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sábado, 12 de outubro de 2013

Capítulo 9 - Um Sorriso Honesto

Capítulo 9

Um Sorriso Honesto


O sol se punha, e as ruas de Lisboa — ainda ignoradas pelos boêmios que resistiam à guerra — não mais se enchiam de transeuntes apressados. As lojas e escritórios já foram evacuadas pelos trabalhadores, na ânsia de deixarem suas tarefas e voltarem a suas famílias. Para Viriato, no entanto, esses momentos de tranquilidade eram o ponto alto do dia, a solidão já considerada um abrigo. A caminhada até a estação de trem permitia a contemplação e análise das informações que recebera durante o dia, por vezes levando a conclusões que muito satisfizeram ao General Longo.

Nos dias em que nenhuma informação relevante aparecera, Viriato observava discretamente os poucos companheiros que compartilhavam desses momentos de calma — sentindo certa cumplicidade com aqueles que reconhecia, que aproveitavam recorrentemente da tranquilidade desse horário.

Naquela sexta-feira, porém, tal tranquilidade fora interrompida pelo tropeço de uma jovem, que carregava uma pilha de envelopes cheios. A pobre moça deixara os envelopes caírem, e os papéis neles contidos se espalhavam desordenadamente pelo chão. O desespero dela em juntá-los fez Viriato se compadecer e ajudá-la — talvez pudesse ser demitida por uma simples página fora do lugar.

"Muito obrigado pela ajuda, senhor...", agradecia a moça, após organizarem e reagruparem os papéis.

"Ah, perdoe meu lapso!",  reconheceu Viriato. "Eu... Eu sou Viriato... Viriato Pontes."

"Prazer, sou Mara Rodrigues. Salvaste minha pele, eu levaria horas para reorganizar os papéis sozinha. Letras não são meu ponto forte."

"Ah, não foi nada... E... pelo que vejo... a senhora já lê relativamente bem... muitos não sabem nada... já é um grande mérito", gaguejou Viriato, tentando ser gentil e causando o riso de Mara.

"És bastante realista, Viriato. Há tempos ninguém me elogia de forma tão humilde, porém honesta. A propósito, me chame de Mara; dispenso os formalismos."

Viriato mal percebera os cabelos pretos e secos de Mara, tão diferentes dos cachos loiros de Aleksandra. Pouco notara seus olhos de um castanho sem vida — em vez de um verde reluzente — e suas mãos calejadas e marcadas — evidência de trabalho pesado. Percebera apenas um sorriso tão diferente do de Aleksandra — em que perfeitos lábios e dentes emolduravam um retrato de cinismo, pena e escárnio. O de Mara era um sorriso honesto, como poucas vezes Viriato havia visto.

"Espero poder retribuir tua gentileza com um bom jantar. Moro em Frielas, um vilarejo nos arredores de Loures, e minha irmã é dona da taverna local. Sua comida, embora simples, é muito saborosa. Se apareceres lá ao entardecer, ficarei feliz em acompanhá-lo no jantar, por minha conta."

"Agradeço o convite, senhora... digo, Mara", disse Viriato, ainda tímido. "Terei o prazer de fazê-lo. Na próxima terça-feira, talvez?"

"Ficarei feliz em recebê-lo", respondeu Mara, novamente com seu sorriso desconcertante. "Agora tenho que ir, antes que me atrase mais. Uma boa noite, e nos vemos na terça-feira."

***

Ao chegar em casa, Viriato ainda pensava no encontro inesperado, e na confusão que o encontro causara. Apesar de ainda morar com seus pais, dificilmente seus pensamentos seriam interrompidos por qualquer conversa — ou pelo menos qualquer conversa que o incluísse. Principalmente nas noites de sexta, em que os dois irmãos, já casados, vinham jantar com a família, e teriam certamente muitas novidades da semana.

Nessa noite, porém, sua mãe o avisou de que Marcelo não viria. Estaria ocupado ajudando Aleksandra e seu pai com alguma tarefa. A notícia não fora tão surpreendente, dada a dedicação crescente de Marcelo a seu sogro.

Tal ausência, além de atípica, era muito frustrante para os pais de Marcelo — afinal, durante a semana eles eram privados de Marcelo e Pedro, tendo que se contentar com Viriato; os jantares de sexta-feira eram um ponto alto da semana. Viriato, porém, viu que chegara a hora de investigar — as atividades do pai de Aleksandra começavam a afetar a sua família, e era apenas uma questão de tempo até que fosse prejudicado por isso.

Tinha esperanças de escapar da tarefa desagradável de investigar sua família, envolvendo-se com ela novamente após anos de abrigo sob um escudo de indifereça. A atividade crescente, porém, indicava uma ameaça real à pátria. Era tempo de afastar os pensamentos de Mara e voltar a seus deveres.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Capítulo 8 - Em nome da minha pátria

Capítulo 8

"Em nome da minha pátria"


Algumas pessoas fomentam nos seus âmagos um plano de vida tão detalhado que em poucas noites insones já construíram uma carreira sólida e uma família feliz. Viriato era dessas pessoas.

Outras poucas pessoas conseguem construir, fora de suas mentes, uma carreira de sucesso e arrebatar o coração de uma adorável dama. Viriato não era dessas pessoas.

Desde criança construíra, pedra por pedra, o seu ideal de vida. Seria telegrafista, como o tio que o pai detestava, e casaria com Aleksandra, uma russa cuja família mudara-se para Portugal por motivos não exatamente claros e razoáveis.

O filho do meio de uma família com 3 filhos, cujo pai era também filho do meio. Há pouco a se fazer de mais insosso na vida que ser filho do meio.

A mãe era lavadeira e precisava de alguém para lhe ajudar; o filho mais velho era o orgulho e levaria o nome da família adiante, o filho mais novo não merecia trabalho tão ingrato, mas um filho do meio era do que ela precisava. Ela lavava, ele passava e engomava. Começara aos 11 anos e não esperava que fosse parar tão cedo.

***

Enquanto fazia o trabalho que a mãe lhe designava, treinava mensagens em código, como havia lhe ensinado o tio. O pai gritava: "Já não bastasse ter as fuças do traste do Antônio, ainda o gosto por essas porcarias velhas e inúteis! Só falta agora o arak e as mulheres sem carnes!". O arak lhe enjoava o cheiro, mas não se podia dizer que Aleksandra fosse uma mulher de carnes.

De tanto engomar e passar roupa, não havia código que já não dominasse. Decidiu prestar prova de telegrafista. Teria conseguido, tinha certeza, não fosse o pai lhe chamar e ameaçar-lhe para que não fizesse essa desgraça com a família.

Acabou um sonho.

***

Frustrado, agarrou-se ainda mais ao amor platônico e infantil que tinha por Aleksandra. Dividiam a classe, mas nunca lhe dirigira a palavra.

O fim do colegial e a proximidade da formatura tornava o ambiente escolar mais propício a... investidas. Por mais que a russa não fosse do tipo que falava muito, também não era muda.

Se não lhe era permitido investir na carreira, nada lhe foi dito que impedisse de investir no amor. "Oi... Eu... Eu sou Viriato", "Sim, eu sei". Acabou o assunto, pelos próximos 6 meses.

***

Voltaram a conversar 6 meses depois, na mesa de jantar da família de Viriato. "Pai, mãe, esta é Aleksandra, minha namorada", anunciava o irmão mais velho. Viriato apenas disse "Eu sou Viriato", "Sim, eu sei.".

Certamente perder pro irmão mais velho doia, mas ainda não tinha conseguido superar não poder ser telegrafista; e isto certamente lhe doia bem mais.

Já pensava em talvez passar a vida passando e engomando, afinal, quando não se tem perspectivas qualquer coisa é melhor do que a idéia de não ter nem isso. Quem sabe viria a casar com uma lavadeira e sua vida estaria mediocremente resolvida.

Era melhor parar de pensar e voltar a comer o bacalhau, antes que alguém lhe perguntasse o que estava se passando, ou, pior ainda, ele passasse mais tempo inerte e ninguém perguntasse nada.

***

Foi o raciocínio rápido, a boa memória e perspicácia no colégio que lhe trouxeram a proposta: "precisamos de um ajudante para a nação, que saiba ler bem e lidar com informações", disse-lhe, com ar de confidência, um homem com ar de empalhado.

Aceitou. O pai haveria de achar bom. Começou no trabalho no dia seguinte.

Decorar mapas, traçar rotas, relacionar características físicas de pessoas que não conhecia, fazia parte do seu trabalho diariamente. Já não queimava os dedos no ferro de passar e o pai estava incrivelmente satisfeito.

***

Em algum momento entre relacionar características físicas de desconhecidos, encontrou algo bastante familiar.

O indivíduo era, certamente, o pai de Aleksandra. Começava sua primeira missão como espião.

Não era como se gostasse, mas sempre se dedicou às coisas simplesmente por honestidade. "Faço em nome da minha pátria".