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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Capítulo 8 - Em nome da minha pátria

Capítulo 8

"Em nome da minha pátria"


Algumas pessoas fomentam nos seus âmagos um plano de vida tão detalhado que em poucas noites insones já construíram uma carreira sólida e uma família feliz. Viriato era dessas pessoas.

Outras poucas pessoas conseguem construir, fora de suas mentes, uma carreira de sucesso e arrebatar o coração de uma adorável dama. Viriato não era dessas pessoas.

Desde criança construíra, pedra por pedra, o seu ideal de vida. Seria telegrafista, como o tio que o pai detestava, e casaria com Aleksandra, uma russa cuja família mudara-se para Portugal por motivos não exatamente claros e razoáveis.

O filho do meio de uma família com 3 filhos, cujo pai era também filho do meio. Há pouco a se fazer de mais insosso na vida que ser filho do meio.

A mãe era lavadeira e precisava de alguém para lhe ajudar; o filho mais velho era o orgulho e levaria o nome da família adiante, o filho mais novo não merecia trabalho tão ingrato, mas um filho do meio era do que ela precisava. Ela lavava, ele passava e engomava. Começara aos 11 anos e não esperava que fosse parar tão cedo.

***

Enquanto fazia o trabalho que a mãe lhe designava, treinava mensagens em código, como havia lhe ensinado o tio. O pai gritava: "Já não bastasse ter as fuças do traste do Antônio, ainda o gosto por essas porcarias velhas e inúteis! Só falta agora o arak e as mulheres sem carnes!". O arak lhe enjoava o cheiro, mas não se podia dizer que Aleksandra fosse uma mulher de carnes.

De tanto engomar e passar roupa, não havia código que já não dominasse. Decidiu prestar prova de telegrafista. Teria conseguido, tinha certeza, não fosse o pai lhe chamar e ameaçar-lhe para que não fizesse essa desgraça com a família.

Acabou um sonho.

***

Frustrado, agarrou-se ainda mais ao amor platônico e infantil que tinha por Aleksandra. Dividiam a classe, mas nunca lhe dirigira a palavra.

O fim do colegial e a proximidade da formatura tornava o ambiente escolar mais propício a... investidas. Por mais que a russa não fosse do tipo que falava muito, também não era muda.

Se não lhe era permitido investir na carreira, nada lhe foi dito que impedisse de investir no amor. "Oi... Eu... Eu sou Viriato", "Sim, eu sei". Acabou o assunto, pelos próximos 6 meses.

***

Voltaram a conversar 6 meses depois, na mesa de jantar da família de Viriato. "Pai, mãe, esta é Aleksandra, minha namorada", anunciava o irmão mais velho. Viriato apenas disse "Eu sou Viriato", "Sim, eu sei.".

Certamente perder pro irmão mais velho doia, mas ainda não tinha conseguido superar não poder ser telegrafista; e isto certamente lhe doia bem mais.

Já pensava em talvez passar a vida passando e engomando, afinal, quando não se tem perspectivas qualquer coisa é melhor do que a idéia de não ter nem isso. Quem sabe viria a casar com uma lavadeira e sua vida estaria mediocremente resolvida.

Era melhor parar de pensar e voltar a comer o bacalhau, antes que alguém lhe perguntasse o que estava se passando, ou, pior ainda, ele passasse mais tempo inerte e ninguém perguntasse nada.

***

Foi o raciocínio rápido, a boa memória e perspicácia no colégio que lhe trouxeram a proposta: "precisamos de um ajudante para a nação, que saiba ler bem e lidar com informações", disse-lhe, com ar de confidência, um homem com ar de empalhado.

Aceitou. O pai haveria de achar bom. Começou no trabalho no dia seguinte.

Decorar mapas, traçar rotas, relacionar características físicas de pessoas que não conhecia, fazia parte do seu trabalho diariamente. Já não queimava os dedos no ferro de passar e o pai estava incrivelmente satisfeito.

***

Em algum momento entre relacionar características físicas de desconhecidos, encontrou algo bastante familiar.

O indivíduo era, certamente, o pai de Aleksandra. Começava sua primeira missão como espião.

Não era como se gostasse, mas sempre se dedicou às coisas simplesmente por honestidade. "Faço em nome da minha pátria".


Um comentário:

  1. Só pra contradizer o Drews, não matei ninguém :)

    Decidi "fundamentar" o personagem que o Drews introduziu. Fui com a cara dele.

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