Páginas

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Capítulo 5 - A Pilha Errada

Capítulo 5

A Pilha Errada


Era apenas mais um dia do tedioso trabalho de André Junqueira. Seu pai, capitalista e dono de grandes empresas portuguesas, conseguira fazê-lo escapar do serviço militar — o que seria compensado por tarefas burocráticas. Alguns meses perdidos lidando com listas de soldados falecidos e enviando comunicados a suas famílias sem dúvida valiam a garantia de sobrevivência do único herdeiro de um império comercial.

"André, já encaminhaste as notificações de falecimento? Espero que não, pois chegou agora um telegrama retificando algumas delas...", disse-lhe um colega, quebrando a monotonia da manhã.

"Por sorte não, enviá-las-ei após o almoço", foi a resposta.

"Então já separa as notifica
ções sobre os soldados Gonçalo, Carvalho e Flores. Para a sorte de suas famílias, eles ainda estão vivos. E não queremos enviar oficiais para desesperá-los desnecessariamente..."

"Com certeza não, já devem ter preocupa
ções suficientes..." comentou André, enquanto colocava os respectivos papéis em uma pilha separada.

***

Ao chegar na sede do exército, e após deixar o pequeno Augusto aos cuidados da sra. Rosa, Lore recebeu ordens um pouco diferentes. Uma das serventes não viera, e o General Longo não estaria no seu escritório nos próximos dias, então Lore a substituiria na limpeza de um dos grandes escritórios, onde vários funcionários lidavam com as tarefas de administra
ção do exército.

A sala era ampla e bem iluminada, com grandes janelas ladeadas por arquivos de madeira nobre, também presente no piso e nas molduras de belos quadros que decoravam as paredes. Belos tapetes ocupavam o espaço entre as esparsas escrivaninhas de mogno. E, no momento, a sala estava vazia — Lore esperava terminar a limpeza antes que os funcionários voltassem do almoço, para não interrompê-los.

A limpeza das escrivaninhas seguia monotonamente. Todas, exceto uma, estavam organizadas e praticamente vazias. Essa última, no entanto, possuia uma série de papéis em diversas pilhas, que Lore procurou manter intactas. Ao mover uma delas para remover o pó da superfície, viu de relance o nome Flores.

Lore procurava não ler os papéis que via, pois sabia que não eram para seus olhos. Na verdade, tinha certeza de que seus empregadores sequer imaginavam que soubesse ler. Ao ver o nome de seu marido, no entanto, não pode conter a vontade
— necessidade, até — de ler suas notícias.

Falecido em Batalha: Marco Flores
Data: 9 de Setembro
Local:
Argélia

Lore teve de sentar. Não acreditava no que lia, seu marido deveria estar em uma zona segura, a notícia era completamente inesperada. Lágrimas escorriam em seu rosto, e o pânico a tomava. O que faria sem seu Marco? Como explicar a Augusto que nunca mais o veriam, nem sequer para uma despedida?

Teria de ser forte. Sim, sofreria, mas seu amado filho precisaria que ela não o demonstrasse, que ela tomasse conta dele, e que mantivesse o emprego. Não podia deixar que descobrissem que lera o comunicado. Engoliu as lágrimas e tentou se recompor. Resolutamente se levantou, colocou a anotação de volta na escrivaninha e voltou a limpar, sem notar que havia colocado o papel na pilha errada.



***

Ao entardecer, Mara caminhava ao armazém a fim de buscar alguns mantimentos para sua irmã. Desde que seu marido falecera, Lúcia não cuidava mais de si mesma
— não comia direito, não limpava a casa, mal mantia sua taverna. Desde que chegara, Mara se encarregou de trazer Lúcia de volta à vida.

O caminho até o armazém já se tornara familiar novamente. Desde os 7 anos não o percorria mais, quando fora enviada à fazenda dos tios para ajudá-los. A taverna de seus pais mal dava para o sustento da família antes de seu nascimento, e já não tinha como ajudar a mantê-la
— a mãe e a irmã eram suficientes para todas as tarefas femininas; era de um filho que precisavam.

A mudan
ça para a fazenda não fora mal recebida, mas quase uma fuga. Sua infância não fora exatamente feliz, com a escassez pela qual a família passava e a aparente decepção de seus pais. Apenas sua irmã mais velha lhe trazia alguma alegria e companheirismo. Por isso agora vinha ajudá-la, no momento em que ela mais precisava.

Suas memórias foram interrompidas ao esbarrar em Lore e derrubar as sacolas que esta carregava, ao caminhar no sentido oposto tão destraída quanto Mara. Parecia, porém, muito mais abatida.

"Ah, desculpa, Mara!", exclamou Lore, se abaixando, ou quase caindo, para juntar suas compras. "Não sei onde estava com a cabeça, para esbarrar assim em ti...", disse, quase aos prantos.

"Não te preocupes, Lore. Também estava distraída, e não nos machucamos. Te ajudo a recolher."

Enquanto a ajudava com as compras, Mara percebeu que algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Lore. "Lore, está tudo bem? Se eu puder ajudar com qualquer coisa..."

"
É Marco... Ele...", balbuciou Lore, em prantos, surpreendendo Mara.

"Lore... Sinto muito... Te ajudo com o que precisares.", tentou confortá-la. "Quando veio o comunicado?"

"Não veio... Eu li um papel... Não deveria, mas..."

Pobre Lore, perdendo o marido desnecessariamente, nessa guerra injusta. Embora se compadecesse de Lore, Mara viu uma oportunidade na situação. Como suspeitava, Lore tinha acesso a documentos do exército. Não era hora, no entanto, de pensar nisso — primeiro ajudaria Lore a se reestabelecer, ou seria tão insensível quanto aqueles contra quem protestava.

***

O Cabo Montes fora salvo por uma bala em sua mão. Graças ao ferimento, relativamente leve, fora considerado incapaz para a guerra, e desde então fora encarregado a notificar as famílias dos soldados mortos em batalha. Era uma tarefa desagradável e emocionalmente desgastante — mas não trazia perigo de vida.

Era o último comunicado do dia, que já come
çava a ceder à noite. Bateu na porta e, quando esta foi aberta por uma moça, anunciou-se. "Com licença, Sra. Flores? Sou Cabo Montes e preciso de um momento com a senhora."

Na verdade, estranhara a expressão desolada da mulher assim que ela abriu a porta. Estava acostumado a mulheres adivinhando o comunicado após ele se anunciar, mas nunca antes disso. Ainda assim, não tinha como entender as dificuldades por que ela já estaria passando — nem tentaria, ou se tornaria incapaz de executar até este trabalho. Tinha de continuar sendo o mensageiro indesejado.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Capítulo 4 - "Não se faz um herói sem medo"


Capítulo 4

"Não se faz um herói sem medo"


O dia seguia normalmente; havia muito mais rifles a ajustar que homens com alguma noção de prumo. Alguns pareciam incrivelmente ter esquecido o comunicado que lhes deu bom dia. Os únicos marcos do dia eram as terríveis refeições daquela base.

O toque de recolher era dado às 21h; não mais, não menos. Soldado Flores se condoía com cada um dos minutos de atraso... eram 21h07 e ele tinha um péssimo pressentimento.

Sua redenção chegou às 21:13:11, segundo a segundo devidamente contados pelos seus nervos. Finalmente a sirene tocou e todos começaram a se dirigir aos alojamentos.

Sua redenção o deixou às 21:13:57, quando a sirene deu lugar a um comunicado especial. Vendo o rosto de sua mulher e seu filho a cada palavra, ouviu "Tivemos uma mudança no panorama. Partiremos para a Argélia antes do amanhecer. Ponham em execução o protocolo de campo.". Todos corriam para a sala de armamentos; o único animado era Daniel, como já se esperaria.

***

Marco estava estático. Olhava os rifles; as pessoas; os capacetes; os coletes; as bolsas; as botas; rifles; pessoas; capacetes; coletes; bolsas; botas; rifles e pessoas e coletes e bolsas e botas e... o rosto de Lore, sorrindo, com farinha no rosto, o sol entrando pela janela, o cheiro de bolo de laranja... "Soldado Flores? Está me ouvindo? Flores?". Viu a enfermeira; gorda e morena, sorridente por vê-lo abrir os olhos.

Ela deu-lhe um copo cheio de um líquido opaco de cheiro repugnante. "Beba. É, é horrível mesmo.".

Enquanto bebia aquilo como podia, viu uma sombra aproximar-se: "Esperava mais de você, rapaz". "Ah, Capitão Gonçalo, me perdoe, eu não sei o que aconteceu. Foi apenas...", "Não temos lugar na frente de batalha para soldados com fobia a rifles. Seria patético o senhor fazer o mesmo depois do início do confronto. Encontrarei onde possas ser mais útil. Recomponha-se e ajude as enfermeiras com os suprimentos de medicamentos, quando encontrar ocupação para ti, chamarei-te.".

Era impossível não se sentir humilhado, mas ainda mais forte que a humilhação era o alívio. Definitivamente não tinha nascido para uma frente de batalha, para empunhar rifles.

***

Pessoas morriam a todo momento. O ânimo e patriotismo dos soldados portugueses definhava. O primeiro confronto não estava sendo, definitivamente, o sonho português.

O único conforto aos soldados eram as refeições de batalha, que eram menos intragáveis que as da base. Mesmo com as refeições melhores, morrer não parecia tão ruim assim. Muitos não tinham com quem se preocupar, nem para onde voltar. Daniel era um deles, só o que tinha era a guerra, e era a primeira vez que podia dizer que era importante em alguma coisa.

O primeiro da frente de batalha era sempre ele, não havia nada que parece demais pra ele, que tivesse medo. Empunhava o rifle e seguia as ordens do comandante, sem olhar para os lados, sem pensar sequer um momento que podia não voltar. E a ordem agora era invadir o fórum de Argel.

Foi a primeira disputa ganha por Portugal, em incríveis 2 dias. Os soldados tinham sua confiança e patriotismo renovados. Menos Daniel, que voltou sabendo que sua importância tinha acabado junto com sua visão.

Com um estilhaço de bomba, ele perdeu o olho esquerdo. E com a frase, em tom de lamento, de Capitão Gonçalo, ele voltou para a base: "não se faz um herói sem medo, soldado".

***

"Marco, é bom te ver", disse Dolores, ao chegar no ambulatório. Na verdade, era bom ver que não era a pessoa mais desanimada com aquilo tudo. Por mais que o ferimento o deixasse tonto e sem forças, parecia muito mais vivo que o amigo.

A enfermeira logo tratou de levar o ferido para uma cama e começar a limpar o ferimento. Marco levou para ela o kit para desinfecção. Por todo o ambulatório podia-se ouvir os gritos de dor, mais pelo fim do sonho de ser reconhecido por algo na vida que pela dor.

Marco, a mando da enfermeira, foi preparar uma porção de ópio para aliviar a dor. O fez muito bem, incluindo uma generosa porção de estricnina. Nada além disso poderia aplacar a dor que Daniel sentia.
Em 15 minutos o rosto de Daniel transfigurava-se numa expressão horrenda de dor e agonia, seu corpo contorcia-se incontrolavelmente, sua garganta fechava e o ar já não era bem-vindo. Em 40 minutos, toda sua vida estava resolvida.

Era realmente difícil matar uma pessoa para salvar-lhe a vida.