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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Capítulo 7 - Aquele que Martela

Capítulo 7

Aquele que Martela



"Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas."


Por algum tempo essas palavras ficaram na cabeça de Lore, e dessa forma naquela noite chuvosa, sem conseguir dormir ela lembrou de seu encontro com o famoso General Julius Longo.

***

Aquela manhã, que não estava tão distante em dias, parecia uma outra época. A guerra tem esse poder: estende os dias e as horas, mantendo aqueles com que você se importa afastados e sempre deixando a suspeita de que talvez, afastados para sempre.

O General Julius, sentado atrás de sua escrivania estava completamente absorvido em pensamentos. Ainda recebia comunicações de outros generais, portugueses ou até mesmo ingleses que julgavam uma péssima decisão entrar em guerra. A Alemanha enviava propostas e acordos com alguma frequência mas não havia um momento que Julius havia duvidado dessa decisão.

 Contudo, há muito ele já estava frustrado e duvidando de seu exército. Ah, os velhos e bons tempos. No passado o próprio general teria estado na frente do exército, dando a cara a bala, tomando fortes, cidades no grito, na força. Agora ele era obrigado a ter outras responsabilidades, calcular, pensar a frente, adivinhar. Mas não adianta adivinhar se quem executa as ordens não é competente. Qual a utilidade de um martelo macio que não pode pregar?

Estava tão distraído que demorou algum tempo para ouvir a mulher na sua porta.

- ...se o senhor estiver ocupado eu posso voltar mais tarde... - dizia ela.

Ele parou algum tempo para observar aquela mulher. O governo como uma medida para manter a população sob controle promoveu pequenos cargos dentro do exército para civis. Esses cargos simples, como limpeza, atraiam algumas pessoas que não entendiam muito bem como funcionava a hierarquia do exército, o que quebrava muito da atmosfera do local. Essa mulher estava ali agora muito provavelmente porque o marido dela estava entre as incompetentes tropas portuguesas e ela não teria como se sustentar sozinha. E claramente era responsabilidade do exército ter que lidar com tudo isso.

Julius sorriu brevemente com o sarcasmo de seus pensamentos, mas respondeu em bom tom para a mulher.

- Não, agora está ótimo.

Uma das razões pela qual Julius se destacara tanto era sua capacidade de observação. Mesmo sob pressão ele conseguia ver tudo que precisava e tomar a decisão mais adequada, e era um soldado absolutamente competente. O problema dessa guerra, é que ele não estava vendo tudo.

Enquanto a mulher entrava Julius reservou algum tempo para julgar a garota. O cabelo dela, escuro, estava relativamente mal cuidado, supondo que sempre queremos apresentar nosso melhor para os outros, ela devia então apresentar algum problema na sua renda. Julgando que estava ali trabalhando para o exército ela tem algum tipo de relação com alguém na guerra. Em geral, os soldados decidem que seu soldo deve ser entregue diretamente para sua família, o exército não é um banco, portanto guardar o dinheiro não era uma opção. Com o dinheiro do soldo e mais o desse "emprego" no exército ela certamente conseguiria se cuidar o suficiente para que sua aparência não ficasse desgastada. Assim sendo ou ela estava muito deprimida para se cuidar, ou ela estava com problemas financeiros. Enquanto a mulher entrava (aparentava estar se aproximando dos trinta anos) ele pode ver dureza em seu olhar. Ela devia ter um filho e seu marido estava na guerra, essa era a conclusão mais lógica.

- Saiba que estamos fazendo o melhor pelo seu esposo, tenho certeza de que ele voltara para casa.

Por um breve instante a mulher parou surpresa enquanto se dirigia a um dos cantos para tirar a poeira.

- Obrigada.

Julius se sentiu satisfeito ao perceber que havia deduzido corretamente tanta coisa apenas a partir de seu cabelo e voltou sua atenção para as mensagens de seus capitães e de um de seus espiões. "Se todos fossem competentes como  Viriato...".

Lore permaneceu quieta realizando sua função ali na sala e não voltaram a ter nenhum diálogo.

***

Naquele dia, estava realmente ansiosa para conhecer o general, e naquele dia em especial ela realmente não julgou a atitude dele como egocêntrica, mas agora deitada tentando arranjar culpados para a morte de seu marido, Julius era o assassino. E assassinos merecem só um destino.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Capítulo 6 - Estes Olhos que Vestem Preto

Capítulo 6

Estes Olhos que Vestem Preto


A noite já caía quando o cabo Montes fez uma última saudação, já do lado de fora, a porta da casa fechada. Desde que fora designado a esse cargo, já havia entregado esta mensagem a dezenas de viúvas, e nem por uma vez se provou menos árdua a tarefa. Enquanto declarara o comunicado formal, engolia em seco, lembrando a si mesmo que havia prometido nunca deixar escapar um 'desculpa' perante a família desgraçada. Mas naquele momento, no entanto, na companhia apenas da calçada e de sua própria vergonha, Montes pediu desculpas.

E ali permaneceu, como já não era incomum a ele quando a noite caía, a pensar sobre aqueles que já não mais tornaria a ver. Parentes com os quais não teria mais reuniões de final-de-semana desgastantes. Amigos que não lhe dariam nova oportunidade de discordar. Irmãos cuja memória de brigas já não causava dor. Montes pediu desculpas mais uma vez, e seguiu seu caminho.

***

O sol lançava seus primeiros raios mornos contra a cortina branca da janela. No entanto, o calor da luz fez pouco efeito no rosto da moça. Pela primeira vez desde que se podia lembrar (quanto tempo fazia, mesmo?), Lore não tivera um sonho ruim. Seus pensamentos acordados foram horríveis o bastante.

Augusto dormia o sono dos inocentes. Havia dormido como um anjo a noite inteira, mas ainda assim Lore nunca deixou a cadeira, ao lado do berço. Não poderia, nem que quisesse. Enquanto o observava dormir, com olhos vazios, Lore tentara se convencer de que tudo não passava de mais um pesadelo. Falhara.

***

Nos dias que seguiram, embora Lore não tornasse a falar do assunto, quem quer que a conhecesse bem era capaz de perceber no olhar perdido da moça. Sabiam que a moça que viajava ao coche pela manhã e escolhia legumes no armazém pela tarde estava ali em corpo apenas; a alma havia ido para a guerra, e não mais voltara.

Não tardou muito para que Pietro ouvisse do ocorrido. Era tarde de domingo, e sabia que a encontraria na feira. Correu até lá, mas logo que a viu, parou de supetão. E não parara apenas porque a vira; parara porque percebera que ele mesmo sorria.

Era um sorriso muito leve, mas ali estava. E Pietro sabia muito bem do que se tratava. Esta era a sua grande chance, o momento pelo qual havia esperado por todos esses anos. Lá estava ela, sozinha, e precisava dele como nunca- talvez quase tanto quanto ele sempre precisara dela. Ah, o quanto precisava dela...

Foi então que seus olhares se cruzaram. E assim que pôs os olhos nos dela, toda a satisfação de Pietro se esvaiu. Havia na moça alguma sorte de má aura, uma atmosfera de derrota tão forte que era como se fosse palpável. Se sentiu terrivelmente culpado. Quis andar até ela, quis dizê-la que estava ao seu lado para o que precisasse, mas não encontrava forças para mover-se ou falar. Deu um passo para trás lentamente, e depois outro, e quando se deu por conta, o olhar daquela moça, tão profundo e frio quanto a própria morte, havia sumido entre a mulditão de pessoas e frutas, carnes e tendas.

***

Na noite que se seguiu, o som da chuva forte no telhado emudecia tudo se não o som da caneta que rabiscava fervorosamente sobre o papel de carta, pela terceira ou quarta vez, na ânsia de se chegar ao fim antes de vê-lo descartado. Lore continuou:

Prezado Daniel Dolores, 
Escrevo esta carta em confidência, a qual espero que honre. É bem verdade que nunca fomos muito próximos, o senhor e eu. Nosso único vínculo sempre foi o grande apreço que o senhor demonstrara por Marco. 
Entretanto, meu dever como esposa me traz perante o senhor por meio desta carta. Esse dever me injeta com a força necessária para questionar, o esforço para buscar entender. Marco era um homem de bem. O que o levou a tamanha desgraça? Por que ninguém veio ao seu socorro? Onde estava o senhor quando seu amigo mais lhe precisou? 
Marco era um homem de família. Deixa para trás mulher e filho. Em branda honestidade, e me perdoe por tanto: antes tivesse sido o senhor.
Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas. 

Na esperança de que sua jornada o leve a melhores caminhos,

Lore de Leon.


Uma vez ou duas, a chuva torrencial quase o encorajou a bater à porta. Mas ali, sozinho em frente à casa da moça, observando a luz trêmula que vinha de dentro, Pietro sentia o frio da verdade. Não havia espaço para ele ao lado dela. Nunca haveria. Pietro pediu desculpas, e seguiu seu caminho.