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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Capítulo 3 - Linha de Frente

Capítulo 3

Linha de Frente


Portugal havia declarado guerra a Alemanha há pouco tempo, mesmo que já estivessem em conflito há dois anos na região da África. Durante esse tempo já enviaram duas forças para expulsar as tropas alemãs de Moçambique, contudo não obtiveram sucesso.

Nesse terceiro esforço de expulsar os alemães Daniel Dolores foi um dos enviados. Quando ele foi acordado pelo alarme da manhã não pôde deixar de sentir raiva por ter dormido tão bem, e mesmo assim não ter descansado o quanto queria. Contudo suas preocupações desapareceram ao olhar para o lado e ver que o seu colega estava acordado, e ao olhar com calma os olhos dele, viu olheiras de quem já está muitos dias sem conseguir dormir.

- O dia começa só agora, soldado Flores. Não era necessário fazer um turno extra acordado.

O soldado Flores parecia distante, e sua resposta veio sem nenhuma vontade.

- Sim.

Muitas pessoas estavam abatidas com a guerra, mas o Marco Flores não parecia estar nesse grupo. Claro que as olheiras eram evidentes e ele passava os dias em um profundo silêncio não falando mais que o necessário, mas Daniel sabia que ele era um homem responsável e até mesmo alegre, e que estava agindo daquela forma pois de fato ele não pertencia aquele lugar, e sua cabeça estava sempre longe, pensando em sua mulher e filho. Daniel, por outro lado, era um falido que não tinha talento para muita coisa, e aceitou o risco da guerra e seu soldo de bom grado. Talvez por isso ele conseguisse até mesmo se divertir no meio de todo aquele caos e abatimento.

***

Enquanto estavam nessa zona mais tranquila, próxima a costa. Os soldados tiveram dias para descansar e recuperar os ânimos. Ainda tinham que se exercitar e fazer alguns trabalhos menores como consertar equipamento, mas de fato estavam tendo dias melhores. Todas as manhãs os esquadrões se reuniam com seus capitães. Nesse momento se haviam cartas para ser entregues, era informado e se houvesse qualquer atividade designada para aquele esquadrão ela já era atribuída a seus membros.

- Estamos de mudança, homens - disse o capitão olhando sério para os soldados.- Acho que todos tiveram tempo para dormir bem, comer bem e colocar as fofocas em dia. Está na hora de honrar nossa bandeira e nosso povo e começar a se mover. Iremos entrar em combate e iremos para ganhar.

O capitão via que o ânimo dos soldados havia sido abalado, todos que estavam naquele batalhão se consideravam amaldiçoados por estar naquele lugar onde não havia tido vitória portuguesa.

Nem todos os dias eram realmente quentes, mas aquele em especial estava com um Sol muito forte, mesmo cedo pela manhã. Acrescentando isso ao ânimo de seus homens, fez com que o Capitão Gonçalo também perdesse a vontade de continuar com seu discurso patriota. Ninguém ali estava em um parque, e todos sabiam disso. Agora a ação iria apenas aumentar. Ele dispensou os homens e se afastou procurando ficar sozinho.

***

Passado algum tempo ele ouviu passos familiares de duas pessoas se aproximando.

- Capitão - fizeram uma continência os soldados Flores e Dolores.
- A vontade, soldados. Mesmo depois de tanto tempo acho estranho ver vocês dois batendo continência para um amigo.
- Regras de hierarquia - disse Daniel se aproximando.

O capitão Gonçalo gostava de ficar próximo a costa, ouvindo as ondas e pensando. Ele nunca de fato fora realmente amigo daqueles dois, talvez de Marco. Mas com a guerra acabaram ficando mais próximos, aquele não era exatamente um ambiente agradável para ninguém, o que criava amizades e as vezes até algo mais.

- Então vamos começar atirar em alemães para variar, hein? - insistiu Daniel puxando assunto.

- Eu não sei o que o Coronel Gil pretende, mas ele parece confiante. Me pergunto se eu estaria mais confiante ficando aqui na costa comandando tudo em vez de estar na linha de frente.

Pairou um silêncio no ar e apenas o som das ondas pôde ser ouvido. Gonçalo olhou para Marco e por um breve segundo lembrou de Lore. Afastou o pensamento da cabeça e se levantou um pouco sem jeito.

- Acho que todos nós estaríamos um pouco mais confiantes nessa situação - respondeu Daniel.

Como sempre nos últimos dias Marco permaneceu a conversa inteira calado, enquanto os outros dois ainda discutiram alguns assuntos que ele não realmente dava muita importância. De fato, ele estava ainda mais preocupado com Lore, pois agora ele provavelmente ficaria sem notícias nenhuma dela e de Augusto. E alguma coisa naquele plano todo de finalmente ir para a linha de frente não estava fazendo bem para ele. Se ele fosse morrer, como ficaria ela tendo que criar seu filho sozinho?

Esse pensamento ficou em sua cabeça por muito tempo sem que ele conseguisse encontrar alguma solução real.