que talvez você
fique preso por aqui por algum tempo, até que talvez alguém com mais sorte que
você venha lhe buscar.
- E isso seria culpa de quem - disse Eytan e agora ele percebeu que
estava elevando seu tom de voz, e que a mesa inteira estava posta, servida e
ouvindo a conversa dele.
- São os Escorpiões - disse um homem subindo as escadas da entrada e
indo até um canto da li puxando uma porta de madeira completamente solta e caída
e a colocando na entrada como uma espécie de barragem. - Durma aqui hoje e
certamente você vai entender.
Por fim, esse homem que usava um chapéu e um sobretudo por cima de suas
roupas, retirou o chapéu e se sentou a mesa. Não olhou para lugar algum, apenas
para a comida. E ali se concentrou enquanto Eytan começou a se dirigir a sua
cadeira. Olhou para a escada e viu que a moça do vestido preto ainda não havia
decido. E começou a se questionar “O que ela estaria fazendo?”. Apenas no dia
seguinte ele lembraria que ela havia pedido a ele para passar em seu quarto
antes de jantar.
Eytan pediu licença em voz baixa e se sentou. Ao seu lado, o senhor com
quem falava sentou-se também. Uma velha estava na ponta de uma mesa, e
apresentava uma expressão triste. De tempos e tempos olhava para a porta, como
se a qualquer momento esperasse que ela fosse abaixo. Ao lado dela, a jovem
recepcionista continuava sua tarefa servindo pratos, pois era mais próxima
daquela panela com sopa que estava por cima da mesa. Richard apenas a
observava, em silêncio, enquanto ao lado dele aquele homem que parecia nervoso
devorava seu prato de sopa com toda velocidade fazendo um barulho irritante de
tanto bater a colher no prato.
A mesa permaneceu quieta por todo o jantar, mesmo que Eytan estivesse
com muita vontade de perguntar ele simplesmente guardou para si. Richard talvez
fosse um mecânico razoável, mas pedir para ele sair naquela noite para tentar
arrumar seu carro seria um completo abuso. E mesmo assim, aquela garota tinha lhe advertido que ele não era exatamente bonzinho. “Ele me fez mal”, ela
dissera. Certamente se encaixava com o perfil, mas ninguém ali parecia
realmente incomodado com a presença dele. Talvez o homem que terminava agora
sua sopa, mas não parecia que Richard era a razão daquele pavor. No fim, seria
melhor esperar por um retorno do guincho em seu celular, mas amanhã ele
tentaria negociar com o loirão um conserto para tentar sair dali mais cedo, e levar a moça com ele.
Com esse pensamento aliviando sua consciência, Eytan foi capaz de
terminar sua sopa. Começou a subir, sem notar o olhar de Deric nas usas costas.
Quando fechou a porta de seu quarto, Richard dirigiu seu olhar a Deric, que
recolocava seu chapéu, enquanto Lindsay começou a recolher a mesa.
- Richard, sei o que está pensando, mas hoje pouparemos o ruivo. Os
Escorpiões estão vindo e precisamos nos preparar, não estou interessado em
meter um novato que podemos usar mais tarde e acabar perdendo ele agora.
Richard apenas assentiu em silêncio, enquanto foi para trás do balcão
buscar sua espingarda. Deric sorriu brevemente, algo muito raro de ser visto, e
que talvez só ocorresse em situações de extremo perigo. Sacou seu revolver e
lançou um olhar de repreensão para Lindsay e a velha. As duas entenderam o que
aquilo significava. Se perguntavam se Eytan também perceberia, quando o barulho
começasse.
5
Julia esperou por muito tempo por Eytan em seu quarto. Ficou tarde, mas
ela escolheu não tomar atitudes. Homens têm um senso de ego frágil. De certa
forma o ego de um homem é como seus testículos. Se você o acariciar, ele se
sentirá bem, ficará confiante e lhe dará tudo de si. Se você o pressionar, ele
vai se sentir mal, sentira uma dor imparável e ficará deprimido por não poder
fazer nada. Com isso em mente, ela resolveu acariciar o ego de Eytan, Richard
não era alguém realmente ruim, mas um jovem bonzinho como aquele acabaria
perdido e tentando ajudar todos naquela pensão. Era importante que ele não
tivesse muito contado com ninguém naquele local. A única pessoa que precisava
de cuidados ali era ela.
6
Eytan chegou ao seu quarto muito cansado para pensar em qualquer coisa.
Retirou seu celular do bolso e notou que não tinha nenhuma mensagem nova,
nenhuma ligação perdida e nenhuma esperança de receber alguma coisa tão cedo.
Suspirou em voz baixa e começou a se dirigir para a cama sem nem pensar muito
se desejava dormir, apenas seguindo um impulso de “estou cansado, quero ao
menos deitar”. Contudo um impulso ainda maior o fez levantar quando ouviu o
claro som de um tiro sendo disparado. Aquela noite ainda estava longe de acabar
para ele.
Com um pouco menos de 10 dias depois de ler o capítulo que o Grifo escreveu, finalmente postei a minha parte, dando início ao segundo trecho do rodizio.
ResponderExcluirPor sinal, eu li os dois capítulos anteriores a esse de uma vez só, mas não sabia como dar continuidade. De fato, uma das coisas que me atrapalhou nesse capítulo foi o fato do Eytan sequer saber o nome da Julia, assim substituí cada referência a ela por um adjetivo, e de fato não foi uma ideia muito brilhante, mas ficou ao menos engraçado (Se não bobo).
Adorei a oportunidade de descrever um pouco o Richard, e com essa empolgação acabei descrevendo mais alguns personagens.
O capítulo acabou ficando meio longo (assim como esse comentário está ficando agora) e acabei não dando a devida atenção para o diálogo do Eytan com o senhor que estava na pensão. Ficou um pouco forçado, mas foi a necessidade de explicar que o celular dele realmente funciona nesse local (fugir um pouco do estereótipo) e ele já havia usado antes de entrar na pensão (inventei isso muito no susto).
Espero que tenha sido um bom capítulo, pois acabou levando um tempo para se formar na minha cabeça, e espero que a Rapunzel consiga lidar com essa tralha toda que se formou no capítulo dela que será o próximo.