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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Capítulo 11 - Até a inocência morre



1 

Ambos ouviram um tilintar de metal. Eytan não olharia. Tinha uma arma apontada na sua direção e nenhum anseio por morrer sem ver o próprio destino. No fundo, ele esperava por Dita; com os cabelos soltos e uma pistola na mão, apontada para Deric, com um ar de confiança no lugar de sua aura de menina frágil. Estava ficando louco, certamente. 
Deric olhou. Viu Julia, com ataduras no braço e nos joelhos, e a espingarda de Richard na mão. Com a determinação que ela tinha até mesmo para escovar os cabelos. Ele sabia que morreria se fizesse qualquer movimento. Precisava pensar rapidamente e não levantar suspeitas... 
“Viu, garoto? É assim que se faz! Agora você! Não se esqueça de segurar a arma na linha dos olhos”Eytan tentou não parecer assustado. Sabia que se não encenasse, Deric o encontraria sozinho e sem tanta sorte numa próxima ocasião. Mas sabia principalmente que era péssimo tentando não parecer assustado. 
Julia aproximou-se vagarosamente, com a arma abaixada de uma forma que pudesse pôr-se em posição com um simples suspiro do homem, mas decidiu fazer o seu papel asqueroso de quem acredita no que está acontecendo. 
Ficaram os três se olhando por um instante, até que Eytan terminou com aquela situação constrangedora. “Outro dia continuamos, Deric. Estou com muito sono, vou para o quarto”. 

2 

Julia não conseguiu ficar mais do que cinco minutos em seu quarto. Precisava conversar com aquele paspalho que só arranjava mais confusão. Decidiu que entrar no quarto de Eytan pelo buraco na parede era melhor; não queria correr o risco de ficar esperando na porta indefinidamente. 
“Você devia ser menos inocente.”. Eytan acordou assustado; não esperava ver Julia ali. Na verdade, esperava, mas não sem ter passado pela porta antes. Sabia que ela ansiava por saber o que estava acontecendo mais cedo no deserto. Ela merecia saber. Embora, mesmo com aquele ato, ele não conseguia perdoá-la por ter lhe tirado sua Mercedes. 
“E você devia parar de pensar só em si mesma!”, foi o que o garoto pensou, porque obviamente não tinha coragem para dizer mais do que disse. “Oi?”. 
“Você não devia participar d’O Círculo. O que foi que te disseram? Que precisavam de uma história? É sempre assim... e imediatamente as pessoas somem daqui. Só Deric é que permanece entre nós.”Eytan fez a sua mais digna de pena cara de desamparo. Julia continuou: “Ninguém é confiável nesta pousada. As pessoas não são altruístas... Bem se vê que você é um garoto; não está pronto para viver no mundo real.” 
Por um instante, tudo pareceu fazer sentido. Era muito mais fácil aceitar estar sendo enganado por todos do que decidir quem estava falando a verdade. Mas isso implicava que aquela moça deitada languidamente na sua cama também não era confiável... Uma indagação pôs fim à sua linha de pensamento... “Será que ela não consegue fazer nada com inocência!?”. Pensou em Dita, para afastar pensamentos que não desejava ter. 
“Precisamos fugir daqui. Você tem um celular. Precisamos encontrar alguém que possa vir nos ajudar.” 

3 

“Abra a porta, garoto. Sou eu, Deric.”. Ele definitivamente não precisava ter dito. Aquela voz sepulcral não poderia ser de outra pessoa. Empurrou Julia para baixo da cama e foi abrir a porta. 
Esfregou os olhos, fingindo estar acordando, “Oi...”. “Precisamos conversar, rapaz”. 
Aquela figura o perturbava. Principalmente enquanto se dirigia à sua cama. Estava rezando pelo comportamento de Julia. 
“Espero que você tenha uma história para essa noite, garoto. Você sabe porque é interessante que faça o que eu pedi.”Eytan não conseguiu fazer mais nada além de menear a cabeça. Pelo menos isso fez com que aquele homem misterioso e claramente perigoso sumisse dali. 
Sem nem um tempo pra respirar, assim que Deric fechou a porta do quarto atrás de si, Julia sussurrou ao seu ouvido: "Temos até hoje à noite, garotão.". 
"Mas... não temos para quem ligar. Eu não tenho, você também não.", na verdade o que ele quis dizer foi: "eu não posso sair daqui sem Mercedes!", mas a tal da falta de coragem jamais o abandonaria. 
A moça saiu, pela porta, dessa vez, com toda a fúria que ela sentia do destino estampada na cara. 
Voltar a dormir parecia a melhor coisa a fazer. 

4

Desta vez, acordou com uma pedra batendo no assoalho. Foi ver o que era, meio receoso, mas assim que percebeu se tratar de um bilhete, a curiosidade fez seu papel. 
"Richard, vou te esperar atrás das pedras do morro. Dita" 
Agora ele sentia algo. Não era coragem, convicção, medo... Era raiva. Somente. 
Saiu do quarto para procurar Richard, com o bilhete na mão. 
"Estúpido! Como foi que me apaixonei por ela!? Como acreditei naquele beijo? Estúpido! Mil vezes estúpido!", por um motivo facilmente explicável, a palavra "estúpido" não saia dos pensamentos de Eytan. 

5 

Richard polia sua espingarda, como sempre que precisava pensar em algo. Ou melhor, não pensar. A morte de Lindsay ainda o perturbava. 
"Tá aqui o bilhete da tua namoradinha! Por que você nunca disse? Por quê?! Vocês todos são cúmplices! Estão todos querendo acabar com a minha vida; de todas as formas possíveis. Fica com ela! Fica! Eu...". Eytan volta a afundar o rosto na areia. Esse soco foi necessário. 
Richard aproveitou que não tinha mais acusações para ouvir e pegou o bilhete. Leu-o, com uma expressão de incredulidade. 
Aquela solitária frase trouxe à tona histórias que ele já tinha conseguido encarar como sonho, como algo irreal e inconcreto. Ou pelo menos era o que pensava até então. Queria Dita; tinha que ir encontrá-la. 
Foi pegar seu casaco e uma lanterna. Estava escurecendo. Estava chegando a hora. Precisava encontrá-la e voltar logo. 

6 

Deric resolvia uma revista de palavras-cruzadas, quando uma batida muito suave na porta chamou sua atenção. "Quem é?". "Sou eu. Perdoe-me por aparecer aqui sem convite, mas eu precisava de alguém...", disse Julia, quase sussurrante.  
Após uma certa hesitação, abriu a porta e deu com a menina de camisola, os olhos vermelhos e o rosto molhado. "Está bem?" 
"Eu os vi. Meus pais estavam aqui. E era um aniversário. O meu aniversário. Eu sei que estavam aqui.", disse Julia, acelerando a fala com o decorrer da frase. "Eles eram iguais à recordação que tenho. Iguais!", nisso retoma o choro. Deric se oferece para buscar água para ela. Julia aceita. 
Mal o homem fecha a porta do quarto, Julia vasculha a gaveta do criado-mudo. Encontra uma caderneta de telefones, meio escondida entre papéis sem importância. Não tinha como procurar ali, mas podia levá-la consigo e devolver no dia seguinte. Escondeu-a na camisola e voltou ao seu teatro. Já ouvia passos no corredor. 
Ouviu o consolo e reconforto e voltou ao seu quarto, ainda com cara de sofrimento. Deric se limitou a se sentir aborrecido com aquilo de novo. 

7 

Já era possível avistar as pedras, apesar da escuridão que caia gradualmente sobre o deserto. O que não podia ser visto, porém, era Dita, mas era melhor ir até lá para ter certeza. 
Nenhuma palavra lhe restou. Nada. Apenas um choro sem lágrimas. Dita estava ali sim, mas não como ele esperava vê-la. 
Sem vestido colorido, nem cabelos no rosto. Sem sorriso tímido. No lugar da candura da menina, o que viu foi um vestido manchado de sangue e areia, um corpo esfolado e maltratado, e um rosto... um rosto que não conseguia olhar fixamente. Um rosto que era não mais do que um amontoado de carne destroçado por um disparo certeiro. 
Ele já sabia que enterraria mais alguém até o fim do dia.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Capítulo 10 - Destino



1

Uma lágrima correu pela face envelhecida e triste da dona da pensão. Isso foi tudo que ela foi capaz de fazer ao pensar no ocorrido com Lindsay. Começou a passar a mão pelos cabelos loiros da jovem recepcionista e talvez uma segunda filha adotiva. Permaneceu todo o tempo em silêncio, esperando na entrada que alguém finalmente tomasse a coragem de enterrar outra pessoa. De fato, já estava cansada de enterrar cada vez mais hóspedes, e desejava fortemente acabar com aquela realidade absurda que acontecia durante a noite. Nem mesmo ela sabia o que causava aquilo. Uma pena, pois se ela soubesse, talvez a garota em seus braços ainda estivesse viva. Com um lamento passou os olhos em volta e viu Deric encostado em um canto da entrada olhando pela porta aberta o horizonte. Ela mal imaginava que Deric ainda não tinha planos de deter essa ameaça que continuava a matar mais e mais inocentes.

Richard chegou e olhou a tia com uma expressão dura, mas claramente de tristeza. Vinha trazendo algumas cobertas, e as pousou carinhosamente sobre Lindsay.
- Quanto tempo mais? - perguntou sua tia. - Quantos mais terei que ver morrer?
Ele não foi capaz de dar resposta alguma naquele momento. Não foi capaz de sequer encarar ela nos olhos. Apenas se abaixou e tirou Lindsay dos braços dela e começou a move-la para o deserto. Era a primeira pessoa que Richard estava enterrando naquele dia, mas não seria a última.

2

Eytan estava comendo mais um dos saborosos sanduíches que pareciam lixo empacotado com papel. Permaneceu muito quieto, não falando mais do que "sim" e "não" por todo o tempo que ficou ali. Anthony estava sentado ao seu lado, mas simplesmente não sentia coragem de começar nenhuma conversa. Até mesmo ele tinha ficado abalado com a história do garoto na noite anterior. Vendo que não poderia ajudar em nada, se levantou e foi para seu quarto. Durante a viagem que o tinha feito ficar preso naquele lugar, carregava consigo um único livro, que na época em que estava em sua casa, não tinha passado mais do que 2 capítulos lendo. Nesse momento, já havia lido o mesmo livro um total de 14 vezes.

Eytan terminou de comer e uma tristeza bateu em seu peito. Lembrou de Lindsay, é claro, mas começou a pensar principalmente a pensar na irmã. Colocou a mão em seu bolso. Retirou um colar prateado que tinha um pingente com uma única letra: "S". Nesse momento, alem da tristeza, começou a sentir algo mais. Um frio característico das noites naquela pousada. Inconscientemente chorou muito, estático, apenas parado no meio do hall olhando para o colar. Não havia ninguém ali para ver o ocorrido, ninguém ali para confortar Eytan. Ele estava sozinho chorando não pela perda de uma desconhecida que parecia interessada em ajuda-lo, mas chorando talvez por saudades da própria irmã e talvez por causa dos próprios pais. Não, era tudo pela sua irmã. E pensando nela, percebeu que não estava realmente sozinho ali no hall. Uma jovem ruiva estava na entrada olhando para ele. Conseguiu sair de seu estado de paralisia e olhou para o corpo que parecia o da sua irmã nesse exato momento. Ele desejou ardentemente dizer qualquer coisa, mas nenhuma palavra saiu. No fundo ele sabia que não havia nada a ser dito entre eles. Começou a desejar toca-la. Abraçar a própria irmã já seria o suficiente. Ela não devia ficar andando por ai no deserto, seu corpo é muito sensível, isso apenas trará mais mal.

Sarah fez um pequeno sinal com a cabeça, e começou a mover as mãos. Parecia sinalizar para que Eytan se aproximasse. Usava um vestido completamente branco, e o cabelo ruivo estava solto. Não havia vento algum naquele local, mas Eytan via o cabelo se movimentando, e o vestido, longo quase até os pés descalços, seguindo a mesma direção de seus fios avermelhados. Começou a se mover na direção dela, primeiro lentamente, quase que com medo de assusta-la e perde-la. Mas logo mudou de opinião e decidiu correr com tudo. Enquanto corria buscando alcançar aquele vulto a sua frente, a sentia cada vez mais longe. Contudo, o frio era cada vez mais presente. Achava que estavam se aproximando outros vultos pelas suas costas, e algumas vezes até mesmo olhou para trás, mas não visualizava ninguém. Ele já corria no deserto, e a pensão já estava se tornando apenas uma marca no fundo do horizonte. Ele temia perder a irmã. Contudo, ele não temia pela própria vida.

3

Richard voltava para a pensão. Estava genuinamente preocupado com Eytan pela noite passada, mas acreditava que o velho Anthony conseguisse convencer o garoto a tirar mais algum sono. Eles dependiam disso, afinal novamente eles teriam outra noite com os escorpiões, e talvez o próprio Eytan tivesse que contar outra história. Chegou na pensão e olhou para a porta com uma tristeza profunda. Decidiu passar em seu quarto para pegar algumas ferramentas e tentar cobrir o furo que o tiro da arma de Deric tinha feito. Antes disso, contudo, notou que o hall estava vazio. Entrou e cruzou o estreito corredor que levava até a cantina, que nada mais era do que outra sala, muito pequena, com um balcão em que sua tia costumava passar todo tempo por ali.
- Onde está o Eytan? - perguntou ao entrar.
A velha apenas meneou a cabeça e fez uma expressão de quem não estava interessada no assunto.

Richard sentiu naquele ponto que algo estava errado, e talvez Eytan corresse perigo. Saiu a passos largos e foi até o quarto de Anthony. Com duas batidas na porta, o velho abriu.
- O que aconteceu? - perguntou Anthony, não acostumado com gente batendo a sua porta com tanta força.
- O garoto, onde ele está?
- Ah, ele estava no hall agora mesmo, por quê?
- Estou com um mal pressentimento sobre isso - disse Richard olhando seriamente para Anthony. - O pior de tudo, eu nunca tenho pressentimentos.

Com essa frase absolutamente sem impacto, e que fez Anthony questionar a seriedade e lucidez do companheiro, eles se separaram, Anthony foi ao quarto do garoto, e Richard foi até seu próprio quarto. Torciam muito para que não tivesse acontecido com Eytan o que já havia acontecido com muitos logo após a primeira noite em contato com os escorpiões.

4

Eytan começou a se sentir arranhado. Nesse ponto, para todos os lados que olhava, via pessoas desfiguradas, se arrastando. Sua visão estava turva, e não conseguia ver muito alem do horizonte. As vezes sentia seu braço ser puxado, seu rosto ser cortado, e sua barriga ser atingida. Continuava apenas correndo a frente, tentando suportar uma dor que começava a se tornar tão insuportável que parecia surreal. Olhava sua irmã, mas ela parecia cada vez mais longe.

Então ela parou. Nesse momento, tudo que estava a sua volta voltou a ser como devia ser: um infinito nada chamado deserto. Mas havia algo mais. Andando rápido alcançou a própria irmã. Se ele tivesse verificado a própria pele e roupa, teria notado que estava intacto, como se nada o tivesse tocado durante o percurso. Mas naquele momento ele não estava interessado nisso. Ao chegar no ponto onde Sarah estava, conseguiu apenas vislumbrar um sorriso, depois ela desvaneceu em areia. Mesmo assim ele não estava sozinho ali. Deric estava de costas para ele, segurando um objeto que brilhava a distância, e parecia de alguma forma importante. Mais do que isso, Deric parecia culpado por segurar aquilo.

Eytan não estava mais dentro de si, muita coisa estava abalando sua mente nesse momento. Foi por essa razão que ele nem pensou, apenas correu na direção de Deric. Queria explicações, queria sua irmã e queria ir embora. Mas acima de tudo, queria acabar com o frio que corria por toda a sua alma no meio daquele deserto.

Deric demorou apenas dois segundos para largar o objeto que tinha e sacar seu revolver. "Eu devia ter adivinhado que isso ia acontecer de novo" pensou.
E no terceiro segundo já estava com Eytan sob a mira de sua arma, e seu destino sob seus dedos.