Capítulo 7
Aquele que Martela
"Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas."
Por algum tempo essas palavras ficaram na cabeça de Lore, e dessa forma naquela noite chuvosa, sem conseguir dormir ela lembrou de seu encontro com o famoso General Julius Longo.
***
Aquela manhã, que não estava tão distante em dias, parecia uma outra época. A guerra tem esse poder: estende os dias e as horas, mantendo aqueles com que você se importa afastados e sempre deixando a suspeita de que talvez, afastados para sempre.
O General Julius, sentado atrás de sua escrivania estava completamente absorvido em pensamentos. Ainda recebia comunicações de outros generais, portugueses ou até mesmo ingleses que julgavam uma péssima decisão entrar em guerra. A Alemanha enviava propostas e acordos com alguma frequência mas não havia um momento que Julius havia duvidado dessa decisão.
Contudo, há muito ele já estava frustrado e duvidando de seu exército. Ah, os velhos e bons tempos. No passado o próprio general teria estado na frente do exército, dando a cara a bala, tomando fortes, cidades no grito, na força. Agora ele era obrigado a ter outras responsabilidades, calcular, pensar a frente, adivinhar. Mas não adianta adivinhar se quem executa as ordens não é competente. Qual a utilidade de um martelo macio que não pode pregar?
Estava tão distraído que demorou algum tempo para ouvir a mulher na sua porta.
- ...se o senhor estiver ocupado eu posso voltar mais tarde... - dizia ela.
Ele parou algum tempo para observar aquela mulher. O governo como uma medida para manter a população sob controle promoveu pequenos cargos dentro do exército para civis. Esses cargos simples, como limpeza, atraiam algumas pessoas que não entendiam muito bem como funcionava a hierarquia do exército, o que quebrava muito da atmosfera do local. Essa mulher estava ali agora muito provavelmente porque o marido dela estava entre as incompetentes tropas portuguesas e ela não teria como se sustentar sozinha. E claramente era responsabilidade do exército ter que lidar com tudo isso.
Julius sorriu brevemente com o sarcasmo de seus pensamentos, mas respondeu em bom tom para a mulher.
- Não, agora está ótimo.
Uma das razões pela qual Julius se destacara tanto era sua capacidade de observação. Mesmo sob pressão ele conseguia ver tudo que precisava e tomar a decisão mais adequada, e era um soldado absolutamente competente. O problema dessa guerra, é que ele não estava vendo tudo.
Enquanto a mulher entrava Julius reservou algum tempo para julgar a garota. O cabelo dela, escuro, estava relativamente mal cuidado, supondo que sempre queremos apresentar nosso melhor para os outros, ela devia então apresentar algum problema na sua renda. Julgando que estava ali trabalhando para o exército ela tem algum tipo de relação com alguém na guerra. Em geral, os soldados decidem que seu soldo deve ser entregue diretamente para sua família, o exército não é um banco, portanto guardar o dinheiro não era uma opção. Com o dinheiro do soldo e mais o desse "emprego" no exército ela certamente conseguiria se cuidar o suficiente para que sua aparência não ficasse desgastada. Assim sendo ou ela estava muito deprimida para se cuidar, ou ela estava com problemas financeiros. Enquanto a mulher entrava (aparentava estar se aproximando dos trinta anos) ele pode ver dureza em seu olhar. Ela devia ter um filho e seu marido estava na guerra, essa era a conclusão mais lógica.
- Saiba que estamos fazendo o melhor pelo seu esposo, tenho certeza de que ele voltara para casa.
Por um breve instante a mulher parou surpresa enquanto se dirigia a um dos cantos para tirar a poeira.
- Obrigada.
Julius se sentiu satisfeito ao perceber que havia deduzido corretamente tanta coisa apenas a partir de seu cabelo e voltou sua atenção para as mensagens de seus capitães e de um de seus espiões. "Se todos fossem competentes como Viriato...".
Lore permaneceu quieta realizando sua função ali na sala e não voltaram a ter nenhum diálogo.
***
Naquele dia, estava realmente ansiosa para conhecer o general, e naquele dia em especial ela realmente não julgou a atitude dele como egocêntrica, mas agora deitada tentando arranjar culpados para a morte de seu marido, Julius era o assassino. E assassinos merecem só um destino.