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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Capítulo 12 - Fria


1

Era primavera mais uma vez. Tinha lá seus dezesseis anos, um excesso de energia e a certeza de que poderia mudar o mundo quando bem entendesse. Dita lhe pegou pelas mãos e juntos correram pelo campo, seguindo as trilhas das poucas flores que forçavam seu caminho pela terra seca.

Enquanto a moça o levava pela mão, respirou fundo. Percebeu: não havia motivos para mudar o mundo. Sim, nada precisava mudar, porque isso era a felicidade. Richard sorriu.

Dita lhe segurou a mão com mais força. "Venha, eu quero lhe mostrar um lugar."
Richard não hesitou por um segundo.


2

Correram juntos até um morro alto. Do topo, viu que o morro se emendava com uma porção de rochas mais escuras conforme se terminava. Era talvez um lugar interessante, mas Richard esperava por algo mais. Já não eram mais crianças, afinal de contas, pensava consigo mesmo.
"Ali.", Dita apontou.

Entre as rochas, Richard encontrou a flor mais bonita na qual já havia posto os olhos. Era grande, branca, e única. Não havia nada parecido.
"É linda.", disse ele.
"Não é verdade?", riu Dita da reação do rapaz.
Richard se aproximou para tocá-la.
Dita o interceptou: "O que é a beleza?"


3

Richard não sabia se havia entendido a pergunta repentina. Não conseguiu dizer nada.
"Essa flor, que você acha linda, eu acho repugnante."
"O quê?", disse Richard, pasmo.

"Essa flor nasceu aqui, entre essas rochas escuras, contra todas as chances. Aqui ela cresceu, sozinha. E ainda assim, a primeira coisa que você comentou ao vê-la foi sobre como ela é bonita. O que é a beleza senão uma máscara?", disse a moça.
Richard pensou sobre essas palavras por um momento.

"Ninguém sabe dizer o que ela passou para chegar até aqui. Nesse ambiente sem vida, talvez ela se considere uma abominação.", disse a moça sorrindo.
Dita lhe correu a mão sobre o rosto, a fim de lhe fechar os olhos.
"Não acredite em tudo que vê.", disse, e lhe deu um beijo leve.

Isso Richard foi capaz de entender.


4

Abriu os olhos. Estava de volta àquela noite fria, o vento soprava de encontro às rochas. O corpo da moça pareceu encará-lo por uma eternidade, mas logo desfaleceu-se sobre o chão rochoso. Richard se aproximou lentamente, e a pegou nos braços suavemente, como melhor pôde.
Ao lado dos dois, observador silencioso, a flor branca contemplava a noite.


5

Julia não conseguia dormir. Sua mente girava em círculos, mas dizia um único nome: Eytan. Desde o incidente da outra noite, não conseguia lhe tirar da cabeça.
Tudo bem, ele ainda era o mesmo paspalho de sempre, mas a forma com que lhe ajudou quando mais precisou- isso era algo com que Julia não estava acostumada a lidar. Sentiu que precisava responder à altura.

Havia decidido que viraria uma nova página para com o rapaz, mas quando foi ao seu quarto mais cedo, lhe tratou com a mesma frieza de sempre. Essa mesma camada que Julia sempre usou para se proteger do mundo, sentia como se não pudessem mais quebrá-la ela mesma.
De súbito, decidiu que não podia mais esperar: levantou-se num pulo, agarrou algo para se agasalhar melhor e foi ao quarto dele- pela porta, como que para mostrar respeito.


6

Bateu à porta. "Entre.". Abriu-a lentamente.
O rapaz estava sentado na cama, pensativo. Finos raios de luz azulada desciam pelas fendas no teto e lhe iluminavam o rosto aflito.
"Eytan, eu preciso te dizer algo. O bilhete, fui eu que escrevi."
"...Do que você...?"... Eytan precisou de um segundo pra absorver essa ideia.
O bilhete... no seu quarto. Destinado a outra pessoa. Porque motivo teria sido entregue a ele? Era tão óbvio.
Esteve tão cego com a possibilidade que o texto lhe revelara, não pôde sequer questionar as circunstâncias. Julia tinha passe livre para o seu quarto quando bem entendesse, se tivesse parado por um segundo para raciocinar... teria percebido mais cedo.

"Você...". Eytan ficou sem reação por um momento. Em parte, estava chateado por ter sido enganado. Por outro lado, estava aliviado. Com a descoberta de que o bilhete era falso, Richard já deveria estar de volta. Era tarde, ninguém deveria ter que ficar lá fora.
"Por que você faria isso?", disse Eytan, em tom calmo.
"...A verdade é que eu não... eu não sei o que há comigo às vezes.", a moça tentou se explicar. Mas o que poderia dizer-lhe, que o fez por ciúme? Ela própria não sabia ao certo o motivo.
"Eu só queria dizer isso, e te pedir desculpas... por tudo. Boa noite.", e assim lhe deu as costas, fechou a porta devagar, e se foi.
Eytan estava chateado, é verdade. Mas mais do que isso, estava cansado disso tudo. Cansado de desentendimentos, cansado de mentiras. Essa moça havia vindo até seu quarto com o único intuito de lhe pedir desculpas. Nem sequer ficou para ouvir resposta. Havia colocado seu ego de lado por ele. Precisava assegurá-la de que estava tudo bem. Precisava ter certeza ele mesmo. Era uma noite tão fria...


7

Julia voltou e deixou-se cair de bruços na cama. Sentia-se estranha. Há muito não pedia desculpas sinceras a alguém. Estava desconfortável, mas sentia que havia feito o certo.
Já quase adormecia agarrada ao travesseiro, quando sentiu a mão do rapaz lhe tocar suavemente os cabelos.
Sim, havia vindo até ela por conta, e como se não bastasse, pela passagem na parede. O mero pensar no ato fez a moça ter vontade de rir. Trocaram olhares em silêncio por um segundo. Ela o beijou.

Era claro para ambos que o frio que sentiam não poderiam superar sozinhos.


8

Richard havia terminado. Estava abaixado ao lado da lápide, improvisada em madeira. Ao seu redor, todas as demais lápides rústicas que havia feito ele mesmo. Era sempre o encarregado dos enterros, de tal forma que já considerava este lugar como um canto só seu. Havia enterrado tantos que já havia perdido a conta. Não, talvez não quisesse contar.

Um vulto negro interrompeu suas meditações. Um homem velho, coberto em mantos escuros, sentava-se sobre a lápide ao lado, e observava Richard, imóvel.
"Olá, Richard. Eu sou-"
"Eu sei quem você é.", interrompeu Richard, seco.
"Formalidades, rapaz. Um homem não é nada sem elas."
Richard pareceu perdido em seus pensamentos por um segundo. Tornou os olhos ao velho encapuzado.
"...Como você pôde? ... a sua própria filha...", balbuciou Richard, a angústia atravessada na garganta fazia falhar a outrora grave voz.
"Isso já não importa agora, garoto.", Ground respondeu.


9

"...O que você quer?", Richard perguntou, hesitante e enraivecido.

"Eu não quero nada, Richard. Eu apenas me pergunto quando aqueles dois lhe dirão que estavam escondendo Mercedes na pousada."
Richard parou por um momento, como quem leva um susto. Não havia se perguntado o que havia levado Julia a arriscar tudo e sair sozinha pela noite.
Poderiam eles ter mantido Dita tão próxima dele sem que ele notasse? Não, impossível. Ground precisava estar blefando.
Mas por que Dita lhe enviaria esse bilhete agora, depois de tanto tempo? Só havia uma possibilidade.

"Noite passada, Julia estava levando Dita para você.", Richard concluiu, tentando aceitar.
O velho assentiu com a cabeça.
"Por quê?!", Richard bradou de súbito.
"Liberdade, é claro. Eu ofereci isto a ela, mas ela não soube aceitar.", explicou, calmo.
Richard silenciou por um segundo.
"Onde ela a mantinha?", perguntou.
"No quarto de Eytan."
Eytan estava envolvido. Isso explicava sua reação ao entregar o bilhete.
Esses dois. Eles haviam mantido Dita escondida dele, a entregaram a Eles. Depois de tanto tempo, Dita estava bem, mas agora... agora tudo se foi.
E a culpa era deles.

"... É só isso? Não vai tentar me levar?", Richard perguntou, rangendo os dentes.
"Você é um rapaz inteligente. Tenho certeza que virá a mim quando a hora chegar."
Richard manteve silêncio.
"Mais importante, está ficando tarde. Talvez você queira se apressar.", disse o velho, sempre monótono.
Richard o encarou por um segundo. Em seguida, juntou sua pá e lamparina, e deu as costas ao velho. Não olhou para trás.


10

Eytan olhou para o lado. A moça dormindo parecia sorrir suavemente, algo que ele não estava habituado a ver. Sentiu-se bem.
Levantou-se lentamente a fim de não acordá-la, e passou a recolher suas roupas para voltar ao seu quarto. Dentre as roupas da moça que juntava, caiu uma pequena caderneta azul. Curioso, Eytan a folheou rapidamente. Não parecia ser dela.
De repente, o som de passos por toda a pensão tomou conta. A moça estremeceu como quem acorda lentamente, e no susto Eytan decidiu guardar a caderneta em seu bolso.
"...Que foi?", ela perguntou.
"É só o Círculo. Pode voltar a dormir."
"Você vai descer?", resmungou a moça, enquanto se aconchegava melhor nos travesseiros.
"...Sim."

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Capítulo 11 - Até a inocência morre



1 

Ambos ouviram um tilintar de metal. Eytan não olharia. Tinha uma arma apontada na sua direção e nenhum anseio por morrer sem ver o próprio destino. No fundo, ele esperava por Dita; com os cabelos soltos e uma pistola na mão, apontada para Deric, com um ar de confiança no lugar de sua aura de menina frágil. Estava ficando louco, certamente. 
Deric olhou. Viu Julia, com ataduras no braço e nos joelhos, e a espingarda de Richard na mão. Com a determinação que ela tinha até mesmo para escovar os cabelos. Ele sabia que morreria se fizesse qualquer movimento. Precisava pensar rapidamente e não levantar suspeitas... 
“Viu, garoto? É assim que se faz! Agora você! Não se esqueça de segurar a arma na linha dos olhos”Eytan tentou não parecer assustado. Sabia que se não encenasse, Deric o encontraria sozinho e sem tanta sorte numa próxima ocasião. Mas sabia principalmente que era péssimo tentando não parecer assustado. 
Julia aproximou-se vagarosamente, com a arma abaixada de uma forma que pudesse pôr-se em posição com um simples suspiro do homem, mas decidiu fazer o seu papel asqueroso de quem acredita no que está acontecendo. 
Ficaram os três se olhando por um instante, até que Eytan terminou com aquela situação constrangedora. “Outro dia continuamos, Deric. Estou com muito sono, vou para o quarto”. 

2 

Julia não conseguiu ficar mais do que cinco minutos em seu quarto. Precisava conversar com aquele paspalho que só arranjava mais confusão. Decidiu que entrar no quarto de Eytan pelo buraco na parede era melhor; não queria correr o risco de ficar esperando na porta indefinidamente. 
“Você devia ser menos inocente.”. Eytan acordou assustado; não esperava ver Julia ali. Na verdade, esperava, mas não sem ter passado pela porta antes. Sabia que ela ansiava por saber o que estava acontecendo mais cedo no deserto. Ela merecia saber. Embora, mesmo com aquele ato, ele não conseguia perdoá-la por ter lhe tirado sua Mercedes. 
“E você devia parar de pensar só em si mesma!”, foi o que o garoto pensou, porque obviamente não tinha coragem para dizer mais do que disse. “Oi?”. 
“Você não devia participar d’O Círculo. O que foi que te disseram? Que precisavam de uma história? É sempre assim... e imediatamente as pessoas somem daqui. Só Deric é que permanece entre nós.”Eytan fez a sua mais digna de pena cara de desamparo. Julia continuou: “Ninguém é confiável nesta pousada. As pessoas não são altruístas... Bem se vê que você é um garoto; não está pronto para viver no mundo real.” 
Por um instante, tudo pareceu fazer sentido. Era muito mais fácil aceitar estar sendo enganado por todos do que decidir quem estava falando a verdade. Mas isso implicava que aquela moça deitada languidamente na sua cama também não era confiável... Uma indagação pôs fim à sua linha de pensamento... “Será que ela não consegue fazer nada com inocência!?”. Pensou em Dita, para afastar pensamentos que não desejava ter. 
“Precisamos fugir daqui. Você tem um celular. Precisamos encontrar alguém que possa vir nos ajudar.” 

3 

“Abra a porta, garoto. Sou eu, Deric.”. Ele definitivamente não precisava ter dito. Aquela voz sepulcral não poderia ser de outra pessoa. Empurrou Julia para baixo da cama e foi abrir a porta. 
Esfregou os olhos, fingindo estar acordando, “Oi...”. “Precisamos conversar, rapaz”. 
Aquela figura o perturbava. Principalmente enquanto se dirigia à sua cama. Estava rezando pelo comportamento de Julia. 
“Espero que você tenha uma história para essa noite, garoto. Você sabe porque é interessante que faça o que eu pedi.”Eytan não conseguiu fazer mais nada além de menear a cabeça. Pelo menos isso fez com que aquele homem misterioso e claramente perigoso sumisse dali. 
Sem nem um tempo pra respirar, assim que Deric fechou a porta do quarto atrás de si, Julia sussurrou ao seu ouvido: "Temos até hoje à noite, garotão.". 
"Mas... não temos para quem ligar. Eu não tenho, você também não.", na verdade o que ele quis dizer foi: "eu não posso sair daqui sem Mercedes!", mas a tal da falta de coragem jamais o abandonaria. 
A moça saiu, pela porta, dessa vez, com toda a fúria que ela sentia do destino estampada na cara. 
Voltar a dormir parecia a melhor coisa a fazer. 

4

Desta vez, acordou com uma pedra batendo no assoalho. Foi ver o que era, meio receoso, mas assim que percebeu se tratar de um bilhete, a curiosidade fez seu papel. 
"Richard, vou te esperar atrás das pedras do morro. Dita" 
Agora ele sentia algo. Não era coragem, convicção, medo... Era raiva. Somente. 
Saiu do quarto para procurar Richard, com o bilhete na mão. 
"Estúpido! Como foi que me apaixonei por ela!? Como acreditei naquele beijo? Estúpido! Mil vezes estúpido!", por um motivo facilmente explicável, a palavra "estúpido" não saia dos pensamentos de Eytan. 

5 

Richard polia sua espingarda, como sempre que precisava pensar em algo. Ou melhor, não pensar. A morte de Lindsay ainda o perturbava. 
"Tá aqui o bilhete da tua namoradinha! Por que você nunca disse? Por quê?! Vocês todos são cúmplices! Estão todos querendo acabar com a minha vida; de todas as formas possíveis. Fica com ela! Fica! Eu...". Eytan volta a afundar o rosto na areia. Esse soco foi necessário. 
Richard aproveitou que não tinha mais acusações para ouvir e pegou o bilhete. Leu-o, com uma expressão de incredulidade. 
Aquela solitária frase trouxe à tona histórias que ele já tinha conseguido encarar como sonho, como algo irreal e inconcreto. Ou pelo menos era o que pensava até então. Queria Dita; tinha que ir encontrá-la. 
Foi pegar seu casaco e uma lanterna. Estava escurecendo. Estava chegando a hora. Precisava encontrá-la e voltar logo. 

6 

Deric resolvia uma revista de palavras-cruzadas, quando uma batida muito suave na porta chamou sua atenção. "Quem é?". "Sou eu. Perdoe-me por aparecer aqui sem convite, mas eu precisava de alguém...", disse Julia, quase sussurrante.  
Após uma certa hesitação, abriu a porta e deu com a menina de camisola, os olhos vermelhos e o rosto molhado. "Está bem?" 
"Eu os vi. Meus pais estavam aqui. E era um aniversário. O meu aniversário. Eu sei que estavam aqui.", disse Julia, acelerando a fala com o decorrer da frase. "Eles eram iguais à recordação que tenho. Iguais!", nisso retoma o choro. Deric se oferece para buscar água para ela. Julia aceita. 
Mal o homem fecha a porta do quarto, Julia vasculha a gaveta do criado-mudo. Encontra uma caderneta de telefones, meio escondida entre papéis sem importância. Não tinha como procurar ali, mas podia levá-la consigo e devolver no dia seguinte. Escondeu-a na camisola e voltou ao seu teatro. Já ouvia passos no corredor. 
Ouviu o consolo e reconforto e voltou ao seu quarto, ainda com cara de sofrimento. Deric se limitou a se sentir aborrecido com aquilo de novo. 

7 

Já era possível avistar as pedras, apesar da escuridão que caia gradualmente sobre o deserto. O que não podia ser visto, porém, era Dita, mas era melhor ir até lá para ter certeza. 
Nenhuma palavra lhe restou. Nada. Apenas um choro sem lágrimas. Dita estava ali sim, mas não como ele esperava vê-la. 
Sem vestido colorido, nem cabelos no rosto. Sem sorriso tímido. No lugar da candura da menina, o que viu foi um vestido manchado de sangue e areia, um corpo esfolado e maltratado, e um rosto... um rosto que não conseguia olhar fixamente. Um rosto que era não mais do que um amontoado de carne destroçado por um disparo certeiro. 
Ele já sabia que enterraria mais alguém até o fim do dia.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Capítulo 10 - Destino



1

Uma lágrima correu pela face envelhecida e triste da dona da pensão. Isso foi tudo que ela foi capaz de fazer ao pensar no ocorrido com Lindsay. Começou a passar a mão pelos cabelos loiros da jovem recepcionista e talvez uma segunda filha adotiva. Permaneceu todo o tempo em silêncio, esperando na entrada que alguém finalmente tomasse a coragem de enterrar outra pessoa. De fato, já estava cansada de enterrar cada vez mais hóspedes, e desejava fortemente acabar com aquela realidade absurda que acontecia durante a noite. Nem mesmo ela sabia o que causava aquilo. Uma pena, pois se ela soubesse, talvez a garota em seus braços ainda estivesse viva. Com um lamento passou os olhos em volta e viu Deric encostado em um canto da entrada olhando pela porta aberta o horizonte. Ela mal imaginava que Deric ainda não tinha planos de deter essa ameaça que continuava a matar mais e mais inocentes.

Richard chegou e olhou a tia com uma expressão dura, mas claramente de tristeza. Vinha trazendo algumas cobertas, e as pousou carinhosamente sobre Lindsay.
- Quanto tempo mais? - perguntou sua tia. - Quantos mais terei que ver morrer?
Ele não foi capaz de dar resposta alguma naquele momento. Não foi capaz de sequer encarar ela nos olhos. Apenas se abaixou e tirou Lindsay dos braços dela e começou a move-la para o deserto. Era a primeira pessoa que Richard estava enterrando naquele dia, mas não seria a última.

2

Eytan estava comendo mais um dos saborosos sanduíches que pareciam lixo empacotado com papel. Permaneceu muito quieto, não falando mais do que "sim" e "não" por todo o tempo que ficou ali. Anthony estava sentado ao seu lado, mas simplesmente não sentia coragem de começar nenhuma conversa. Até mesmo ele tinha ficado abalado com a história do garoto na noite anterior. Vendo que não poderia ajudar em nada, se levantou e foi para seu quarto. Durante a viagem que o tinha feito ficar preso naquele lugar, carregava consigo um único livro, que na época em que estava em sua casa, não tinha passado mais do que 2 capítulos lendo. Nesse momento, já havia lido o mesmo livro um total de 14 vezes.

Eytan terminou de comer e uma tristeza bateu em seu peito. Lembrou de Lindsay, é claro, mas começou a pensar principalmente a pensar na irmã. Colocou a mão em seu bolso. Retirou um colar prateado que tinha um pingente com uma única letra: "S". Nesse momento, alem da tristeza, começou a sentir algo mais. Um frio característico das noites naquela pousada. Inconscientemente chorou muito, estático, apenas parado no meio do hall olhando para o colar. Não havia ninguém ali para ver o ocorrido, ninguém ali para confortar Eytan. Ele estava sozinho chorando não pela perda de uma desconhecida que parecia interessada em ajuda-lo, mas chorando talvez por saudades da própria irmã e talvez por causa dos próprios pais. Não, era tudo pela sua irmã. E pensando nela, percebeu que não estava realmente sozinho ali no hall. Uma jovem ruiva estava na entrada olhando para ele. Conseguiu sair de seu estado de paralisia e olhou para o corpo que parecia o da sua irmã nesse exato momento. Ele desejou ardentemente dizer qualquer coisa, mas nenhuma palavra saiu. No fundo ele sabia que não havia nada a ser dito entre eles. Começou a desejar toca-la. Abraçar a própria irmã já seria o suficiente. Ela não devia ficar andando por ai no deserto, seu corpo é muito sensível, isso apenas trará mais mal.

Sarah fez um pequeno sinal com a cabeça, e começou a mover as mãos. Parecia sinalizar para que Eytan se aproximasse. Usava um vestido completamente branco, e o cabelo ruivo estava solto. Não havia vento algum naquele local, mas Eytan via o cabelo se movimentando, e o vestido, longo quase até os pés descalços, seguindo a mesma direção de seus fios avermelhados. Começou a se mover na direção dela, primeiro lentamente, quase que com medo de assusta-la e perde-la. Mas logo mudou de opinião e decidiu correr com tudo. Enquanto corria buscando alcançar aquele vulto a sua frente, a sentia cada vez mais longe. Contudo, o frio era cada vez mais presente. Achava que estavam se aproximando outros vultos pelas suas costas, e algumas vezes até mesmo olhou para trás, mas não visualizava ninguém. Ele já corria no deserto, e a pensão já estava se tornando apenas uma marca no fundo do horizonte. Ele temia perder a irmã. Contudo, ele não temia pela própria vida.

3

Richard voltava para a pensão. Estava genuinamente preocupado com Eytan pela noite passada, mas acreditava que o velho Anthony conseguisse convencer o garoto a tirar mais algum sono. Eles dependiam disso, afinal novamente eles teriam outra noite com os escorpiões, e talvez o próprio Eytan tivesse que contar outra história. Chegou na pensão e olhou para a porta com uma tristeza profunda. Decidiu passar em seu quarto para pegar algumas ferramentas e tentar cobrir o furo que o tiro da arma de Deric tinha feito. Antes disso, contudo, notou que o hall estava vazio. Entrou e cruzou o estreito corredor que levava até a cantina, que nada mais era do que outra sala, muito pequena, com um balcão em que sua tia costumava passar todo tempo por ali.
- Onde está o Eytan? - perguntou ao entrar.
A velha apenas meneou a cabeça e fez uma expressão de quem não estava interessada no assunto.

Richard sentiu naquele ponto que algo estava errado, e talvez Eytan corresse perigo. Saiu a passos largos e foi até o quarto de Anthony. Com duas batidas na porta, o velho abriu.
- O que aconteceu? - perguntou Anthony, não acostumado com gente batendo a sua porta com tanta força.
- O garoto, onde ele está?
- Ah, ele estava no hall agora mesmo, por quê?
- Estou com um mal pressentimento sobre isso - disse Richard olhando seriamente para Anthony. - O pior de tudo, eu nunca tenho pressentimentos.

Com essa frase absolutamente sem impacto, e que fez Anthony questionar a seriedade e lucidez do companheiro, eles se separaram, Anthony foi ao quarto do garoto, e Richard foi até seu próprio quarto. Torciam muito para que não tivesse acontecido com Eytan o que já havia acontecido com muitos logo após a primeira noite em contato com os escorpiões.

4

Eytan começou a se sentir arranhado. Nesse ponto, para todos os lados que olhava, via pessoas desfiguradas, se arrastando. Sua visão estava turva, e não conseguia ver muito alem do horizonte. As vezes sentia seu braço ser puxado, seu rosto ser cortado, e sua barriga ser atingida. Continuava apenas correndo a frente, tentando suportar uma dor que começava a se tornar tão insuportável que parecia surreal. Olhava sua irmã, mas ela parecia cada vez mais longe.

Então ela parou. Nesse momento, tudo que estava a sua volta voltou a ser como devia ser: um infinito nada chamado deserto. Mas havia algo mais. Andando rápido alcançou a própria irmã. Se ele tivesse verificado a própria pele e roupa, teria notado que estava intacto, como se nada o tivesse tocado durante o percurso. Mas naquele momento ele não estava interessado nisso. Ao chegar no ponto onde Sarah estava, conseguiu apenas vislumbrar um sorriso, depois ela desvaneceu em areia. Mesmo assim ele não estava sozinho ali. Deric estava de costas para ele, segurando um objeto que brilhava a distância, e parecia de alguma forma importante. Mais do que isso, Deric parecia culpado por segurar aquilo.

Eytan não estava mais dentro de si, muita coisa estava abalando sua mente nesse momento. Foi por essa razão que ele nem pensou, apenas correu na direção de Deric. Queria explicações, queria sua irmã e queria ir embora. Mas acima de tudo, queria acabar com o frio que corria por toda a sua alma no meio daquele deserto.

Deric demorou apenas dois segundos para largar o objeto que tinha e sacar seu revolver. "Eu devia ter adivinhado que isso ia acontecer de novo" pensou.
E no terceiro segundo já estava com Eytan sob a mira de sua arma, e seu destino sob seus dedos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Capítulo 9 - A Porta


1

Ao cair da noite, Eytan olhou ao seu redor. Todos estavam sentados, suas cadeiras formando um círculo.
A velha dona da pousada se retirou logo que os preparativos estavam razoavelmente organizados.
Julia não estava, como ele já imaginara. Essa noite ele iria testemunhar aquilo que ela tão fortemente lhe pediu que evitasse.

Anthony sentou-se ao seu lado. "Calma, meu jovem. É natural ficar nervoso.", esclareceu.
"Agora, por favor, conte-nos a sua história.", disse e sorriu.
"Eu... não sei por onde começar", disse Eytan, olhando em volta, nervoso.
"Comece por onde lhe for mais conveniente.", completou Anthony.

Havia mais do que isso. Eytan não gostava de contar essa história.
Mas percebeu que. na situação na qual se encontrava, não havia escolha a não ser
lhes falar o que queriam ouvir. Colocou a mão no bolso; ainda estava lá.

Súbito, um som baixo chamou a atenção de Eytan.
Era como o farfalhar das folhas secas ao vento.
Conforme Eytan se concentrava, o som ficava cada vez mais alto e evidente. Até que percebeu.

Era o som dos escorpiões.

Escorpiões de um vermelho escuro cobriram o chão ao redor dos pés de Eytan.
Eram tantos que não podia ver o piso de madeira por debaixo deles.
Eytan se apavorou com aquela visão. No terror, gritou tão alto quanto pôde.
Sua voz não quis sair.

...Sentiu um leve tapa no ombro.
"Não se preocupe. Todos nós os vemos volta e meia.", Anthony o confortou.
Eytan voltou os olhos para o piso. Tudo estava como sempre foi, as leves nuances da madeira velha desenhando um padrão que só o tempo conhece.
"Por favor, prossiga".








2

Já era hora. Dita abriu a porta do quarto da forma mais silenciosa possível, e observou
a porta na outra extremidade do corredor por um segundo. Eytan ainda não havia voltado do jantar.
Respirou fundo, encostou a porta e atravessou o corredor escuro.

Julia a esperava sentada em sua cama, e a recebeu com um sorriso menos animado que o costume.
Parecia mais séria, menos disposta a brincadeiras ou jogos. Ao perceber isso, Dita estremeceu.

"Eu vou ser direta: você está pondo Eytan em perigo."
Mercedes a ouviu, incrédula por um segundo. Julia aproveitou:
"Hoje mais cedo, a ligação. Eram eles. Sabem que você está aqui."
Mercedes não queria admitir, mas já temia que seria isso que ouviria.
"A única forma de manter Eytan a salvo é entregando você a eles.", continuou Julia.

'E mais um ace', pensou Julia, orgulhosa do seu intelecto. Só havia um resultado possível nessa barganha:
a mexicana iria se entregar para evitar machucar o seu benfeitor. O melhor de tudo
é que seria capaz de terminar com essa história sem que Eytan jamais percebesse a tempo.

Era um plano simples: muito embora tenham exigido que os três estivessem presentes essa noite,
provavelmente o fizeram por precaução. Argumentaria que Eytan sequer fora informado deste encontro, e portanto
não poderia interferir de forma alguma.
Ao mesmo tempo, ao término da troca, Eytan já não seria mais necessário. Sim, Julia detestava dirigir, mas isso não
iria pará-la de desaparecer desse lugar de uma vez por todas. De qualquer forma, não é como se Eytan fosse cogitar aceitar essa troca,
e lhe servir de choffer enquanto a escoltava embora desse inferno.
Pensando assim, isso não era apenas o melhor plano possível. Era também o único.

"...me desculpe, mas não posso aceitar isso.", Mercedes interrompeu seus devaneios.








3

Eytan ainda não podia aceitar o que havia testemunhado poucos segundos atrás.
Era sobre isso que todos falavam? Era isso que Julia o havia advertido a evitar?
Lembrou da conversa com Anthony- sanidade.
"Não pode ser", pensou consigo. Até ontem se sentira perfeitamente bem. Como poderia enlouquecer da noite para o dia?

Os Escorpiões. Não, não os aracnídeos. As pessoas, "Eles". Segundo Anthony, eram estes os que 'levavam' aos hóspedes.
Mas nunca teve contato com nenhum deles. A não ser que... eles estivessem aqui, sentados neste círculo?
Sentiu a cabeça pesada. Havia algo na bebida? Precisava ser a bebida. Nada mais lhe ocorria.

Deric observava o comportamento de Eytan.
"Eu avisei que era muito cedo pra trazê-lo.", murmurou cabisbaixo, com ar de desaprovação.
"Foi você, não foi, velho?", Deric dirigiu-se a Anthony.
"Agora não é hora para isso, Deric.", censurou o senhor. Deric não respondeu.

Só então Eytan percebeu algo crucial: Deric mantinha o revólver ao alcance da mão a todo momento.
Esse detalhe, somado aos disparos que havia ouvido noite passada, muito contribuíram para o mal-estar que Eytan sentia.

"Rapaz, eu entendo que tenha várias dúvidas nesse momento, e eu prometo que, com o tempo, todas serão saciadas, mas agora é importante que você continue a sua história.", ressaltou Anthony.

Enquanto falava, alguns últimos atrasados se sentavam no círculo, que tinha ao menos umas vinte cadeiras velhas.
Deric se certificava de que a porta estava bem barrada, como era de costume.
Naquela atmosfera opressiva, Eytan teve a impressão de que talvez as coisas não fossem como pareciam.

Talvez não haja ninguém lá fora, e a porta na verdade sirva para nos manter do lado de dentro.






4

"O que você disse?", perguntou Julia.
"Eu... não posso fazer isso.", respondeu a moça.
"E eu posso saber qual seria o motivo?"
"Eytan é um bom rapaz. Mas eu não posso voltar.", disse com um olhar determinado.
Julia sorriu e virou os olhos. "Então o que você está dizendo é que não se importa com o que venham a fazer com ele?"

Mercedes respirou fundo.
"Eu sei que Eles não entram aqui, Julia.". Mantinha uma calma admirável, frente àquelas circunstâncias.
Julia ficou séria. Nada a incomodava como ter seus blefes desmascarados. "Então o quê? Vai se esconder aqui pra sempre?", indagou segurando a fúria.
"Eu... vou pensar nisso depois.", respondeu, e se virou para voltar ao quarto de Eytan. Com sorte o faria antes que ele retornasse do jantar.

Julia havia se preparado para o pior."Não se depender de mim.".
Segurou Dita por trás, e cobriu sua boca e nariz com um pano embebido em algum líquido de cheiro nauseante.
Mercedes se debateu por alguns segundos, mas em pouco tempo cedeu, e perdeu a consciência.

"Agora, a parte complicada. Preciso dar um jeito de tirar ela daqui sem ser pega no flagra. Não posso descer as escadas, estão todos lá embaixo.".
Trancou a porta do quarto. Freneticamente vasculhou todo o lugar por qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lhe ocorreu então que só havia uma maneira.
Amarrou todos os trapos, lençóis e toalhas que encontrara.
"Eu sempre quis fazer isso.", sorriu sozinha.

Primeiro desceria Dita, amarrada pela cintura. Percebeu que levantar um peso morto não era tão fácil quanto imaginara. Deu a volta no pé da cama com os trapos e o fez de roldana. Sabia se virar.
Quando estava quase concluindo o trabalho, deixou enfraquecer a pegada por um instante, o que lhe custou um bom metro e meio de panos. Quando recuperou o controle, era tarde: Dita já estava no chão empoeirado do lado de fora.
"Com sorte não quebrou nada importante.", comentou Julia consigo mesma.

Em seguida, desceu ela mesma. Foi consideravelmente mais simples, bastando amarrar os panos ao pé da cama. Era pesada demais para Julia mover sozinha, mesmo sem o criado-mudo que acabara de colocar sobre ela.

Levantou Mercedes como pôde. Felizmente, a moça era consideravelmente leve, como indicava sua altura e porte físico. Também não parecia estar ferida, o que era ótimo, considerando que se tratava de sua moeda de troca esta noite. Pegou-a no colo, e se arrastou lentamente em direção à frente da pousada.





5

"Meus pais eram pessoas muito boas. Mas como muitos de vocês aqui devem saber, o mundo lá fora não é grato para gente assim.", disse Eytan, os olhos todos voltados para ele em silêncio sepulcral.
"Eram pessoas simples. Quando mais jovens, os dois trabalhavam juntos em qualquer oportunidade que encontrassem. Quando eu nasci, minha mãe passou a cuidar mais da casa, e coube ao meu pai manter a comida na mesa."
"Cada dia era uma batalha, como ele mesmo dizia. Mas de alguma forma ele parecia sempre dar um jeito, e quando minha irmã nasceu, nos mudamos pra uma casa mais afastada da cidade; branca e simples, mas grande o bastante."
"Eu e minha irmã costumávamos brincar juntos no campo que se estendia ao redor da casa. Era grande e bonito, e tinha uma árvore enorme que, no tempo, eu achava que alcançava o céu."

Foi interrompido por uma agitação que parecia se formar. Era a respeito de Lindsay.
Aparentemente, a moça não queria participar do círculo esta noite.

"E quanto a Julia? Ela nunca participou!", exclamou a moça.
"Isso não se trata de Julia. Sente-se.", respondeu Deric, sério.
Relutante, a moça se sentou na cadeira que Deric lhe indicou.

Eytan continuou.

"Certo dia, meu pai chegou em casa antes do fim da tarde. Era seu hábito chegar apenas ao anoitecer.", prosseguia Eytan.
"Eu e minha irmã..."
Nesse momento, alguém pareceu descer as escadas. Uma menina ruiva com cerca de uns dez ou onze anos.

Era sua irmã.

Sua irmã estava ali, nos degraus da escada. Sua irmã, que deveria ter por volta de vinte anos, estava ali à sua frente, e era nada mais que uma criança.
Todos se voltaram e observaram a menina que descia a escada. Era pálida, mas bonita. E sorria.

Eytan não sabia como explicar o que estava acontecendo, mas sentiu-se compelido a continuar. Ainda que ninguém insistisse.
"Naquela tarde, eu e minha irmã brincávamos no campo como sempre. Minha mãe estava preparando o café."
A menina atravessou sorridente por entre o círculo de cadeiras e correu em direção à árvore.
"Não corram muito longe! Está quase pronto!", exclamou a mãe, enquanto cuidava as crianças pela janela da casa, mais afastada do círculo.
"Lembro que ela vestia um vestido branco simples, tão claro quanto o seu sorriso.", recordou Eytan, nostálgico.

"Na época eu não tinha a menor ideia, mas a verdade é que meu pai estava envolvido até o pescoço com dívidas. Havia pedido emprestado para alguns homens dos quais nem sabia os verdadeiros nomes.
Naturalmente, era uma armadilha. Em pouco tempo, não apenas lhe haviam tirado todas as economias, como também a paz: era perseguido e monitorado constantemente, e não se passava um dia sem receber
algum aviso para 'lembrá-lo' da boa fé de seus credores."

Nisso surgiu seu pai, nervoso, correndo, tropeçando sobre os móveis e o que quer que visse pela frente.
Correu até sua mulher e a abraçou com força. "Eles estão vindo!", exclamou em pânico.
Afastou-se um pouco e a fitou nos olhos. "Por favor me perdoe...", suplicou.
As lágrimas rolaram silenciosas sobre o rosto dela. Percebeu que não podia ser perdoado pelo que havia feito.
"Tudo isso... Eu fiz tudo isso por nós! Pelas crianças!", grunhiu o pai, fora de si.

Batidas na porta. Eles já haviam chegado!
"Rápido, pelos fundos!", disse o pai, em desespero.

As batidas na porta se tornaram mais fortes.
Eles haviam vindo. Para lhe tomar tudo que ainda lhe restava.
"Depressa!", disse, enquanto corriam ambos em direção à grande árvore algumas dezenas de metros afastada da casa.

As batidas na porta se tornaram murros.
Chegou ao pé da árvore e olhou ao seu redor. Não havia onde se esconder, não havia como fugir.
Mas precisava escondê-la. Não podia deixar que lhe levassem tudo.

Ouviu o claro som da porta sendo derrubada.
"Suba, depressa!", disse para sua mulher. E assim ela o fez, agarrando-se aos galhos mais baixos e escalando como melhor podia.
Não podia deixar que lhe levassem tudo. Havia algo muito importante que havia deixado para trás.
Decidiu por voltar à casa.
"Onde você vai?", perguntou perplexa a mulher.
"Suba! Suba o mais alto que puder! E não olhe para trás!", disse e correu de volta à casa.

E assim ela o fez. Subiu, e continuou, e quando cansou subiu ainda mais.
Quando finalmente parou, percebeu que já não podia mais ver o chão.
De fato, podia ver apenas galhos e folhas. Não podia ver a casa, e não podia ver o céu.

O silêncio imperou por alguns minutos. Seu marido não havia voltado. Poderiam aqueles homens terem achado o que procuravam, e então decidido por ir embora?
Em seguida, ouviu passos se aproximando. E um assovio que cantava alguma música infantil.
"Eu sei que você está aí em cima.", disse o homem que assoviava. Ela ouviu e tremeu.
"Por que você não desce aqui para nós conversarmos melhor?", disse o homem, calmo.
Ela não respondeu.
Ele riu. "Muito bem."
Novamente silêncio. Em poucos minutos, o homem volta.
"Você não vai acreditar no que eu tenho aqui. Vou dar uma dica: última chance para descer."
Novamente não houve resposta.
"Me desculpe por isso. Você tem que entender que, aqui, é a sobrevivência do mais forte.", disse o homem, e derrubou a árvore a machadadas.





6

Julia se aproximava da frente da pousada. Tão logo conseguiu abrir caminho pela noite escura, avistou dois vultos, afastados da frente da pousada, mas olhando fixamente em sua direção.
Eram eles. Se aproximou, trazendo Mercedes consigo.
Os homens encapuzados a observaram em silêncio.
"Onde está o carro?", perguntou ela.
"Em um local seguro.", respondeu um dos homens. "Venha conosco.", disse, e o outro pegou Mercedes nos braços e a carregou pelo restante do trajeto.






7


Eytan silenciou, exausto.
Ali estavam apenas ele e os demais integrantes do círculo, ainda sentados como quando começou. Não havia árvore, não havia sua mãe e seu pai, tampouco havia sua irmã.
Certamente não se sentia bem, mas não sabia descrever o que lhe passava. Estava muito cansado.

O círculo lhe observava em silêncio. E não sem motivo; era incomum ouvirem uma história dessas de um recém-chegado.
Anthony esboçou um sorriso por entre as barbas, o qual Deric ignorou sumariamente.

Nesse momento, ouviram um som alto.
Uma cadeira caindo sobre o velho chão de madeira.
Lindsay se arremessou em direção à porta, atravessando o círculo.
"Droga!", gritou Deric. Estava distraído! Procurou sua arma: não a encontrou!
Lindsay se batia freneticamente conta a porta barrada, e a cada novo empurrão ambas pareciam ceder mais.
"Lindsay, não!", alertou Deric, enquanto se levantava.
"Se afaste!", Lindsay se virou, a arma de Deric apontada contra o verdadeiro dono. "Saia de perto de mim!".
Segurando o revólver com as duas mãos, Lindsay apontou para a porta e disparou. Com um estouro grave, ela se abriu.

Em seguida, silêncio. Um segundo rugido ecoou.

Lindsay caíra de bruços, por sobre o vão da porta. Em sua rubra imobilidade, parecia fitar a escuridão do lado de fora.



Richard se mantinha também estático, como que preparado para um segundo tiro de sua espingarda. Relaxou a posição apenas vários segundos depois, a fumaça ainda soprando dos canos.
Ninguém ousava proferir uma palavra.

Eytan observou aquela cena, horrorizado.
Medo, ansiedade, culpa. Uma enxurrada de sentimentos lhe passaram pela mente naquele instante.
Medo, ansiedade, culpa, e uma porta aberta.
Então ele correu.





8

Quando Julia chegou no ponto de encontro, um vento gélido soprava violentamente. "O sinal deles.", pensou consigo mesma. Estava muito escuro, e mesmo que não estivesse, não poderia ver a pousada de tal distância.
Luzes extremamente claras se acenderam. Quando Julia se acostumou com a luminosidade, percebeu que eram os faróis de um carro, logo à sua frente.
Do carro, desceram pessoas encapuzadas, cobertas em mantos acinzentados.

Dentre eles, um se destacava. Claramente um homem mais velho, a grisalha barba por fazer lhe escapando o capuz que cobria o rosto. Era Ground.
Ele se dirigiu aos homens encapuzados que a acompanharam.
"Tragam Mercedes até mim."
O homem que a trazia no colo se aproximou, e Ground observou o rosto da moça por um segundo. "Tão linda quanto a mãe. Ponham-na no carro.", disse, monótono, sem esboçar qualquer hesitação.

"Onde está Eytan?", disse o velho.
"Ele não será necessário. Eu tenho aqui o que vocês querem, e vocês tem o que eu preciso. Vamos terminar logo com isso.", respondeu Julia, calculista mas nervosa.

"...acho que você não me entendeu, mulher.", disse Ground, que a circulava lentamente.
Aproximou-se até o ouvido de Julia. "Onde está Eytan?"

Julia o repeliu, com asco. "Ele não sabe de nada! Ele nunca viu os escorpiões! Vocês não podem levá-lo!"

Ground se afastou, analisando em seu silêncio. Era impossível ver seu rosto contra os faróis.
"Talvez. Mas... você já os viu, não é mesmo?", disse, o tom apático ainda na voz.
"Levem-na".

Só então Julia abriu os olhos para o que se passava ao seu redor. Como pôde ser tão tola?
Os homens de Ground se aproximaram a fim de imobilizá-la. Julia tentou correr pelas areias turvas, mas em vão. Tão logo caiu de joelhos, os homens encapuzados lhe seguraram.
Como pôde não ter visto isso antes? Realmente esperava que lhe fossem deixar sair assim? Todo esse tempo, sempre esteve fugindo. Fugia de ambos, escorpiões e dos homens da pousada.
Esteve ela cega pela esperança de sair desse pesadelo?

Debateu-se como melhor pôde, mas não encontrava forma de se livrar das mãos que a imobilizavam. Enquanto a arrastavam para a noite, sentiu que talvez pudesse ter feito as coisas serem diferentes.
Perguntou-se se era isso o melhor que podia esperar de si mesma. Não houve resposta; era tarde demais para lamentos.






9

Amanhecia o dia. O frio ainda era quase tão intenso quanto à noite.

"Está mais calmo?", Richard perguntou.
Eytan não respondeu.

Richard observou o seu pequeno quarto anexado ao seu galpão. Havia o feito ele mesmo. Não era muito grande, mas nunca esperava visitas.
Agora, com Eytan sentado em uma de suas cadeiras e Julia desacordada em sua cama, podia perceber que o espaço era realmente pequeno.
Richard nunca foi de se envolver muito com as pessoas. Ainda assim, naquele momento, não podia suportar aquele silêncio.

"Lindsay...", Eytan deixou escapar de seus pensamentos.
"Ela já não era mais uma de nós.", disse Richard.
Eytan olha com um olhar vago. Lindsay havia tentado ajudá-lo, não?

"Eu sei que ela falou com você. Como você acha que eles conseguiram o número do seu celular?", esclareceu Richard.
Eytan não entendeu a princípio, mas então lembrou-se da ligação que Julia recebera em seu nome.
"Ela se negava a participar do círculo porque suas visões estavam ficando muito frequentes. Já não podia separar a realidade da fantasia. Deric esteve a observando."

Eytan ainda estava confuso. Noite passada, mesmo que por um momento, esteve convencido de que estava sendo mantido prisioneiro. Que Lindsay o queria ajudar. Que, caso parasse de correr sem rumo pelo deserto escuro, Richard mataria a ele também. Mas Richard não atirou. Ao invés, ele o perseguiu com uma lamparina pela escuridão, enquanto chamava seu nome contra o vento.

Quando Richard finalmente o alcançou, Eytan havia se deparado com uma visão terrível. Vultos envoltos em mantos tentavam arrastar Julia para dentro da noite.
Sem hesitar, Eytan tomou a lamparina das mãos de Richard e correu em direção a eles, e com nada além de um brado furioso, afastou os vultos negaceiros.

"Lindsay mentiu pra você, Eytan. O que quer que ela tenha lhe dito na despensa, foi tudo pra tirá-lo da pousada. Ela mentiu pra você e atraiu Julia para fora.", disse Richard.
"É por isso que alguns de nós tem que se encarregar d'Os que são levados. É por isso que precisamos do círculo. Caso contrário, eles irão por em risco a todos. Você consegue ver isso, Eytan?"

"...Eu não sei. Eu não sei mais o que é certo, o que é errado, eu só não quero mais pensar nisso tudo.", desabou Eytan, e deixou o rosto cair sobre as mãos.
Refletiu silencioso por longos minutos. Era isso que aguardava a todos naquela pousada?
"...Quanto tempo eu tenho até terminar como eles?", disse em tom sincero e aflito.

"...Eu vou indo preparar o café. Feche a porta quando sair.", disse Richard. "Ahh, e não conte a ninguém o que aconteceu com Julia. Já estamos com problemas o bastante."

Eytan observou Julia novamente. Havia providenciado remédio para os contusões e cortes que ela havia sofrido, mas não sabia se demoraria a se recuperar.
De fato, era melhor que os outros não soubessem que ela havia saído por conta própria. Manteria isso em segredo. Contudo, o maior segredo que mantinha, e esse nem mesmo Richard poderia saber, é que havia perdido algo muito maior essa noite.
Eytan se perguntava se algum dia poderia ver Dita mais uma vez.



Decidiu que merecia uma hora ou duas de sono pra colocar as coisas no lugar.
Se dirigia para a pousada, mas uma voz o parou em seu caminho.
"Eytan... me desculpe."
Julia parecia recobrar lentamente a consciência.

...Fechou a porta e saiu em silêncio.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Capítulo 8 - O peso do mundo


1

Eytan entrou no quarto no mesmo momento em que Julia desligava o celular. "Por que você estava usando o meu celular?", ele perguntou, desconfiado. "Ele não parava de tocar e... era só a sua mãe, queria saber como você estava".
Era órfão desde os doze anos, mas realmente não estava com ânimo para discutir. Resolveu que falaria com ela sobre isso outra hora.
Julia saiu do quarto; o que foi um alento. Eytan sentou na cama e por um momento esqueceu-se de Dita, quando percebeu que ela estava ali viu também o olhar assustado no rosto da menina. "O que aconteceu aqui antes?"
Mercedes, num ímpeto, ia contar-lhe tudo, mas pensou bem e só confirmou a história de Julia. Sentia medo da garota cínica, que agora tinha uma arma contra ela: conhecimento; por mais que ela não soubesse todos os fatos, ela sabia como acabar com a sua vida. Decidiu ir para o canto da porta do banheiro e tentar dormir.

2

"Eytan, posso dormir com você?", sussurrou Dita, depois de se conformar que tinha coisas demais na cabeça para conseguir dormir. Ele negou-lhe, ainda sonolento. Ela precisava de alguém, mesmo que fosse ele. Precisava aplacar seus medos. Nesta ânsia, deu-lhe um beijo leve. "Posso dormir com você agora?". Pasmo, o ruivo nem respondeu, apenas cedeu um lugar para ela, deixando um grande vão entre eles, mas era apenas isso que Dita queria.
Enquanto dormiam Julia já planejava uma forma de sair dali. Aquele moleque desajeitado já estava acabando com a sua paciência. Certamente os Escorpiões eram muito mais eficientes. Ela tinha o que eles queriam, ou melhor, quem eles queriam, e isso a deixava em vantagem.
Pouco mais de meia hora depois Eytan e foi tomar café da tarde, Julia foi, como uma gata sorrateira, até o quarto dele. Abriu a porta devagar e não encontrou Dita. Decidiu que deixaria um bilhete; "Apareça no último quarto do corredor, assim que anoit...", nesse momento ela ouviu um suspiro, certamente alguém chorando. Levantou as cortinas e viu a mexicana escondendo o rosto nas mãos e abafando os suspiros. "Tão melhor assim. Hoje, assim que anoitecer, no último quarto do corredor. Apenas vá até lá, não conte ao palerma que divide o quarto com você", sussurrou, não menos em tom severo, Julia.

3

No café, Deric senta-se ao lado de Eytan e pergunta-lhe sobre a história. O garoto continua quieto, com o olhar afundado na xícara, não queria mais ter que pensar em toda essa história que ele não entendia. Não queria mais pensar em nada. Só ir pra casa.
Pegou um sanduíche para Dita e foi pro quarto. Chegou, largou o sanduíche sem lhe dizer nada - ainda não tinha entendido o que tinha acontecido na noite anterior -, deitou na cama e dormiu novamente.
Acordou com as batidas de Lindsay na porta, "Garoto! Você está vivo!? Abra a porta", ele abriu, sonolento. Ela pegou-o pela mão e o arrastou até a despensa. "Tenho uma coisa para te contar. Só fique quieto e me escute. Você é um estúpido!", ela sussurrava, escondendo a todo custo o que lhe diria, "Você está com Mercedes. Eles a querem de volta; é a sua obrigação entregá-la e terminar com tudo isso. Ninguém te disse nada, não é mesmo?". Lindsay o olhava com olhos perscrutadores, como que duvidando que houvesse vida há menos que quilômetros dentro daquela expressão impassível. "Dizer?", como se sentia estúpido por não conseguir fazer uma pergunta melhor!
"Essa moça é a causa de tudo isso que vivemos. Richard foi apaixonado por ela, quando ainda eram pouco mais que crianças. Por influência dele, acreditam os Escorpiões, a moça fugiu e nunca mais quis voltar. Eu, sinceramente, acho que foi de tristeza. Assim que a sua amiguinha Julia apareceu por aqui Mercedes perdeu o amor que Richard lhe tinha. Não entendo porque foi que ela voltou para cá, realmente não entendo.". Milagrosamente alguma coisa fazia sentido na sua cabeça. Em todas aquelas intermináveis horas que estava ali, tudo para ele eram mistérios; todos eram mistérios. De súbito uma dúvida arrombou aquela atmosfera de esclarecimento "mas... por que Richard odeia Julia!?". "Oras, garoto. Com tantas coisas tão mais importantes acontecendo aqui, você devia deixar essa dissimulada pra lá. Vá pro seu quarto e pense em uma história, essa noite é sua e a saúde psicológica de todos aqui depende de você". Eytan queria, finalmente, perguntar-lhe o porquê disso, mas era tarde, Lindsay saíra correndo da despensa.

4

Bateu a porta e se atirou na cama, decidido a pensar em uma história, mas tudo que conseguia pensar era na conversa, em Lindsay, Richard, Escorpiões, o calor que fazia, o sol que passava pelo buraco na parede, carro, deserto, sumiço, soco na cara, ferimento, homem com chapéu, mistério, Richard apaixonado por Julia, dissimulada, celular, ligação, sua mãe, e... repentinamente lembrou-se do beijo que Dita lhe dera. Não sabia se porque queria, se gostava dele, ou se simplesmente queria um lugar na cama. Afastou logo esse pensamento e focou finalmente em alguma história.
Contaria a história da morte de sua mãe. Era tudo o que tinha para contar de sua vida. Por mais que tudo aquilo que estava vivendo fosse horrível e assustador, pela primeira vez sentia que estava vivendo. Que devia tomar decisões e elas eram suas. Que era importante e devia fazer o melhor.

5

Julia caminhava de um lado para o outro do quarto pensando numa forma de entregar Mercedes sem que Eytan soubesse ou, pelo menos, tentasse impedir. Nada lhe vinha a mente. Suborná-la era a idéia que melhor lhe parecia, mas não sabia com o quê. Precisava de mais informações sobre ela, sabia que dinheiro, mesmo se tivesse a oferecer, não compraria Mercedes.
Seus pensamentos foram interrompidos por passos ligeiros por toda a pensão. Estava escurecendo.

6

Eytan precisava saber. Tinha uma história para contar, só não tinha uma explicação do porquê era necessário contá-la. Decidiu procurar Anthony. Certamente ele saberia, só precisava convencê-lo a contar. Correu até a frente da pensão e viu-o sentado em uma pedra grande. Aproximou-se.
"Por que devo contar uma história hoje?"
"Você ainda não desistiu, não é mesmo, garoto? Ok, vou contar o porquê.". O velho cavalheiro fez uma pausa que foi, para Eytan, mais que dramática, mas desesperadora. "Os Escorpiões não matam pessoas, nem as seqüestram. Eles as enlouquecem. Jogam com os medos comuns, como escuro, barulho, solidão, sangue, tortura, eles sabem como perturbar qualquer um. Quando disse que tinham levado Louis, não disse que tinham seqüestrado ou assassinado-o, disse que tinham levado a sanidade dele. Depois disso todos aceitam seguir com eles, sob a promessa de que todas aquelas visões não voltarão a assombrá-los. As histórias precisam ser reais para que não nos afastemos do que é possível e realmente acontece. Contamos com você, garoto."
Naquele instante todos correram para as suas posições habituais. Havia uma cadeira para Eytan na frente da porta da pensão. Como se seu corpo tivesse instantaneamente o peso do mundo, se arrastou até ela; sabia seu destino.