1
Ambos ouviram um tilintar de metal. Eytan não olharia. Tinha uma arma apontada na sua direção e nenhum anseio por morrer sem ver o próprio destino. No fundo, ele esperava por Dita; com os cabelos soltos e uma pistola na mão, apontada para Deric, com um ar de confiança no lugar de sua aura de menina frágil. Estava ficando louco, certamente.
Deric olhou. Viu Julia, com ataduras no braço e nos joelhos, e a espingarda de Richard na mão. Com a determinação que ela tinha até mesmo para escovar os cabelos. Ele sabia que morreria se fizesse qualquer movimento. Precisava pensar rapidamente e não levantar suspeitas...
“Viu, garoto? É assim que se faz! Agora você! Não se esqueça de segurar a arma na linha dos olhos”. Eytan tentou não parecer assustado. Sabia que se não encenasse, Deric o encontraria sozinho e sem tanta sorte numa próxima ocasião. Mas sabia principalmente que era péssimo tentando não parecer assustado.
Julia aproximou-se vagarosamente, com a arma abaixada de uma forma que pudesse pôr-se em posição com um simples suspiro do homem, mas decidiu fazer o seu papel asqueroso de quem acredita no que está acontecendo.
Ficaram os três se olhando por um instante, até que Eytan terminou com aquela situação constrangedora. “Outro dia continuamos, Deric. Estou com muito sono, vou para o quarto”.
2
Julia não conseguiu ficar mais do que cinco minutos em seu quarto. Precisava conversar com aquele paspalho que só arranjava mais confusão. Decidiu que entrar no quarto de Eytan pelo buraco na parede era melhor; não queria correr o risco de ficar esperando na porta indefinidamente.
“Você devia ser menos inocente.”. Eytan acordou assustado; não esperava ver Julia ali. Na verdade, esperava, mas não sem ter passado pela porta antes. Sabia que ela ansiava por saber o que estava acontecendo mais cedo no deserto. Ela merecia saber. Embora, mesmo com aquele ato, ele não conseguia perdoá-la por ter lhe tirado sua Mercedes.
“E você devia parar de pensar só em si mesma!”, foi o que o garoto pensou, porque obviamente não tinha coragem para dizer mais do que disse. “Oi?”.
“Você não devia participar d’O Círculo. O que foi que te disseram? Que precisavam de uma história? É sempre assim... e imediatamente as pessoas somem daqui. Só Deric é que permanece entre nós.”. Eytan fez a sua mais digna de pena cara de desamparo. Julia continuou: “Ninguém é confiável nesta pousada. As pessoas não são altruístas... Bem se vê que você é um garoto; não está pronto para viver no mundo real.”
Por um instante, tudo pareceu fazer sentido. Era muito mais fácil aceitar estar sendo enganado por todos do que decidir quem estava falando a verdade. Mas isso implicava que aquela moça deitada languidamente na sua cama também não era confiável... Uma indagação pôs fim à sua linha de pensamento... “Será que ela não consegue fazer nada com inocência!?”. Pensou em Dita, para afastar pensamentos que não desejava ter.
“Precisamos fugir daqui. Você tem um celular. Precisamos encontrar alguém que possa vir nos ajudar.”
3
“Abra a porta, garoto. Sou eu, Deric.”. Ele definitivamente não precisava ter dito. Aquela voz sepulcral não poderia ser de outra pessoa. Empurrou Julia para baixo da cama e foi abrir a porta.
Esfregou os olhos, fingindo estar acordando, “Oi...”. “Precisamos conversar, rapaz”.
Aquela figura o perturbava. Principalmente enquanto se dirigia à sua cama. Estava rezando pelo comportamento de Julia.
“Espero que você tenha uma história para essa noite, garoto. Você sabe porque é interessante que faça o que eu pedi.”. Eytan não conseguiu fazer mais nada além de menear a cabeça. Pelo menos isso fez com que aquele homem misterioso e claramente perigoso sumisse dali.
Sem nem um tempo pra respirar, assim que Deric fechou a porta do quarto atrás de si, Julia sussurrou ao seu ouvido: "Temos até hoje à noite, garotão.".
"Mas... não temos para quem ligar. Eu não tenho, você também não.", na verdade o que ele quis dizer foi: "eu não posso sair daqui sem Mercedes!", mas a tal da falta de coragem jamais o abandonaria.
A moça saiu, pela porta, dessa vez, com toda a fúria que ela sentia do destino estampada na cara.
Voltar a dormir parecia a melhor coisa a fazer.
4
Desta vez, acordou com uma pedra batendo no assoalho. Foi ver o que era, meio receoso, mas assim que percebeu se tratar de um bilhete, a curiosidade fez seu papel.
"Richard, vou te esperar atrás das pedras do morro. Dita"
Agora ele sentia algo. Não era coragem, convicção, medo... Era raiva. Somente.
Saiu do quarto para procurar Richard, com o bilhete na mão.
"Estúpido! Como foi que me apaixonei por ela!? Como acreditei naquele beijo? Estúpido! Mil vezes estúpido!", por um motivo facilmente explicável, a palavra "estúpido" não saia dos pensamentos de Eytan.
5
Richard polia sua espingarda, como sempre que precisava pensar em algo. Ou melhor, não pensar. A morte de Lindsay ainda o perturbava.
"Tá aqui o bilhete da tua namoradinha! Por que você nunca disse? Por quê?! Vocês todos são cúmplices! Estão todos querendo acabar com a minha vida; de todas as formas possíveis. Fica com ela! Fica! Eu...". Eytan volta a afundar o rosto na areia. Esse soco foi necessário.
Richard aproveitou que não tinha mais acusações para ouvir e pegou o bilhete. Leu-o, com uma expressão de incredulidade.
Aquela solitária frase trouxe à tona histórias que ele já tinha conseguido encarar como sonho, como algo irreal e inconcreto. Ou pelo menos era o que pensava até então. Queria Dita; tinha que ir encontrá-la.
Foi pegar seu casaco e uma lanterna. Estava escurecendo. Estava chegando a hora. Precisava encontrá-la e voltar logo.
6
Deric resolvia uma revista de palavras-cruzadas, quando uma batida muito suave na porta chamou sua atenção. "Quem é?". "Sou eu. Perdoe-me por aparecer aqui sem convite, mas eu precisava de alguém...", disse Julia, quase sussurrante.
Após uma certa hesitação, abriu a porta e deu com a menina de camisola, os olhos vermelhos e o rosto molhado. "Está bem?"
"Eu os vi. Meus pais estavam aqui. E era um aniversário. O meu aniversário. Eu sei que estavam aqui.", disse Julia, acelerando a fala com o decorrer da frase. "Eles eram iguais à recordação que tenho. Iguais!", nisso retoma o choro. Deric se oferece para buscar água para ela. Julia aceita.
Mal o homem fecha a porta do quarto, Julia vasculha a gaveta do criado-mudo. Encontra uma caderneta de telefones, meio escondida entre papéis sem importância. Não tinha como procurar ali, mas podia levá-la consigo e devolver no dia seguinte. Escondeu-a na camisola e voltou ao seu teatro. Já ouvia passos no corredor.
Ouviu o consolo e reconforto e voltou ao seu quarto, ainda com cara de sofrimento. Deric se limitou a se sentir aborrecido com aquilo de novo.
7
Já era possível avistar as pedras, apesar da escuridão que caia gradualmente sobre o deserto. O que não podia ser visto, porém, era Dita, mas era melhor ir até lá para ter certeza.
Nenhuma palavra lhe restou. Nada. Apenas um choro sem lágrimas. Dita estava ali sim, mas não como ele esperava vê-la.
Sem vestido colorido, nem cabelos no rosto. Sem sorriso tímido. No lugar da candura da menina, o que viu foi um vestido manchado de sangue e areia, um corpo esfolado e maltratado, e um rosto... um rosto que não conseguia olhar fixamente. Um rosto que era não mais do que um amontoado de carne destroçado por um disparo certeiro.
Ele já sabia que enterraria mais alguém até o fim do dia.