1
Eytan entrou e varreu com os olhos aquele quarto. O longo corredor do segundo andar que separava seus quartos um do outro, portas frente a frente, lhe deu a impressão de que realmente estava saindo de sua zona de conforto. Eytan não pensou que, em tão pouco tempo, poderia sentir falta de algo- muito menos do arremedo de barraca que agora chamava 'meu quarto'.
Era como se não estivesse mais no mesmo mundo. O quarto de Julia era tudo que o seu não era: bonito, aconchegante e sobretudo, com teto. Achou também mais espaçoso... muito embora em algum lugar Eytan tivesse a impressão de que na verdade todos os quartos eram de mesmo tamanho. Ignorou essa impressão e se voltou à moça que tão desagradavelmente o trouxe até ali, destruindo todos seus planos de uma refeição luxuosa no seu verdadeiro quarto. No quarto que era seu por direito.
"Olha, eu... deixei meu lanche no meu quarto." Exclamou Eytan de forma nervosa. O olhar de reprimenda que ele recebeu em troca foi tão violento quanto ele poderia esperar. Desviou o olhar e continuou: "Eu acho melhor eu voltar.".
"Espera, por favor!" pediu Julia, pela primeira vez elevando o tom da voz, e perdendo um pouco daquela postura de atriz pornô que já estava dando nos nervos do rapaz. Eytan não pareceu muito comovido com o pedido, e já ia saindo. Julia rapidamente pegou suas mãos entre as delas. Ele imediatamente voltou os olhos a ela.
"Talvez nós tenhamos começado com o pé esquerdo.", ela concluiu, pela primeira vez parecendo alguém com um mínimo de humildade aos olhos de Eytan. Pediu a ele que se sentasse na cama, e assim ele o fez, mais assustado que relutante.
2
Julia não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Não fosse sua rápida mudança de planos, e tivesse ela continuado com seus joguinhos de salto alto, provavelmente a essa altura teria perdido qualquer chance de contato com aquele infeliz. Agradeceu aos seus reflexos e seus anos de prática na antiquíssima arte de bancar a boa moça, e continuou seu plano B: saída de emergência.
"A verdade é que eu preciso da sua ajuda." Revelou ela.
Eytan a fitou, perplexo. Afinal, o que diabos estava acontecendo ali? Hoje realmente não podia ser seu dia de sorte. Estava exausto, não tinha uma boa noite de sono há semanas, e parecia trazer mais problemas na mala do que qualquer coisa da qual pudesse fazer bom uso. Pensou nisso, enquanto colocava a mão no bolso da calça a fim de verificar se não tinha perdido nada importante. Felizmente, ainda estava lá.
Julia levantou-se e atravessou o quarto, trazendo Eytan consigo pela mão. Qualquer um poderia ver que ele não estava muito acostumado a segurar a mão de uma mulher, ainda menos de uma tão bonita quanto ela, Julia refletiu. Deixou escapar um sorriso prepotente que passou despercebido pelo atônito rapaz, logo antes de apontar pela janela alguma espécie de galpão de madeira um pouco afastado dos fundos da pousada.
"Vê aquele homem?" Disse ela, apontando para um loiro de porte médio que parecia estar realizando algum tipo de trabalho em madeira, na entrada do galpão.
"Ele é o filho da dona da pousada. Se chama Richard.", adicionou.
"...e daí?" Eytan indagou, sem saber se foi rude ou se realmente conseguiu fingir que não se importava.
"...Richard... é um homem violento.".
Eytan forçou a vista por um segundo. Com toda sua excelência em conhecimentos gerais, concluiu que o homem deveria estar trabalhando em uma cadeira de madeira, ou algo do tipo. Observou atentamente o homem: era razoavelmente alto e forte, de cabelo curto bem liso, loiro, penteado para trás. Barba impecavelmente bem feita. Realmente, não lhe pareceu nem um pouco 'violento'.
Subitamente, o homem lhe devolveu o olhar, diretamente nos olhos, como se Eytan fosse a única coisa a ser vista num raio de centenas de quilômetros, um estouro no silêncio.
Eytan se abaixou instintivamente a fim de evitar aquele olhar.
3
"Acho que ele me viu.", informou, mas não obteve resposta. "...Moça?".
Virou-se para encontrar Julia encolhida sobre a cama.
"Richard... ele me faz mal.", balbuciou ela, quase que inaudível.
Ela estava chorando.
Eytan não sabia o que fazer. Não era a primeira vez que era colocado em uma situação de responsabilidade e senso de dever, tampouco a primeira vez que falhara. Mas dessa vez, mais do que qualquer outra, ele sentiu que talvez ele ainda pudesse fazer algo. Só não sabia o quê.
"Como disse que se chama mesmo?", perguntou Julia, sem se levantar da cama.
"...Eytan.", respondeu.
"Eu preciso que você me tire daqui, Eytan. E tem que ser agora." Suplicou a moça. "Você tem um carro, não tem?".
"O carro!", lembrou ele, com um susto. "Eu preciso de um mecânico e de um carro emprestado."
O infeliz não tinha carro. Não poderia tirar ela daquele inferno.
"Esqueça. O único por aqui que entende de carros é Richard, e ele não deixa ninguém tocar na sua caminhonete.", disse ela asperamente.
"Droga.", reclamou Eytan, cansado. "Preciso sair e encontrar alguém que possa ajudar.".
"Agora é tarde. Logo vai anoitecer.", disse a moça. Realmente, o céu já começava a tender para o alaranjado. O calor absurdo não deixou Eytan perceber isso antes, mas a noite estava a caminho.
"É melhor você trocar essa regata por algo um pouco mais fechado. Logo vai ficar bem frio.", adicionou ela.
"Eu sei disso", retrucou Eytan, embora até aquele dia acreditasse fortemente que os desertos eram tão quentes de noite quanto eram de dia. Como nos desenhos animados.
"Eu vou me trocar também, então é melhor você voltar pro seu quarto.", disse ela, monótona.
"A pousada oferece jantar para os clientes todas as noites, então desça mais tarde se estiver com fome.", completou. Ele não tinha carro, mas talvez ainda tivesse uma utilidade. Talvez.
Eytan voltou para seu quarto e se deitou, os braços cobrindo os olhos. Precisava encontrar alguma forma de ajudá-la, precisava salvá-la. Não conseguia parar de pensar na conversa com Julia, e na última frase que ela lhe disse:
"Se você descer para jantar, me procure o quanto antes, e volte para seu quarto assim que estiver terminado.
De noite, coisas estranhas acontecem aqui.".
Lembrou também que não havia perguntado o nome dela.
Achei interessante a forma como a Rapunzel usou o "malditas mulheres" expelido pelo protagonista no primeiro capítulo pra formar grande parte da personalidade dele.
ResponderExcluirSeguindo essa linha, tomei a liberdade de aprofundar o nosso conhecimento a respeito de um personagem que só foi citado indiretamente até então: o filho da dona da pousada.
Ainda como referência ao capítulo 1 do Drews, fiz questão de encerrar dando início a tal noite do dia que Eytan 'desejaria não ter encontrado aquele local'. Tenho grandes planos pra tal noite, mas obedecendo sempre a regra de que os escritores de diferentes capítulos não devem sob hipótese alguma trocar informações, meu papel agora é aguardar ansioso o capítulo 4.
É certo que, quando a história voltar para minhas mãos no capítulo 6, não será mais nada como o que eu tinha imaginado, mas essa é a verdadeira graça e o motivo de existir do Backstage Scissorstabing :D