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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Capítulo 7 - Ground


1

Deric ainda ficou mais um tempo sentado na sua cadeira, o chapéu cobrindo os olhos. Concentrou-se para ouvir Anthony conversando com Eytan. Ainda que distante pode ouvir as instruções que o velho senhor passou para Eytan. Contar histórias...  sim, faziam aquilo faz tempo. Toda noite, uma união daquele grupo estranho fazia os Escorpiões não alcançarem todo terror que eles tinham potencial. Isso era apenas uma fase daquele drama todo.

Deric sempre se espantava em ver aquela força que mantinha todos na pousadas unidos quando os ventos se tornavam insuportáveis no deserto. Uma preocupação com o próximo e um altruísmo que faria com que qualquer um acreditasse em um futuro melhor não só para os integrantes da pousada, como também para todo o mundo. Contudo, com o nascer do Sol, tudo era esquecido. O Sol, que nos torna capaz de ver o horizonte, capaz de acreditar que podemos manter tudo como está, e que pode ser exagero o que pensamos nas outras noites. É uma estrela que nos faz megalomaníacos e de tão incríveis, nos torna individualistas também. “Essas vidas são o preço de uma descoberta, o custo de uma ambição.” Pensou Deric. Sim, Deric deixava no deserto - abaixo de uma simples pedra – a maneira de afastar os escorpiões. Mas ele não a entregaria agora. Ela tinha importância para muita gente. Principalmente para ele próprio. E foi assim que ele foi capaz de ignorar a dor de Luis; capaz de esquecer o rosto de Jonathan; capaz de abandonar o amor de Lucy. O ser humano pode ser forte unido, mas sua principal característica é ser egoísta a ponto de nunca se tornar poderoso.

2

Julia estava em seu quarto, próxima a janela. Suas últimas decisões com relação à Eytan estavam erradas e movendo o jovem cadê vez mais para longe dela. Ela precisava reparar isso, alguma coisa podia acontecer a seu favor e mudar o andar dos fatos.

- Preciso sair, isso sim. – murmurou para si mesma enquanto se levantava.

Não se arrumou, não se olhou no espelho e não pensou em falar com Eytan. Apenas foi em direção a sua porta e saiu. Antes de passar pelas escadas, ouviu um som baixo e animado. Parecia uma música pop conhecida. Talvez fosse Lady Gaga ou algo do tipo, ela realmente não se lembrava, mesmo que se esforçasse para usar a parte de sua cultura inútil para tentar encontrar a origem daquela música. Por fim decidiu procurar de onde emanava aquele som distorcido e com uma batida extremamente cativante. Percebeu que vinha do quarto de Eytan. Sorriu para si enquanto pensou “Bem a cara do garotão”.

3

Dita estava aflita ouvindo aquela música absurdamente repetitiva saindo do celular de Eytan. Desejava que ele entrasse logo no quarto e acabasse logo com aquele barulho. Ela pensou em  atender, mas não saberia como lidar com a pessoa do outro lado, e não gostaria de estragar um pouco mais a vida de Eytan, ou mesmo colocar algum tipo de relacionamento dele em perigo. Portanto ficou apenas encarando o celular tocar. Poderia colocar no silencioso, mas era um celular cheio de porcarias que Dita não estava acostumada. Logo de início ela percebia que ele não apresentava sequer um botão. Ao ouvir alguns passos dissimulados perto da porta ficou um pouco aliviada pesando que Eytan finalmente houvesse voltado do almoço. Contudo a surpresa lhe cobriu o rosto quando a porta abriu e Julia entrou no quarto.

4

Eytan já estava cansado do dia que mal tinha passado de sua metade. “Agora virei um bardo, que interessante...” O dia dele deveria ser corrido, ele precisava ainda ir em busca de seu carro. Olhou para Anthony que observava cuidadosamente Eytan e avaliava suas reações. Eytan ainda vacilava pensando que havia deixado a porta do quarto aberta para “caso algo desse errado” Dita pudesse sair. Mal sabia ele que já poderia, nesse exato momento, começar a se arrepender dessa decisão.

5

Lindsay estava passando pelas escadas e viu Julia. Sorriu e se preparou para cumprimentar a bela jovem quando a mesma entrou no quarto de Eytan. Lindsay, que acabara de ver Eytan sair com Anthony para a entrada ficou perplexa olhando aquela cena e se aproximou sorrateira do quarto.

6

Julia tocou na porta e testou a maçaneta meio sem acreditar que estava abrindo a porta. Ainda meio dançando entrou no quarto, mas seus embalos rítmicos foram interrompidos no momento que viu Mercedes. Olhou para ela que lhe devolveu um olhar de surpresa e aos poucos e tornou medo.  Julia encostou a porta e voltou a se embalar no ritmo da música caminhando na direção do celular.  Segurou o celular e pressionou a tela com os dedos fazendo destravar a proteção de tela e atender ao telefone. Esperou pelo estranho que ligava se apresentar pois não achou uma boa idéia iniciar aquele diálogo já que o celular não era seu. Depois  de muito tempo de silêncio (que na realidade não durou mais que 5 segundos) ela ouviu uma voz rouca dizer:

- Com quem falo?

Certamente tinha sido uma pergunta, mas Julia acreditou fortemente que parecia uma ordem. Se no lugar da frase proferida tivesse ouvido um “Diga seu nome, vadia!” ela não se sentiria surpresa, e acharia que combinaria melhor com o tom de voz da frase.

- Com quem gostaria de falar?

Julia sabia que provavelmente aquele tipo de resposta não levaria a lugar algum. Poderia ser simplesmente o homem do guincho dizendo que seu carro não havia sido encontrado.

- Procuro por Eytan, é um assunto para ser tratado somente com sua pessoa.

“Hummm que formal... acredito que um velho homem do guincho não seria tão polido assim para perguntar se fora simplesmente enganado.” pensou Julia.

- Sinto informar que ele no momento não pode atender – disse Julia olhando para a porta encostada  – Você está falando com sua noiva Julia, em que posso ajudar?

Ela sabia que dizer “esposa” poderia forçar demais. Esposa faria essa pessoa pensar que talvez fosse uma mentira, e haveria documentos para atrapalhar essa farsa. Um noivado seria mais provável, ainda mais para alguém jovem como Eytan. Além disso, era completamente confiável revelar muitas coisas para alguém que estava acima de uma namorada, ainda que não fosse uma esposa.

- Sinto muito, mas prefiro manter o assunto sob sigilo, mas agradeço a ajuda. Volto a retornar a ligação mais tarde. Passar...

“Mas como é cuidadoso! Melhor agir, não vou deixar isso passar assim.”

- Sim, muito obrigada. Contudo, gostaria de adverti-lo que este celular encontra-se no fim de sua carga - uma mentira rápida, mas ela começou a considerar recolocar aquela música que Eytan usava como toque para dançar depois de toda aquela conversa no celular. – e talvez não seja capaz de receber sua próxima ligação. Estamos viajando, e não tenho certeza se Eytanzinho – “Hahahahaha, eu posso me dar ao luxo de certas brincadeiras com meu ruivinho” pensou enquanto falava. – trouxe o carregador.

A outra pessoa pareceu considerar por muito tempo. Julia pensava que já havia cedido informações demais, ainda que todas falsas. Estava na hora do outro passar alguma coisa para ela. E de fato foi o que ele fez.

- Muito bem então, “Noiva Julia”. Escute bem e seja clara ao passar as informações que lhe direi para Eytan. Sou conhecido como Ground e sou aquele que traz à pousada onde vocês estão os Escorpiões. Tenho um pedido para fazer a Eytan, mas ele pode interpretar como uma ordem, pois as conseqüências de não aceitar minha requisição destruirá suas esperanças de sair desse fim de mundo.

Suspirou por um momento do outro lado do telefone, e começou a falar como se nem mesmo sua morte pudesse interromper sua linha de pensamento e as palavras proferidas. O tom rouco soou mais grave logo que começou.

- Recentemente tenho entrado em conflito com vocês por se negarem a entregar o que é nosso por direito. Sinceramente estou cansado disso e gostaria de um trato. Sei que Mercedes está por ai com algum de vocês, e sei que não é culpa de vocês toda essa confusão ocorrendo. Portanto, tenho uma proposta para fazer: entreguem Mercedes a mim, na noite de hoje. Saiam da casa antes do último raio de Sol tocar o chão árido do deserto e esperem vocês três na frente da pousada. Apenas vocês. Entreguem Mercedes e entregaremos o carro. Fizemos a gentileza de arrumar o veículo, e certamente ele cruzara todo país sem precisar de reparos. Depende apenas de vocês iniciarem o que pode ser um acordo de paz para os dois lados. Lembre meu nome, sou Ground aquele que abriga e comanda os Escorpiões Vermelhos. Se traírem minha confiança e não entregarem a jovem, trarei a noite mais escura que a pousada já viu.

 Julia escutou tudo em silêncio e por fim olhou para Dita. Apenas um pensamento passou por sua cabeça.

“Perfeito.”

Um comentário:

  1. Absurdo. Essa é a palavra para qualificar a demora para escrever e postar esse capítulo. Na verdade, o fato principal desse capítulo já havia ocorrido há muito, durante uma viagem de trem (ideia boa, viagem nem tanto) e apenas tive um absurdo de atividades durante janeiro que me impediram de escrever aquilo que mentalmente estava pronto. Contudo aqui está, e achei incrível como NÃO ficou longo. Pelo menos acho que uma vez em minha vida inteira fui capaz de não me enrolar e escrever os fatos como devem ser escritos (ao contrário do que estou fazendo aqui nesse comentário).
    De qualquer forma, acredito que a história já está se fortalecendo bastante e em breve teremos que começar a cobrir os buracos que abrimos para enterrar uns aos outros aqui. Mas por enquanto, que venham outras crateras.

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