1
Deric ainda ficou mais um tempo sentado na sua cadeira, o
chapéu cobrindo os olhos. Concentrou-se para ouvir Anthony conversando com
Eytan. Ainda que distante pode ouvir as instruções que o velho senhor passou
para Eytan. Contar histórias... sim,
faziam aquilo faz tempo. Toda noite, uma união daquele grupo estranho fazia os
Escorpiões não alcançarem todo terror que eles tinham potencial. Isso era apenas
uma fase daquele drama todo.
Deric sempre se espantava em ver aquela força que mantinha
todos na pousadas unidos quando os ventos se tornavam insuportáveis no deserto.
Uma preocupação com o próximo e um altruísmo que faria com que qualquer um acreditasse em um
futuro melhor não só para os integrantes da pousada, como também para todo o
mundo. Contudo, com o nascer do Sol, tudo era esquecido. O Sol, que nos torna
capaz de ver o horizonte, capaz de acreditar que podemos manter tudo como está,
e que pode ser exagero o que pensamos nas outras noites. É uma estrela que nos
faz megalomaníacos e de tão incríveis, nos torna individualistas também. “Essas
vidas são o preço de uma descoberta, o custo de uma ambição.” Pensou Deric.
Sim, Deric deixava no deserto - abaixo de uma simples pedra – a maneira de
afastar os escorpiões. Mas ele não a entregaria agora. Ela tinha importância
para muita gente. Principalmente para ele próprio. E foi assim que ele foi capaz
de ignorar a dor de Luis; capaz de esquecer o rosto de Jonathan; capaz de
abandonar o amor de Lucy. O ser humano pode ser forte unido, mas sua principal característica é ser egoísta a ponto de nunca se tornar poderoso.
2
Julia estava em seu quarto, próxima a janela. Suas últimas
decisões com relação à Eytan estavam erradas e movendo o jovem cadê vez mais
para longe dela. Ela precisava reparar isso, alguma coisa podia acontecer a seu
favor e mudar o andar dos fatos.
- Preciso sair, isso sim. – murmurou para si mesma enquanto
se levantava.
Não se arrumou, não se olhou no espelho e não pensou em
falar com Eytan. Apenas foi em direção a sua porta e saiu. Antes de passar
pelas escadas, ouviu um som baixo e animado. Parecia uma música pop conhecida.
Talvez fosse Lady Gaga ou algo do tipo, ela realmente não se lembrava, mesmo
que se esforçasse para usar a parte de sua cultura inútil para tentar encontrar
a origem daquela música. Por fim decidiu procurar de onde emanava aquele som
distorcido e com uma batida extremamente cativante. Percebeu que vinha do
quarto de Eytan. Sorriu para si enquanto pensou “Bem a cara do garotão”.
3
Dita estava aflita ouvindo aquela música absurdamente
repetitiva saindo do celular de Eytan. Desejava que ele entrasse logo no quarto
e acabasse logo com aquele barulho. Ela pensou em atender, mas não saberia como lidar com a
pessoa do outro lado, e não gostaria de estragar um pouco mais a vida de Eytan,
ou mesmo colocar algum tipo de relacionamento dele em perigo. Portanto ficou
apenas encarando o celular tocar. Poderia colocar no silencioso, mas era um
celular cheio de porcarias que Dita não estava acostumada. Logo de início ela
percebia que ele não apresentava sequer um botão. Ao ouvir alguns passos
dissimulados perto da porta ficou um pouco aliviada pesando que Eytan
finalmente houvesse voltado do almoço. Contudo a surpresa lhe cobriu o rosto
quando a porta abriu e Julia entrou no quarto.
4
Eytan já estava cansado do dia que mal tinha passado de sua
metade. “Agora virei um bardo, que interessante...” O dia dele deveria ser
corrido, ele precisava ainda ir em busca de seu carro. Olhou para Anthony que observava
cuidadosamente Eytan e avaliava suas reações. Eytan ainda vacilava pensando que
havia deixado a porta do quarto aberta para “caso algo desse errado” Dita
pudesse sair. Mal sabia ele que já poderia, nesse exato momento, começar a se
arrepender dessa decisão.
5
Lindsay estava passando pelas escadas e viu Julia. Sorriu e
se preparou para cumprimentar a bela jovem quando a mesma entrou no quarto de
Eytan. Lindsay, que acabara de ver Eytan sair com Anthony para a entrada ficou
perplexa olhando aquela cena e se aproximou sorrateira do quarto.
6
Julia tocou na porta e testou a maçaneta meio sem acreditar
que estava abrindo a porta. Ainda meio dançando entrou no quarto, mas seus
embalos rítmicos foram interrompidos no momento que viu Mercedes. Olhou para
ela que lhe devolveu um olhar de surpresa e aos poucos e tornou medo. Julia encostou a porta e voltou a se embalar
no ritmo da música caminhando na direção do celular. Segurou o celular e pressionou a tela com os
dedos fazendo destravar a proteção de tela e atender ao telefone. Esperou pelo
estranho que ligava se apresentar pois não achou uma boa idéia iniciar aquele
diálogo já que o celular não era seu. Depois de muito tempo de silêncio (que na realidade
não durou mais que 5 segundos) ela ouviu uma voz rouca dizer:
- Com quem falo?
Certamente tinha sido uma pergunta, mas Julia acreditou
fortemente que parecia uma ordem. Se no lugar da frase proferida tivesse ouvido
um “Diga seu nome, vadia!” ela não se sentiria surpresa, e acharia que
combinaria melhor com o tom de voz da frase.
- Com quem gostaria de falar?
Julia sabia que provavelmente aquele tipo de resposta não
levaria a lugar algum. Poderia ser simplesmente o homem do guincho dizendo que
seu carro não havia sido encontrado.
- Procuro por Eytan, é um assunto para ser tratado somente
com sua pessoa.
“Hummm que formal... acredito que um velho homem do guincho
não seria tão polido assim para perguntar se fora simplesmente enganado.” pensou
Julia.
- Sinto informar que ele no momento não pode atender – disse
Julia olhando para a porta encostada – Você
está falando com sua noiva Julia, em que posso ajudar?
Ela sabia que dizer “esposa” poderia forçar demais. Esposa
faria essa pessoa pensar que talvez fosse uma mentira, e haveria documentos
para atrapalhar essa farsa. Um noivado seria mais provável, ainda mais para
alguém jovem como Eytan. Além disso, era completamente confiável revelar muitas
coisas para alguém que estava acima de uma namorada, ainda que não fosse uma
esposa.
- Sinto muito, mas prefiro manter o assunto sob sigilo, mas
agradeço a ajuda. Volto a retornar a ligação mais tarde. Passar...
“Mas como é cuidadoso! Melhor agir, não vou deixar isso
passar assim.”
- Sim, muito obrigada. Contudo, gostaria de adverti-lo que
este celular encontra-se no fim de sua carga - uma mentira rápida, mas ela
começou a considerar recolocar aquela música que Eytan usava como toque para
dançar depois de toda aquela conversa no celular. – e talvez não seja capaz de
receber sua próxima ligação. Estamos viajando, e não tenho certeza se
Eytanzinho – “Hahahahaha, eu posso me dar ao luxo de certas brincadeiras com
meu ruivinho” pensou enquanto falava. – trouxe o carregador.
A outra pessoa pareceu considerar por muito tempo. Julia
pensava que já havia cedido informações demais, ainda que todas falsas. Estava
na hora do outro passar alguma coisa para ela. E de fato foi o que ele fez.
- Muito bem então, “Noiva Julia”. Escute bem e seja clara ao
passar as informações que lhe direi para Eytan. Sou conhecido como Ground e sou
aquele que traz à pousada onde vocês estão os Escorpiões. Tenho um pedido para
fazer a Eytan, mas ele pode interpretar como uma ordem, pois as conseqüências de
não aceitar minha requisição destruirá suas esperanças de sair desse fim de
mundo.
Suspirou por um momento do outro lado do telefone, e começou
a falar como se nem mesmo sua morte pudesse interromper sua linha de
pensamento e as palavras proferidas. O tom rouco soou mais grave logo que
começou.
- Recentemente tenho entrado em conflito com vocês por se
negarem a entregar o que é nosso por direito. Sinceramente estou cansado disso
e gostaria de um trato. Sei que Mercedes está por ai com algum de vocês, e sei
que não é culpa de vocês toda essa confusão ocorrendo. Portanto, tenho uma
proposta para fazer: entreguem Mercedes a mim, na noite de hoje. Saiam da casa antes
do último raio de Sol tocar o chão árido do deserto e esperem vocês três na
frente da pousada. Apenas vocês. Entreguem Mercedes e entregaremos o carro.
Fizemos a gentileza de arrumar o veículo, e certamente ele cruzara todo país
sem precisar de reparos. Depende apenas de vocês iniciarem o que pode ser um
acordo de paz para os dois lados. Lembre meu nome, sou Ground aquele que abriga
e comanda os Escorpiões Vermelhos. Se traírem minha confiança e não entregarem
a jovem, trarei a noite mais escura que a pousada já viu.
Julia escutou tudo em
silêncio e por fim olhou para Dita. Apenas um pensamento passou por sua cabeça.
“Perfeito.”
Absurdo. Essa é a palavra para qualificar a demora para escrever e postar esse capítulo. Na verdade, o fato principal desse capítulo já havia ocorrido há muito, durante uma viagem de trem (ideia boa, viagem nem tanto) e apenas tive um absurdo de atividades durante janeiro que me impediram de escrever aquilo que mentalmente estava pronto. Contudo aqui está, e achei incrível como NÃO ficou longo. Pelo menos acho que uma vez em minha vida inteira fui capaz de não me enrolar e escrever os fatos como devem ser escritos (ao contrário do que estou fazendo aqui nesse comentário).
ResponderExcluirDe qualquer forma, acredito que a história já está se fortalecendo bastante e em breve teremos que começar a cobrir os buracos que abrimos para enterrar uns aos outros aqui. Mas por enquanto, que venham outras crateras.