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quarta-feira, 6 de março de 2013

Capítulo 14 - "Mi Juanita"

1

"Mi juanita, não me deixe. Como pode um homem como eu viver sem sua flor? Não se vá, Juanita, que minha vida agora é por ti" - Deric foi atirado de suas divagações e lembranças de volta ao mundo real. Tinha os olhos surpresos fixos na dona da pousada. Ela, que fazia não perceber, continuava sua declamação, amarga, ressentida: "Como podes amar alguém que te deixa sem amparo numa cidade como esta? Que não te responde cartas, menos então faz cortes ou desfia galanteios?". A mulher pronunciou a última palavra com asco, com olhos vermelhos; com a mesma expressão, tira o revolver do bolso do vestido largo.

2

"Minha vez de contar uma história...", Ao ouvir, Richard juntou-se aos demais, "... é a história de uma menina que abandonou o México por amor. Amor a um filho que não tinha lugar para nascer, que não seria tratado como merecem os inocentes. Uma menina que teve que ter coragem de buscar sozinha uma vida que não lhe batesse na cara, mas algumas pessoas nascem pra apanhar. Elas passam por todos os tipos de agressão que a vida conhece; até que elas decidam bater.", a dona da pousada seca uma lágrima com as costas da mão; sente o metal frio do revolver no rosto e um arrepio.
"Essa menina perdeu a pureza em meio às lágrimas de ódio e dor. Perdeu todos os sonhos afogados no sangue que a vida lhe tirou. Essa menina viu o amor de sua vida, pai de seu filho, morrer sem dizer palavra; viu seu assassino vangloriar-se por vencer o duelo. Entregou-se, grávida e contrariada, a um homem que a tratou como um animal, com sangue de seu amor nas mãos e todas as juras de ódio que ela era capaz sobre seu destino."

3

A dona da pousada caminha em direção de Deric, soturna, "Sempre um prazer revê-lo, meu galante senhor. Espero que lembre deste revolver; ele sentiu tua falta. Espero que o cheiro morno de sangue e meu grito de desespero permaneçam em tua memória."
Deric estava imerso em inanição. Via o brilho do revolver recém polido na linha dos seus olhos. Via suas iniciais do lado direito do cano. Não conseguia suplicar por sua vida, nem pedir perdão, apenas via Juanita, com o cabelo negro caindo no rosto, sua Juanita.
"Olha bem pra tudo aqui, Deric. Olha para o Richard, para mim. Eu vivi estes anos todos pelo dia que vingaria a inocência morta. Que faria sobrepôr este mundo torpe a família que sonhei."

4

"Não precisas ser uma assassina como ele! Tenho certeza que ele...", o momento de coragem de Eytan foi interrompido pela precisa espingarda de Richard. Ninguém conseguiu esboçar qualquer reação. Julia via o sangue escorrer pela cabeça do garoto; sentia quente como que escorresse em si.
Richard apontou a espingarda para Julia, "Por Dita.". A moça lentamente juntou-se a Eytan no centro do círculo, numa poça espessa e brilhante, cheirando à vingança morna.

5

Juanita continuou, "Aprendi com a vida que sangue se paga com sangue. Não há perdão a quem não se arrepende.", chegou mais perto de Deric, com o sorriso da adolescência, e puxou o gatilho, lentamente. Ele continuava inerte; com a mente no amor que teve e não morreu. Que não morreria, nem que ficasse sem um coração para se hospedar. Sentia seu sangue na palma da mão, como sentiu outrora o sangue de outro. Parecia que agora escorria mais devagar, mais saudoso. Em seu delírio, via a face de sua Juanita moça com rajadas vermelhas, sorrindo. Teve no rosto dela o último suspiro.

6

Pegou no bolso de Deric os cigarros, acendeu um, tragou profundamente e atirou o fósforo na trilha de combustível que Richard tinha feito pela pousada.
Todos se afastavam enquanto a pousada pegava fogo. Juanita parou ao longe para vê-la queimar, para sentir o cheiro de sangue em chamas.
Estava livre para seguir sua vida com seu filho. "Sangue com sangue foi pago"


Um comentário:

  1. Foi meio complicado retomar a história depois de tanto tempo, mas ela precisava de um fim.
    Espero que não tenha frustrado muita gente =)

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