Capítulo 6
Estes Olhos que Vestem Preto
A noite já caía quando o cabo Montes fez uma última saudação, já do lado de fora, a porta da casa fechada. Desde que fora designado a esse cargo, já havia entregado esta mensagem a dezenas de viúvas, e nem por uma vez se provou menos árdua a tarefa. Enquanto declarara o comunicado formal, engolia em seco, lembrando a si mesmo que havia prometido nunca deixar escapar um 'desculpa' perante a família desgraçada. Mas naquele momento, no entanto, na companhia apenas da calçada e de sua própria vergonha, Montes pediu desculpas.
E ali permaneceu, como já não era incomum a ele quando a noite caía, a pensar sobre aqueles que já não mais tornaria a ver. Parentes com os quais não teria mais reuniões de final-de-semana desgastantes. Amigos que não lhe dariam nova oportunidade de discordar. Irmãos cuja memória de brigas já não causava dor. Montes pediu desculpas mais uma vez, e seguiu seu caminho.
***
O sol lançava seus primeiros raios mornos contra a cortina branca da janela. No entanto, o calor da luz fez pouco efeito no rosto da moça. Pela primeira vez desde que se podia lembrar (quanto tempo fazia, mesmo?), Lore não tivera um sonho ruim. Seus pensamentos acordados foram horríveis o bastante.
Augusto dormia o sono dos inocentes. Havia dormido como um anjo a noite inteira, mas ainda assim Lore nunca deixou a cadeira, ao lado do berço. Não poderia, nem que quisesse. Enquanto o observava dormir, com olhos vazios, Lore tentara se convencer de que tudo não passava de mais um pesadelo. Falhara.
***
Nos dias que seguiram, embora Lore não tornasse a falar do assunto, quem quer que a conhecesse bem era capaz de perceber no olhar perdido da moça. Sabiam que a moça que viajava ao coche pela manhã e escolhia legumes no armazém pela tarde estava ali em corpo apenas; a alma havia ido para a guerra, e não mais voltara.
Não tardou muito para que Pietro ouvisse do ocorrido. Era tarde de domingo, e sabia que a encontraria na feira. Correu até lá, mas logo que a viu, parou de supetão. E não parara apenas porque a vira; parara porque percebera que ele mesmo sorria.
Era um sorriso muito leve, mas ali estava. E Pietro sabia muito bem do que se tratava. Esta era a sua grande chance, o momento pelo qual havia esperado por todos esses anos. Lá estava ela, sozinha, e precisava dele como nunca- talvez quase tanto quanto ele sempre precisara dela. Ah, o quanto precisava dela...
Foi então que seus olhares se cruzaram. E assim que pôs os olhos nos dela, toda a satisfação de Pietro se esvaiu. Havia na moça alguma sorte de má aura, uma atmosfera de derrota tão forte que era como se fosse palpável. Se sentiu terrivelmente culpado. Quis andar até ela, quis dizê-la que estava ao seu lado para o que precisasse, mas não encontrava forças para mover-se ou falar. Deu um passo para trás lentamente, e depois outro, e quando se deu por conta, o olhar daquela moça, tão profundo e frio quanto a própria morte, havia sumido entre a mulditão de pessoas e frutas, carnes e tendas.
***
Na noite que se seguiu, o som da chuva forte no telhado emudecia tudo se não o som da caneta que rabiscava fervorosamente sobre o papel de carta, pela terceira ou quarta vez, na ânsia de se chegar ao fim antes de vê-lo descartado. Lore continuou:
Prezado Daniel Dolores,
Escrevo esta carta em confidência, a qual espero que honre. É bem verdade que nunca fomos muito próximos, o senhor e eu. Nosso único vínculo sempre foi o grande apreço que o senhor demonstrara por Marco.
Entretanto, meu dever como esposa me traz perante o senhor por meio desta carta. Esse dever me injeta com a força necessária para questionar, o esforço para buscar entender. Marco era um homem de bem. O que o levou a tamanha desgraça? Por que ninguém veio ao seu socorro? Onde estava o senhor quando seu amigo mais lhe precisou?
Marco era um homem de família. Deixa para trás mulher e filho. Em branda honestidade, e me perdoe por tanto: antes tivesse sido o senhor.
Mas que sua alma descanse em paz, porque se há algo de justo nesse mundo, verei o fim desta guerra de crianças e a queda de seus generais-moleques, que brincam deste ignóbil xadrez das nossas vidas.
Na esperança de que sua jornada o leve a melhores caminhos,
Lore de Leon.
Uma vez ou duas, a chuva torrencial quase o encorajou a bater à porta. Mas ali, sozinho em frente à casa da moça, observando a luz trêmula que vinha de dentro, Pietro sentia o frio da verdade. Não havia espaço para ele ao lado dela. Nunca haveria. Pietro pediu desculpas, e seguiu seu caminho.
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