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sábado, 31 de dezembro de 2011

Capítulo 6 - Máscaras

1

O Sol raiava forte quando Eytan desceu os degraus da entrada, apressado. Deu a volta pelo lado esquerdo da pousada, e já avistava de longe o homem loiro que polia sua arma, à sombra do galpão.
Mal bateu os olhos em Richard, as pernas de Eytan pareceram reconsiderar a decisão. Mas era tarde demais para voltar atrás agora.

"Ei.", disse Eytan, seco.
Richard moveu apenas os olhos, a fim de se certificar de quem se tratava.
Feito isso, voltou a polir sua espingarda, como se nada mais o preocupasse.
"Eu quero falar com você.". O sangue de Eytan fervia, sua incerteza transformada em fúria.
Richard acenou com a cabeça de forma tão leve que Eytan quase não percebeu.
Eytan continuou.
"... é sobre Julia."

Richard sabia onde essa história iria parar. Sabia que tipo de pessoa Julia era. E ainda mais importante, sabia que tipo de pessoa Eytan era.
Richard estava cansado de pessoas que se deixavam levar por meia dúzia de palavras bem pensadas.
Estes que se dizem puros ou de boa índole, estes não passam de imbecis. São estes tolos que alimentam o ciclo vicioso de mentiras que infesta a vida e corrompe a alma.

As máscaras são repugnantes, mas piores são os que não vêem através delas.

Pensou nisso por um segundo, enquanto terminava de polir sua espingarda. Deu por pronto e se levantou da cadeira rústica, e assim foi, sem nem voltar os olhos ao rapaz.

"Você vai simplesmente sair assim?" Eytan advertiu, nervoso.
A completa ausência de resposta daquele homem lhe aumentava a confiança gradualmente. Talvez estivesse com medo.
"Que espécie de homem você pensa que é, batendo em uma mulher-"
Imediatamente Richard se virou e o socou no rosto, curto e seco. Eytan caiu de bruços.

"Você não sabe quem eu sou, e não tem a menor ideia do que está falando.", disse Richard, sua seriedade habitual ainda estampada no rosto.
Sua voz era grave e um pouco rouca, mas havia nela algum tom sereno que Eytan desconhecia.

Eytan respirou fundo e tentou se acalmar. Ali estava ele, atirado na terra árida e empoeirada. Recebendo um soco de alguém que nunca antes viu, e por alguém que conhecia a pouco mais de um dia.
É, talvez tenha merecido isso. Era isso o que acontecia quando tentava se envolver, ele já deveria ter aprendido.

"Não acredite em tudo que vê.", adicionou Richard ao rapaz, que se levantava lentamente.
Eytan então percebeu que Richard parecia ter socado de mal jeito, seu braço o incomodava. Estava ferido.

Enquanto recuperava o controle e colocava os pensamentos em ordem, Eytan percebeu que aquele homem havia se ferido na noite anterior.
Mas até mesmo um homem como aquele foi ferido? O que diabos FOI essa noite, afinal?
Não sabia o que deveria pensar. Decidiu por fazer o que era certo.
"Esse... você... posso ver isso?", Eytan se prontificou.






2

Julia não podia conter o riso que nascia tão naturalmente ali, apoiada na janela, com aquela visão panorâmica daquele infeliz caindo com um único soco, rosto na poeira.
Não sentia nenhum prazer descomunal por esse tipo de coisa, não: apenas era muito único pra se deixar passar desapercebido um momento desses.
Não era todo dia que ela tinha esse tipo de passatempo, afinal de contas. Naquela pousada encardida.

Em nenhum momento passou pela sua cabeça que Eytan realmente seria capaz de levantar a voz contra Richard. Muito menos que ele lhe retribuiria com um soco. O que quer que Eytan tenha dito,
deve ter sido exatamente o que o bastardo não queria ouvir.
Pensando bem, talvez mandar o infeliz diretamente a Richard não tenha sido uma boa ideia. De qualquer forma, isso não importava agora. O que Julia precisava nesse momento era ganhar tempo.
Não importa o que Richard tenha lhe dito noite passada, não iria ficar depois do jantar. De forma nenhuma. Havia conseguido escapar por todo esse tempo; não seria hoje que falharia.

Em meio a seus devaneios, Julia mal podia perceber o que se passava a sua volta. De fato, nunca o teria, não tivesse Dita pisado em um azulejo quebrado e protuberante, mal fixado no piso do banheiro.
"Quem está aí?", perguntou.
Dita receou, mas logo viu que não adiantaria mais se esconder. Saiu de seu esconderijo improvisado, os olhos sempre no chão.






3

Richard estava com um corte razoável no peito, abaixo do braço direito. Eytan o levou ao interior do galpão.
"Você é médico?"
"Técnico de Enfermagem.", esclareceu Eytan, sem tirar os olhos do ferimento que tratava.
"Viajava a trabalho.", concluiu o paciente.
"Na verdade, não. Eu desisti faz uns dois anos.", acrescentou Eytan, sorrindo.
Eytan havia improvisado uma gase com o que encontrou no galpão. O ferimento ao menos não deveria infeccionar.

"Agora me deixe em paz.", disse Richard.
"Eu... sinto muito por antes.", disse Eytan, confuso. Afinal, no que diabos estava pensando?
Pensou em consertar seu carro e sair dali com aquela mulher que mal conhecia? Não parecia certo. Não estava certo.
"...o que a Julia quer de mim?", indagou.
Richard permaneceu em silêncio.
"...tanto faz.", concluiu Eytan. "Pela tarde, eu gostaria de uma carona até o meu carro-"
"Seu carro já foi levado, rapaz. Não perca seu tempo, nem o meu.", interrompeu Richard.
Como podiam estar todos tão certos que seu carro já havia sido roubado? Mal havia se passado um dia desde que chegou!
Decidiu que cuidaria disso ele mesmo.

Richard se perguntou se agia corretamente. Sim, era o certo a se fazer. O garoto precisava participar esta noite. Precisava saber.
Na verdade, foi muita sorte ele não tê-los visto na primeira noite. Cedo ou tarde, o garoto acabaria por Vê-los.

"Esta noite, você não vai subir depois do jantar.", completou Richard.
Eytan não respondeu.





4

Tudo o que Julia menos precisava nesse momento era de uma outra mulher no quarto de Eytan.
Só o que lhe faltava era uma vadia estrangeira pra disputar pela atenção do infeliz.

De repente, uma outra possibilidade surgiu perante Julia. E esse pensamento a encheu de medo.

"Moça, eu sou-"
"Eu sei quem você é.", Julia interrompeu asperamente."Você é um deles."
"Não!" Dita respondeu assustada, os grandes olhos arregalados pareciam alguma jóia negra.
"Você é um d'Os que Vagam. Você veio me levar.". Julia não parecia ela mesma.
"Por favor me ouça! Eu só preciso de um lugar pra ficar!"

Era uma óbvia mentira, pensou. Mas se vieram para levá-la, porque não no seu quarto? Talvez... talvez tenham vindo para buscar Eytan!

"Escuta aqui, Juanita," atropelou Julia, nervosa,
"Eu não sei quem você pensa que é, mas é bom que você saiba de uma coisa: o Eytan é Meu.
Ele só dormiu aqui uma noite, ele nunca os viu. Ele ainda não viu os Escorpiões. Ele VAI me tirar daqui!"

Eytan entrou neste momento, batendo a porta do quarto contra a parede.
"O que diabos está acontecendo aqui?!", bradou.
"Você tem alguma ideia de quem é esta vadia?", disse Julia, agarrando Mercedes pelo pulso.
"Julia, por favor, só saia daqui.", disse Eytan, sem a olhar nos olhos.
"Nunca! Você não tem a menor ideia do que ela é capaz!"
De fato, isso até poderia ser verdade. Mas Eytan parecia começar a saber do que a própria Julia era capaz.
"Ela vem comigo! Não pode ficar aqui nem por mais um instante!", gritou Julia, e puxou a moça pela mão.

"Julia!!", gritou Eytan, mais alto e mais furioso.
Ela nunca o tinha visto assim antes. No choque, Julia cedeu o pulso. Saiu, e foi para seu quarto em silêncio.
Eytan percebeu que havia algo errado com ela. Mas no momento, suas preocupações se focavam em outra pessoa.

Mercedes estava aos prantos.
"Eu não sou...", repetiu, soluçando.

Custou uns bons minutos até que ela se acalmasse. Minutos que Eytan passou em absoluto silêncio.

"... como está Richard?", Dita perguntou cautelosamente.
"Está bem", informou Eytan. "Você o conhece?"
"Sim, desde criança. Ele morava perto da minh... da casa de meu pai."
"Então é melhor chamá-lo. Ele deve ser capaz de providenciar um abrigo melhor pra você."
"Não! É melhor não. Faz tempo que não o vejo, e penso que ele pode decidir me mandar embora. Só quero você."
Eytan a olhou, perplexo por um segundo.
"Eu não quis dizer isso! Me desculpe!", reiterou a moça, assustada.
"Tudo bem, tudo bem, só faça mais silêncio okay? Alguém vai acabar te ouvindo."
"Me desculpe...", suspirou com um tom de alívio, as lágrimas secando no rosto.





5

No almoço, Eytan reencontrou alguns dos rostos familiares da noite passada. Lá estavam, entre outros que Eytan desconhecia: Deric, o homem do chapéu escuro, e o homem de mais idade, com o qual havia conversado noite passada. Talvez lhe devesse desculpas. Não achou as palavras.
Julia não havia descido para o almoço. Talvez também lhe devesse desculpas. Não procurou as palavras.

Almoçaram em silêncio. Quando ninguém parecia atento, Eytan enrolou um pedaço de carne em um pano de pratos e colocou umas frutas no bolso.
Era o melhor que podia fazer por Dita.

Mas quando Eytan estava prestes a subir as escadas, ouviu uma voz familiar.
"Você tem um minuto, meu jovem?", o senhor da noite passada desejava sua atenção. Ainda carregava em seus gestos a fachada de um cavalheiro, tal como lembrara.
Eytan moveu as mãos com os panos para detrás de si, e respondeu com um sorriso desconfortável.
"Posso ajudar, senhor...?"
"Apenas 'Anthony' está bom. Se importaria de me acompanhar para uma volta?", solicitou o homem.
"... Na verdade agora eu estou com um pouquinho de pressa. Estou esperando uma ligação importante."
O homem lhe pôs a mão sobre o ombro, Eytan já no primeiro degrau da escada que subia aos quartos.
"Me escute agora, garoto. Nem todas as noites são tão barulhentas quanto a passada, fique tranquilo.", disse e sorriu.
"Para o jantar, quero que pense em uma história. Mas não qualquer história; algo real. Algo que tenha acontecido com você."
Eytan estranhou.
"Uma história? Mas por quê?"
"É o que fazemos aqui. Depois do jantar, nós contamos histórias. Hoje vai ser sua vez." concluiu, e lhe deu um leve tapa sobre o ombro.
"Nós estaremos esperando.", disse o homem sorrindo, enquanto se afastava.
"Espere, senhor!", pediu Eytan, urgente.
O homem se voltou para ouví-lo.
"No almoço dei por falta de um homem. Um que parecia... nervoso noite passada."
"Ahh sim, Louis..." disse o senhor, quase que para si mesmo.
"Algo errado?"
"Louis... os Escorpiões o levaram."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Capítulo 5 - Dita

1
Aquele estrondo ficou ecoando na sua cabeça e ele não sabia se ouvia mais tiros ou se era simplesmente a recordação do primeiro. Tomou um gole d’água suja, que era o que se conseguia naquele quarto, e tentou se acalmar. Sair do quarto não passaria pela sua cabeça; se ele queria saber o que estava acontecendo, ele também não queria ter que descobrir por si só.
O frio era simplesmente insuportável, mas não havia muito a se fazer. Vestiu todas as suas roupas e se enrolou numa colcha velha e poeirenta. Nada parecia resolver. O lugar não tinha nada de aconchegante ou confortável, mas Eytan estava realmente feliz por não estar na rua.
Lembrou que tinha ainda uma garrafa de gim na mala e decidiu resolver o problema dos tiros que ouvia e do frio que sentia. Bebeu dois grandes goles da garrafa e voltou para a cama. Dormir não demorou nada.
2
Dormia profundamente; o dia tinha sido extremamente longo. Nem ao menos sonhava.
Infelizmente não durou muito esta paz. Eytan acordou, assustado. Parecia que tinha alguém em sua cama e... tinha!
Ela não o deixou gritar, embora ele realmente tenha tentado. Acabou dando um tapa no rosto da visitante furtiva e viu o brilho de suas lágrimas. Imediatamente abraçou-a, desajeitadamente, como que pedindo desculpas silenciosamente.
Assim que acalmou-se do susto, precisava mesmo saber o que era tudo aquilo. Afinal, ainda se ouvia tiros na rua, e a moça tremia, chorando ainda mais, disfarçando os soluços.
3
Quando Eytan percebeu, já o sol nascia e o calor tinha voltado. Eles tinham dormido, abraçados. A moça parecia se esconder com a colcha, apesar de todo o calor que fazia.
Ele ficou apenas olhando-a, com uma expressão extremamente curiosa e assustada. Ela percebeu.
“Eu... não sei por onde começar. Meu nome é Mercedes. Eu fugi de casa. Meu pai queria que eu me casasse...”, ela volta a chorar, mas logo se acalma. “... que eu casasse com um deles. Meu pai é um deles. Eu não queria, não queria! Odeio todos! E... a minha mãezinha... ela não merecia... não merecia... eu odeio eles todos!”. Eytan não sabia o que dizer, pra variar.
Consentiu em ajudá-la, não sabia porquê. E realmente devia ser menos ingênuo, mas isso ficaria pra uma próxima ocasião. Escondeu Mercedes junto às tábuas que vedavam o banheiro, cobrindo-a com a colcha da cama e foi tomar café.
4
Por mais que a janta fosse ruim, o café da manhã fazia-a parecer um manjar. Ainda assim comeu, e deu um jeito de esconder uns pedaços de bolo seco no bolso, rezando para que Lindsay não visse; não queria - e não podia - dar explicações.
Quando voltava para o quarto foi puxado por Julia. “Eu te esperei. Por muito tempo.”, disse ela, com uma expressão entre reprovação e tristeza. Eytan, porém, só conseguia pensar em Mercedes e nos terríveis pedaços de bolo que estava levando para ela, “Desculpe-me, eu esqueci”, disse por fim.
Imediatamente Julia percebeu que tinha algo estranho, e sabia que não podia, de forma alguma, perder a atenção de Eytan. Trancou a porta, empurrou-o para que sentasse na cama e foi trocar de roupa, de forma que ele visse sua sombra apenas. “De displicente só a mecha; atriz pornô”, pensou Eytan enquanto Julia usava mais um de seus truques, convencida de que fazia certo.
Ele deixou aquela cena toda correndo; pegou a chave na cabeceira, abriu a porta e correu para o seu quarto, se trancando lá.
“Mercedes”, chamou sussurrando. Ela parecia não estar ali. Será que estava bem? Ele já estava quase chorando. Eles podiam ter encontrado-a. Eles... que ele não sabia quem eram.
Sentou-se na cama e percebeu que havia algo errado. Encontrou Mercedes dormindo embaixo de sua cama. Tudo parecia estar bem agora.
“Mercedes”, chamou novamente. “Dita... me chame de Dita”. Deu à moça os pedaços de bolo, ela lhe agradeceu com o olhar.
Até então não tinha visto o rosto de Dita. Era morena e delicada; bonita. Certamente era mexicana. Tinha uma ânsia por saber qual era o mistério que aquela menina carregava, mas o medo de assustá-la era ainda maior. Ela parecia tão frágil.
5
Alguém batia à porta. O medo era claro no rosto de Dita e Eytan, mas em poucos segundos ele lembrou de Julia. Dita correu para o seu esconderijo junto à gelosia da porta do banheiro; ele abriu a porta, como se nada estivesse acontecendo. Ele fingia muito mal.
Julia tinha os olhos vermelhos e o rosto molhado. Pegou as mãos dele entre as suas e olhou-o com o seu olhar de maior aflição. “Richard... ele me ameaçou ontem à noite”, sussurrou ela, e se atirou na cama.
Não podia deixá-la assim. Precisava fazer algo. Ia falar com Richard. E foi o que fez. Correu até o pátio procurando por Richard, mas quando o viu aquela coragem se esvaiu e voltou para o quarto. Julia olhava-o como quem perguntava o que estava fazendo e ele vagamente respondeu “fui apenas ver se estavam servindo o almoço”.
Eytan foi até a janela, de onde enxergava Richard, e o viu polindo uma arma. Imediatamente lembrou-se dos tiros. Chamou Julia, “Ammm... moça? Venha ver isso!”, “Julia, menino, Julia”, “Ah, sim, prazer, Eytan”, logo ele lembrou-se do que acontecia e mostrou a ela, que imediatamente voltou a chorar.
Dita ouvia tudo, de seu esconderijo, incrédula. Ela conhecia Richard desde a infância, e sabia que havia algo estranho.
“Essa era a arma que ele tinha ontem quando foi até o meu quarto...”, Julia mostrou a Eytan um hematoma que tinha nas costas. “Foi Richard quem fez isso?”, perguntou-lhe. “E quem mais haveria de ser...?”.
“Vou tirar satisfações com ele. Agora”, bradou Eytan. “Não! Ele pode matá-lo!”, suplicou Julia. Não adiantou. Eytan bateu a porta atrás de si, correndo para a rua; à Julia só restou ficar olhando pela janela.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Capítulo 4 - Escorpiões


1

A noite chegava lentamente, trazendo um frio que Richard nunca se acostumava. Era sempre dessa forma. O frio naquele lugar parecia penetrar seus ossos, confundir sua mente e provocar sua alma. Ele gostaria muito de nunca estar ali, mas quando sua mãe morreu, ainda muito jovem, ele foi obrigado a morar com a tia. Provavelmente ninguém naquela pousada imaginava, mas de fato ele não era o filho daquela velha irritante. E por sua relação de sangue não ser tão direta, ele agradecia todos os dias.

Recolhendo a escultura que fizera em madeira, começou a voltar para a pensão. Olhou brevemente a placa de apresentação da pousada e riu sozinho. “Ok, amanhã eu dou um jeito em você” pensou. Mas ele sabia que era mentira. Ele mentia assim uma vez por dia. Naquele lugar ele não tinha ânimo algum para fazer qualquer coisa. Principalmente alguma coisa para ajudar a velha tia. Deixou seus olhos caírem brevemente para a janela do quarto de Julia. Hoje mesmo tinha visto um jovem de cabelos ruivos se esconder ao ser visto no quarto dela. O que levaria aquele coitado a estar esbarrando na Julia? Não teria ele notado o óbvio? “Novatos”.

Lindsay apenas levantou os olhos ao ver Richard entrar. Como sempre, ele estava com um olhar centrado, como se sua próxima atitude pudesse mudar o rumo do mundo inteiro. De seu lugar no balcão da recepção ela sorriu para ele, mas foi completamente ignorada. Mesmo assim ela manteve o sorriso. Richard não era uma pessoa ruim. Quem não o conhecia poderia ter uma impressão inacurada a seu respeito, pois ele não sorria com frequência e não costumava falar muito. Seu porte físico também não era muito amigável, mas mesmo assim ele era alguém que ajudaria qualquer pessoa que pedisse ajuda. Mas não era seu hábito ficar por ai oferecendo ajuda a todos.

2

Ajuda era o que Eytan mais precisava nesse momento. A jovem de vestido preto certamente não estava oferecendo isso, e pior, ainda pedia por sua ajuda também. Ele não estava realmente interessado nos problemas dela com Richard ou etc., queria mesmo sair daquele local. Não, isso era falsidade. Ele queria ajudar. Ele queria muito ver um sorriso verdadeiro naquela jovem que tinha se esforçado tanto para seduzi-lo. Esse era o problema com Eytan, ele se sentia muito dividido as vezes. E sempre que isso acontecia e ele precisava tomar uma decisão, ele escolhia a pior das opções. E nesse caso parecia bem óbvio qual era a pior delas: “Ajudar a Atriz Pornô”. Aquela garota não valia metade do vestido preto e extremamente sensual que estava usando, tinha certeza disso desde quando a avistou no balcão. Mas simplesmente negar que seu pedido de ajuda tinha alguma coisa verdadeira, seria mentir para si mesmo. Mesmo assim, ajudar ela parecia que daria problemas, e abandoná-la não seria algo que estava sequer sendo cogitado como uma realidade.
Richard pareceu uma pessoa interessante. Ainda que Eytan estivesse um pouco assustado com o seu olhar em direção a janela do quarto da garota, pensou em falar com aquele jovem “Forte de mais para alguém que é inofensivo”. Eytan gostava de tirar suas próprias conclusões a respeito das pessoas. E Julia não gostaria de saber disso.

3

Deric segurou uma rocha com a mão direita examinando o que estava abaixo dela.  Ali estava, a salvo como sempre. Não sabia por quanto tempo poderia esconder aquilo dos Escorpiões Vermelhos, mas sabia que tinha que tentar. Ao menos por enquanto. Levantou e viu que o sol estava desejando uma boa noite a ele. Respondeu com um cumprimento encostando o indicador em seu chapéu. Então voltou a trilhar seu caminho. Agora, voltando para a pousada.

4

Eytan saiu de seu quarto quando começou a ouvir passos por toda pensão. Claramente alguma coisa estava acontecendo. Percebeu que alguns dos hóspedes estavam descendo para o jantar. Aquilo lembrou um pouco sua casa, quando era mais novo a família jantava toda junta, mesmo que houvesse qualquer discussão entre ele e sua irmã. Sim, sua irmã ainda precisava dele. De certa forma, ele não podia perder tempo naquele fim de mundo.


Desceu as escadas carregando apenas um sorriso e se espantou ao ver uma mesa larga colocada na área da recepção apenas para o jantar. Distribuindo pratos silenciosamente estavam a recepcionista e o homem que a “Mecha Displicente” dissera se chamar Richard. Por um momento não soube direito o que fazer, então resolveu falar com algum dos outros hóspedes que ali se encontravam. Alem de ele e da garota que ele não sabia que se chamava Julia, não seriam mais do que três, e ela ainda não estava ali. Um deles parecia um pouco inquieto, portanto Eytan decidiu não começar conversando com aquele. Olhou para um homem um pouco mais velho, talvez uns quarenta anos, e decidiu dizer oi.

- Boa noite, senhor.
- Uma noite agradável para você, meu jovem - respondeu o homem.
- Para o senhor, também. Meu nome é Eytan, meu carro estragou durante a viagem enquanto cruzava essa estrada hoje mesmo. Triste essa vida não é mesmo?

- De fato, meu jovem. - respondeu ele olhando para a mesa sendo posta - mas me responda uma coisa, se não for muito abuso da minha parte, onde está exatamente seu carro agora?
- Na estrada - respondeu Eytan e viu que a sobrancelha esquerda do senhor que não tinha ainda se apresentado levantou um pouco mais que a direita. - Algum problema, eu o deixei trancado e tudo, além disso, já pedi para guincharem meu carro pelo meu celular, antes mesmo de chegar aqui.
- Acho que você ainda é muito ingênuo, mas não havia nada a ser feito mesmo. Rezo para que seja diferente com você, mas nenhum carro é encontrado por guincho algum aqui, apenas evidências de que talvez algum dia um carro esteve ali.
- Como assim?
- Essa pousada carrega uma história muito triste, jovem. E como se não bastasse, ainda há problemas entre as pessoas que aqui habitam e algumas que pelo deserto andam.
- Eu não entendo, o que o senhor quer dizer?
- Quero dizer que seu carro não vai ser encontrado, e que talvez você fique preso por aqui por algum tempo, até que talvez alguém com mais sorte que você venha lhe buscar.
- E isso seria culpa de quem - disse Eytan e agora ele percebeu que estava elevando seu tom de voz, e que a mesa inteira estava posta, servida e ouvindo a conversa dele.
- São os Escorpiões - disse um homem subindo as escadas da entrada e indo até um canto da li puxando uma porta de madeira completamente solta e caída e a colocando na entrada como uma espécie de barragem. - Durma aqui hoje e certamente você vai entender.

Por fim, esse homem que usava um chapéu e um sobretudo por cima de suas roupas, retirou o chapéu e se sentou a mesa. Não olhou para lugar algum, apenas para a comida. E ali se concentrou enquanto Eytan começou a se dirigir a sua cadeira. Olhou para a escada e viu que a moça do vestido preto ainda não havia decido. E começou a se questionar “O que ela estaria fazendo?”. Apenas no dia seguinte ele lembraria que ela havia pedido a ele para passar em seu quarto antes de jantar.

Eytan pediu licença em voz baixa e se sentou. Ao seu lado, o senhor com quem falava sentou-se também. Uma velha estava na ponta de uma mesa, e apresentava uma expressão triste. De tempos e tempos olhava para a porta, como se a qualquer momento esperasse que ela fosse abaixo. Ao lado dela, a jovem recepcionista continuava sua tarefa servindo pratos, pois era mais próxima daquela panela com sopa que estava por cima da mesa. Richard apenas a observava, em silêncio, enquanto ao lado dele aquele homem que parecia nervoso devorava seu prato de sopa com toda velocidade fazendo um barulho irritante de tanto bater a colher no prato.

A mesa permaneceu quieta por todo o jantar, mesmo que Eytan estivesse com muita vontade de perguntar ele simplesmente guardou para si. Richard talvez fosse um mecânico razoável, mas pedir para ele sair naquela noite para tentar arrumar seu carro seria um completo abuso. E mesmo assim, aquela garota tinha lhe advertido que ele não era exatamente bonzinho. “Ele me fez mal”, ela dissera. Certamente se encaixava com o perfil, mas ninguém ali parecia realmente incomodado com a presença dele. Talvez o homem que terminava agora sua sopa, mas não parecia que Richard era a razão daquele pavor. No fim, seria melhor esperar por um retorno do guincho em seu celular, mas amanhã ele tentaria negociar com o loirão um conserto para tentar sair dali mais cedo, e levar a moça com ele.

Com esse pensamento aliviando sua consciência, Eytan foi capaz de terminar sua sopa. Começou a subir, sem notar o olhar de Deric nas usas costas. Quando fechou a porta de seu quarto, Richard dirigiu seu olhar a Deric, que recolocava seu chapéu, enquanto Lindsay começou a recolher a mesa.

- Richard, sei o que está pensando, mas hoje pouparemos o ruivo. Os Escorpiões estão vindo e precisamos nos preparar, não estou interessado em meter um novato que podemos usar mais tarde e acabar perdendo ele agora.

Richard apenas assentiu em silêncio, enquanto foi para trás do balcão buscar sua espingarda. Deric sorriu brevemente, algo muito raro de ser visto, e que talvez só ocorresse em situações de extremo perigo. Sacou seu revolver e lançou um olhar de repreensão para Lindsay e a velha. As duas entenderam o que aquilo significava. Se perguntavam se Eytan também perceberia, quando o barulho começasse.

5

Julia esperou por muito tempo por Eytan em seu quarto. Ficou tarde, mas ela escolheu não tomar atitudes. Homens têm um senso de ego frágil. De certa forma o ego de um homem é como seus testículos. Se você o acariciar, ele se sentirá bem, ficará confiante e lhe dará tudo de si. Se você o pressionar, ele vai se sentir mal, sentira uma dor imparável e ficará deprimido por não poder fazer nada. Com isso em mente, ela resolveu acariciar o ego de Eytan, Richard não era alguém realmente ruim, mas um jovem bonzinho como aquele acabaria perdido e tentando ajudar todos naquela pensão. Era importante que ele não tivesse muito contado com ninguém naquele local. A única pessoa que precisava de cuidados ali era ela.

6

Eytan chegou ao seu quarto muito cansado para pensar em qualquer coisa. Retirou seu celular do bolso e notou que não tinha nenhuma mensagem nova, nenhuma ligação perdida e nenhuma esperança de receber alguma coisa tão cedo. Suspirou em voz baixa e começou a se dirigir para a cama sem nem pensar muito se desejava dormir, apenas seguindo um impulso de “estou cansado, quero ao menos deitar”. Contudo um impulso ainda maior o fez levantar quando ouviu o claro som de um tiro sendo disparado. Aquela noite ainda estava longe de acabar para ele.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Capítulo 3 - Um Estouro no Silêncio

1

Eytan entrou e varreu com os olhos aquele quarto. O longo corredor do segundo andar que separava seus quartos um do outro, portas frente a frente, lhe deu a impressão de que realmente estava saindo de sua zona de conforto. Eytan não pensou que, em tão pouco tempo, poderia sentir falta de algo- muito menos do arremedo de barraca que agora chamava 'meu quarto'.

Era como se não estivesse mais no mesmo mundo. O quarto de Julia era tudo que o seu não era: bonito, aconchegante e sobretudo, com teto. Achou também mais espaçoso... muito embora em algum lugar Eytan tivesse a impressão de que na verdade todos os quartos eram de mesmo tamanho. Ignorou essa impressão e se voltou à moça que tão desagradavelmente o trouxe até ali, destruindo todos seus planos de uma refeição luxuosa no seu verdadeiro quarto. No quarto que era seu por direito.

"Olha, eu... deixei meu lanche no meu quarto." Exclamou Eytan de forma nervosa. O olhar de reprimenda que ele recebeu em troca foi tão violento quanto ele poderia esperar. Desviou o olhar e continuou: "Eu acho melhor eu voltar.".

"Espera, por favor!" pediu Julia, pela primeira vez elevando o tom da voz, e perdendo um pouco daquela postura de atriz pornô que já estava dando nos nervos do rapaz. Eytan não pareceu muito comovido com o pedido, e já ia saindo. Julia rapidamente pegou suas mãos entre as delas. Ele imediatamente voltou os olhos a ela.
"Talvez nós tenhamos começado com o pé esquerdo.", ela concluiu, pela primeira vez parecendo alguém com um mínimo de humildade aos olhos de Eytan. Pediu a ele que se sentasse na cama, e assim ele o fez, mais assustado que relutante.

2

Julia não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Não fosse sua rápida mudança de planos, e tivesse ela continuado com seus joguinhos de salto alto, provavelmente a essa altura teria perdido qualquer chance de contato com aquele infeliz. Agradeceu aos seus reflexos e seus anos de prática na antiquíssima arte de bancar a boa moça, e continuou seu plano B: saída de emergência.

"A verdade é que eu preciso da sua ajuda." Revelou ela.
Eytan a fitou, perplexo. Afinal, o que diabos estava acontecendo ali? Hoje realmente não podia ser seu dia de sorte. Estava exausto, não tinha uma boa noite de sono há semanas, e parecia trazer mais problemas na mala do que qualquer coisa da qual pudesse fazer bom uso. Pensou nisso, enquanto colocava a mão no bolso da calça a fim de verificar se não tinha perdido nada importante. Felizmente, ainda estava lá.

Julia levantou-se e atravessou o quarto, trazendo Eytan consigo pela mão. Qualquer um poderia ver que ele não estava muito acostumado a segurar a mão de uma mulher, ainda menos de uma tão bonita quanto ela, Julia refletiu. Deixou escapar um sorriso prepotente que passou despercebido pelo atônito rapaz, logo antes de apontar pela janela alguma espécie de galpão de madeira um pouco afastado dos fundos da pousada.

"Vê aquele homem?" Disse ela, apontando para um loiro de porte médio que parecia estar realizando algum tipo de trabalho em madeira, na entrada do galpão.
"Ele é o filho da dona da pousada. Se chama Richard.", adicionou.
"...e daí?" Eytan indagou, sem saber se foi rude ou se realmente conseguiu fingir que não se importava.
"...Richard... é um homem violento.".

Eytan forçou a vista por um segundo. Com toda sua excelência em conhecimentos gerais, concluiu que o homem deveria estar trabalhando em uma cadeira de madeira, ou algo do tipo. Observou atentamente o homem: era razoavelmente alto e forte, de cabelo curto bem liso, loiro, penteado para trás. Barba impecavelmente bem feita. Realmente, não lhe pareceu nem um pouco 'violento'.

Subitamente, o homem lhe devolveu o olhar, diretamente nos olhos, como se Eytan fosse a única coisa a ser vista num raio de centenas de quilômetros, um estouro no silêncio.
Eytan se abaixou instintivamente a fim de evitar aquele olhar.

3

"Acho que ele me viu.", informou, mas não obteve resposta. "...Moça?".
Virou-se para encontrar Julia encolhida sobre a cama.
"Richard... ele me faz mal.", balbuciou ela, quase que inaudível.

Ela estava chorando.

Eytan não sabia o que fazer. Não era a primeira vez que era colocado em uma situação de responsabilidade e senso de dever, tampouco a primeira vez que falhara. Mas dessa vez, mais do que qualquer outra, ele sentiu que talvez ele ainda pudesse fazer algo. Só não sabia o quê.

"Como disse que se chama mesmo?", perguntou Julia, sem se levantar da cama.
"...Eytan.", respondeu.
"Eu preciso que você me tire daqui, Eytan. E tem que ser agora." Suplicou a moça. "Você tem um carro, não tem?".
"O carro!", lembrou ele, com um susto. "Eu preciso de um mecânico e de um carro emprestado."

O infeliz não tinha carro. Não poderia tirar ela daquele inferno.

"Esqueça. O único por aqui que entende de carros é Richard, e ele não deixa ninguém tocar na sua caminhonete.", disse ela asperamente.

"Droga.", reclamou Eytan, cansado. "Preciso sair e encontrar alguém que possa ajudar.".
"Agora é tarde. Logo vai anoitecer.", disse a moça. Realmente, o céu já começava a tender para o alaranjado. O calor absurdo não deixou Eytan perceber isso antes, mas a noite estava a caminho.
"É melhor você trocar essa regata por algo um pouco mais fechado. Logo vai ficar bem frio.", adicionou ela.
"Eu sei disso", retrucou Eytan, embora até aquele dia acreditasse fortemente que os desertos eram tão quentes de noite quanto eram de dia. Como nos desenhos animados.

"Eu vou me trocar também, então é melhor você voltar pro seu quarto.", disse ela, monótona.
"A pousada oferece jantar para os clientes todas as noites, então desça mais tarde se estiver com fome.", completou. Ele não tinha carro, mas talvez ainda tivesse uma utilidade. Talvez.

Eytan voltou para seu quarto e se deitou, os braços cobrindo os olhos. Precisava encontrar alguma forma de ajudá-la, precisava salvá-la. Não conseguia parar de pensar na conversa com Julia, e na última frase que ela lhe disse:
"Se você descer para jantar, me procure o quanto antes, e volte para seu quarto assim que estiver terminado.
De noite, coisas estranhas acontecem aqui.".

Lembrou também que não havia perguntado o nome dela.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Capítulo 2 – “Malditas mulheres”
1
Se estivesse em casa, ela saberia perfeitamente o que vestir, mas neste caso serve um vestido preto curtíssimo. Volta ao espelho, ajeita o vestido, bagunça um pouco o cabelo. Tudo é sempre casual. Era realmente bonita demais para aquele lugar; o que só favorecia seus planos.
Pôs seu melhor sorriso e caminhou lentamente até o hall - se é que a precariedade permite que se chame assim – da pousada, com cara de quem acaba de acordar. Sentou-se num dos degraus da entrada. Uma mecha de cabelo displicente sobre a nuca foi o que chamou a atenção de Eytan.
De todo o conjunto de pernas, seios e lábios, apenas a mecha de cabelo. Eytan odiava as mulheres que não mantinham nada de ingênuo. Nada de infantil. Tudo era tão pensado para ser provocante, que provocava... asco.
“Eu gostaria de um quarto. Há algum disponível?” – disse Eytan. Era simplesmente óbvio que não havia mais de cinco pessoas ali; incluindo a recepcionista. Embora, “Vou ver a disponibilidade. Só um momento, senhor” foi a resposta que ele recebeu.
“Seja bem-vindo, eu acho”, disse Julia com a voz mais sexy que possuía e um sorriso mais doce que um pacote de Butterscotches. Foi andando até ele vagarosamente e mantendo aquele sorriso, deu-lhe um aperto de mão e sentou-se no balcão da recepção.
Até que ela não era tão repugnante. Uma pessoa capaz daquele sorriso não pode ser repugnante, mas por outro lado, uma mulher que se exibe no balcão não merece respeito. Nenhum.
2
Finalmente, depois de mais de vinte minutos folheando agendas em branco, a recepcionista o chama para dirigir-se ao quarto. A cada passo dado, aquela pousada parecia pior. Talvez o buraco de quase um metro de extensão no meio do corredor tenha ajudado um pouco nesta impressão. Talvez.
O quarto parecia bom. A janela não abria, o banheiro estava interditado, havia um buraco na parede atrás da cômoda, a cama era estranhamente curta e estreita – mesmo para ele que não tinha muito mais que 1,70m e 60kg –, o telhado sobre a cama tinha grandes frestas que tornavam impossível habitar o recinto durante o dia, mas nada, absolutamente nada, era tão terrível quando o calor escaldante do quarto.
Se tinha algum conhecimento que ele adquirira desde que seu carro estragou é que quentes – e grandes – eram os desertos. Nem tudo estava perdido; pelo menos a geografia sairia melhor desta.
Depois de intermináveis vinte segundos dentro do quarto, ele decidiu-se por perguntar à recepcionista se não havia outros quartos.
“Estão todos reservados, senhor. Nossas instalações não estão à altura?”, disse a recepcionista. No que a única resposta possível é “Amm... de forma alguma. São ótimas.”.
Aquilo já era demais. Decidiu ir comer algo na “cantina” da pousada.
3
“É melhor que você não espere comer bem por aqui”, disse Julia com o mesmo sorriso doce. E ela realmente estava certa. A comida era simplesmente horrível. Foi o pior sanduíche de toda a história; digno de condecoração.
“Ainda tenho Pringles na mala. Estás com fome?”, convidou Eytan, meio sem saber o porquê, mas quase intimando. Julia nem respondeu, apenas levantou e foi andando em direção aos quartos, lépida. Por mais que continuasse com o vestido preto, o sorriso, a reação infantil e a mecha de cabelo negro ondulando sobre a nuca alabastra fizeram Eytan suspirar. “Malditas mulheres!”.
Eytan entrou no quarto para pegar o que seria a melhor refeição por ali e Julia entrou junto com ele. Sentaram por dois minutos na cama desconfortável e Julia o convidou para ir até o quarto dela, que pelo menos não tinha o sol queimando a cabeceira de cama; e todo o mais que passasse perto.
Ele hesitou, ficou confuso. Quando levou a mão ao cabelo para tirar uma mecha que estava lhe machucando o olho percebeu que sua mão estava suando, escorrendo. Julia tinha um plano e ela não podia deixar que a falta de confiança de sua vítima estragasse tudo; pegou-o pela mão e arrastou-o até seu quarto.
Sentiu um certo alívio, dado que o quarto era mais arejado, mas essa sensação não era nada perto do pavor e do medo do que aconteceria a partir dali. Era a primeira vez que qualquer coisa sequer perto disso acontecia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um Conto Ainda Sem Nome



Capítulo 1 - A pousada.

1

Eytan nunca foi um mestre em geografia. Por essa razão, quando finalmente seu carro decidiu parar de fazer sons estranhos e expelir fumaça para finalmente apagar de vez, sua primeira reação ao ver que estava preso em uma região desértica dos Estados Unidos foi dizer “Ferrou”. Isso há muitas horas atrás, e sua maior esperança era encontrar algum tipo de pousada encardida para pensar em como sair daquele lugar. O pior de tudo: essa viagem nem era em benefício próprio. Seria mais adequado dizer que era para ajudar alguém. E agora ele mesmo precisava de ajuda.

O que Eytan nunca iria descobrir, era que se a pousada, que agora avistava, não existisse, ele morreria em breve por desidratação. Em sua mente, contudo, ele tinha certeza que aquela pousada estaria lá. Mesmo que no final desse mesmo dia ele desejasse não ter encontrado aquele local.

Tentou apressar seu passo, sorrindo brevemente ao ver aquela formação diante do vasto horizonte desértico, mas logo percebeu que estava muito exausto para isso. Percebeu também que a fome estava terrível. E principalmente: percebeu que sede é a pior coisa que pode acontecer ao ser humano. Já havia usado o pouco de suprimentos que tinha, então seu desejo por água era completamente justificável. Ainda pensando sobre como chegaria na pousada, começou a se perguntar se estaria vazia. Caso não estivesse, quem estaria lá?

2

Julia estava deitada em seu quarto na pousada. Havia acordado há não muito tempo, mas não tinha nenhuma pretensão de se levantar. Apenas permanecia no mesmo lugar em que despertara, com a diferença de nesse momento estar segurando um livro enquanto ficava balançando suas pernas ao ar de bruços na cama. Assim ficou por um tempo, lendo aquele romance em que a maioria das garotas acreditavam, mas para ela parecia algo mais distante que a ficção científica mais estúpida do mundo. Mesmo assim ela continuava a ler. Não necessariamente por que estivesse interessada. Não por estar desejando acreditar naquilo. Apenas para ter conhecimento de alguma coisa da cultura atual. Julia não era uma garota qualquer, ela carregava uma certa capacidade de ser hipócrita e falsa que era capaz de surpreender até mesmo sua própria mãe. Mas isso era bom. Ser hipócrita sempre é bom. E ela, embora nunca admitisse, se orgulhava de ser falsa.

Cansada de ver a protagonista não conseguir decidir qual par romântico daquele mundo literário estúpido ela deveria casar, foi em direção ao espelho. Embora naquela porcaria encardida não tivesse nada de luxo, havia ao menos um espelho relativamente grande, o suficiente para ver seu corpo inteiro. Arrumou brevemente seu cabelo escuro e liso, prendendo em forma de um coque. Uma beleza incrível, mas ainda assim presa em um lugar estúpido como aquele. A culpa era completamente dela, fora largada lá por um homem que ela havia traído, contudo ela nunca suspeitou que ele soubesse. Em uma tarde, saindo para uma viagem de férias, ela foi simplesmente abandonada por ele naquele lixo de pousada. Com poucos pertences, e muito pouco dinheiro, ela tem apenas esperado, afinal todos que estão naquele lugar podem apenas esperar. Desviando o olhar do próprio rosto no espelho, resolveu olhar um pouco aquele bendito deserto que se encontrava. Antes de conseguir exclamar qualquer coisa, viu alguem que não conhecia se aproximando. Primeiro era um vulto. Não era exatamente alto, e era um pouco magro. Conforme foi se aproximando percebeu primeiro seu cabelo ruivo até  os ombros. Sim, mesmo ela percebeu primeiro os cabelos daquele homem antes de perceber a camiseta regata que ele usava. “Tentando ganhar um bronzeado, garotão?” pensou consigo mesma. Bom, de algum lugar esse cretino veio, e para algum lugar vai. Talvez seja a melhor oportunidade para ela sair daquele fim de mundo que se encontrava, pois o seu dinheiro estava no fim, e em breve teria que começar a pensar em alguma forma de “agradar” o jovem filho da dona da pensão, ou acabaria sendo expulsa do próprio inferno.

Resolveu colocar sua melhor roupa e descer para causar alguma primeira impressão amigável naquele idiota que vinha para a pousada. Dessa vez seria um pouco mais cuidadosa do que fora com o último, e daria um jeito de sair junto com o infeliz, caso fosse possível. Seria interessante pelo menos voltar para sua casa. Não que houvesse alguém esperando por ela. Apenas queria sua casa de volta. Ali, naquele fim de mundo, ela não era alguém. Em sua casa ela era Julia Sperling senhora de tudo, e uma golpista razoável.

3

Chegando perto da pousada, Eytan viu que aquele lugar era muito pior do que esperava. “É isso que acontece quando se tenta ajudar alguém. Malditas mulheres!”. Sim, de fato. Ele estava nessa viagem por culpa de uma mulher. E agora estava preso nessa porcaria de lugar e nem fazia ideia de como sair.


Observou com calma o local onde se dirigia. Viu a estrutura mal feita de madeira. “Sim, madeira. Ótimo para resistir ao calor, não é mesmo? Aposto que essa porcaria tem milhares de furos e quando chove...” em seguida começou a rir de si mesmo. Chuva? No deserto seria uma dádiva se aquilo ocorresse com frequência. Olhou para a placa dizendo “Pousada Implacável” e pensou onde aquilo seria implacável. Certamente não era na apresentação. A placa em que estava escrito o nome da pousada estava precária. As letras eram pintadas com um azul tosco, que estava tão desbotado que em alguns meses provavelmente não seria possível ler aquilo. O mais assustador, contudo, era a ausência de carros naquele lugar. Isso deixou Eytan realmente preocupado. Mesmo assim, ele fez seu melhor para criar um sorriso amigável ao subir os poucos degraus da entrada da pousada e entrar naquele local que nem uma porta tinha na entrada.