Capítulo 2 – “Malditas mulheres”
1
Se estivesse em casa, ela saberia perfeitamente o que vestir, mas neste caso serve um vestido preto curtíssimo. Volta ao espelho, ajeita o vestido, bagunça um pouco o cabelo. Tudo é sempre casual. Era realmente bonita demais para aquele lugar; o que só favorecia seus planos.
Pôs seu melhor sorriso e caminhou lentamente até o hall - se é que a precariedade permite que se chame assim – da pousada, com cara de quem acaba de acordar. Sentou-se num dos degraus da entrada. Uma mecha de cabelo displicente sobre a nuca foi o que chamou a atenção de Eytan.
De todo o conjunto de pernas, seios e lábios, apenas a mecha de cabelo. Eytan odiava as mulheres que não mantinham nada de ingênuo. Nada de infantil. Tudo era tão pensado para ser provocante, que provocava... asco.
“Eu gostaria de um quarto. Há algum disponível?” – disse Eytan. Era simplesmente óbvio que não havia mais de cinco pessoas ali; incluindo a recepcionista. Embora, “Vou ver a disponibilidade. Só um momento, senhor” foi a resposta que ele recebeu.
“Seja bem-vindo, eu acho”, disse Julia com a voz mais sexy que possuía e um sorriso mais doce que um pacote de Butterscotches. Foi andando até ele vagarosamente e mantendo aquele sorriso, deu-lhe um aperto de mão e sentou-se no balcão da recepção.
Até que ela não era tão repugnante. Uma pessoa capaz daquele sorriso não pode ser repugnante, mas por outro lado, uma mulher que se exibe no balcão não merece respeito. Nenhum.
2
Finalmente, depois de mais de vinte minutos folheando agendas em branco, a recepcionista o chama para dirigir-se ao quarto. A cada passo dado, aquela pousada parecia pior. Talvez o buraco de quase um metro de extensão no meio do corredor tenha ajudado um pouco nesta impressão. Talvez.
O quarto parecia bom. A janela não abria, o banheiro estava interditado, havia um buraco na parede atrás da cômoda, a cama era estranhamente curta e estreita – mesmo para ele que não tinha muito mais que 1,70m e 60kg –, o telhado sobre a cama tinha grandes frestas que tornavam impossível habitar o recinto durante o dia, mas nada, absolutamente nada, era tão terrível quando o calor escaldante do quarto.
Se tinha algum conhecimento que ele adquirira desde que seu carro estragou é que quentes – e grandes – eram os desertos. Nem tudo estava perdido; pelo menos a geografia sairia melhor desta.
Depois de intermináveis vinte segundos dentro do quarto, ele decidiu-se por perguntar à recepcionista se não havia outros quartos.
“Estão todos reservados, senhor. Nossas instalações não estão à altura?”, disse a recepcionista. No que a única resposta possível é “Amm... de forma alguma. São ótimas.”.
Aquilo já era demais. Decidiu ir comer algo na “cantina” da pousada.
3
“É melhor que você não espere comer bem por aqui”, disse Julia com o mesmo sorriso doce. E ela realmente estava certa. A comida era simplesmente horrível. Foi o pior sanduíche de toda a história; digno de condecoração.
“Ainda tenho Pringles na mala. Estás com fome?”, convidou Eytan, meio sem saber o porquê, mas quase intimando. Julia nem respondeu, apenas levantou e foi andando em direção aos quartos, lépida. Por mais que continuasse com o vestido preto, o sorriso, a reação infantil e a mecha de cabelo negro ondulando sobre a nuca alabastra fizeram Eytan suspirar. “Malditas mulheres!”.
Eytan entrou no quarto para pegar o que seria a melhor refeição por ali e Julia entrou junto com ele. Sentaram por dois minutos na cama desconfortável e Julia o convidou para ir até o quarto dela, que pelo menos não tinha o sol queimando a cabeceira de cama; e todo o mais que passasse perto.
Ele hesitou, ficou confuso. Quando levou a mão ao cabelo para tirar uma mecha que estava lhe machucando o olho percebeu que sua mão estava suando, escorrendo. Julia tinha um plano e ela não podia deixar que a falta de confiança de sua vítima estragasse tudo; pegou-o pela mão e arrastou-o até seu quarto.
Sentiu um certo alívio, dado que o quarto era mais arejado, mas essa sensação não era nada perto do pavor e do medo do que aconteceria a partir dali. Era a primeira vez que qualquer coisa sequer perto disso acontecia.
Acerca do processo de criação:
ResponderExcluirA parte mais difícil foi razoavelmente manter o nível, recebendo como base dois personagens (um meio "devagar" e uma sem caráter) presos numa pousada no deserto. Percebam que eu não fui completamente bem sucedida.
Gostei de receber os personagens com a personalidade não completamente formada; é demasiado interessante caracterizá-los.
Deixo registrados meus desejos de "have fun" ao Grifo :)