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sábado, 15 de junho de 2013

Capítulo 1 - Uma Gratidão Amarga

Capítulo 1

Uma Gratidão Amarga


Querida Lore,

Fico feliz que a febre do nosso pequeno Augusto tenha passado. Pode te parecer que em meio à guerra essa seria das menores preocupações que tenho, mas eu genuinamente pensava em pouco mais que isso nos últimos dias.

Nossa divisão teve sorte de ser alocada, desta vez, para uma vila relativamente pacífica em área já consolidada. Mesmo quando não é assim, saibas que tenho vocês sempre em mente. É o que mantém minha sanidade.

Mas não quero que te preocupes comigo, já tens o suficiente para resolver sozinha. Espero que até receberes esta carta já tenhas o emprego de que precisas. Senão, repasso uma indicação de meus colegas: aparentemente o próprio exército está contratando esposas de soldados para trabalhar em suas sedes administrativas, e sendo particularmente generoso com essas moças. Gonçalo conta que sua esposa foi contratada somente para manter as lareiras acesas, por apenas um turno, e que suas duas pequenas são mantidas durante o dia em aposentos do próprio exército, compartilhando uma babá com outras 6 crianças.

Peço que te inscrevas para um emprego do tipo, se ainda não o tiveres. Me parece a melhor solução para todos teus problemas, e certamente tiraria mais uma de minhas preocupações. Deus sabe que preciso disso. 

Com dolorosas saudades,
Marco

***

"Querido, não te preocupes, voltarei em poucas horas para te buscar." Apesar de todos os esforços de Lore, as lágrimas continuavam a escorrer no rosto de Augusto. Era natural que sofresse, após viver os seus primeiros 3 anos na total proximidade de sua mãe, ou pelo menos em ambientes familiares.  "Façamos assim: prometes te comportar e tentar te divertir um pouco, e depois que o coche nos deixar em casa faço um bolo de cenoura. Teu favorito!" A menção do bolo pareceu fazer algum efeito. "Mas só se te comportares e obedeceres à senhora Rosa. Combinado?"—o que gerou um aceno tímido da pequena cabeça. O bolo consumiria todo o açúcar a que tinha direito pelo mês, e que mal podia comprar, mas valeria a pena.

Com um beijo na testa do menino, pôde finalmente deixá-lo para ir trabalhar. Chegaria ligeiramente atrasada para o primeiro dia, mas com sorte isso seria tolerado. Afinal, após empregar tantas esposas e viúvas de soldados, já devem estar acostumados a lidar com esses problemas. 

Lore não podia deixar de sentir gratidão—pelo emprego de um turno, pelo salário melhor que em empregos comuns de dois turnos, pelo coche que a buscava em casa e pelos cuidados com seu pequeno Augusto. Uma gratidão marcada, porém, por um ligeiro amargor—a lembrança de que nada disso seria necessário, não fora seu marido chamado para a guerra pela mesma instituição que agora a ajudava.

***

Limpava um escritório que mais parecia a biblioteca de uma nobre mansão. A sede do Exército causava uma sensação estranha, contrastando o calor e delicadeza das lareiras, dos tapetes, das cortinas, das pinturas e da marcenaria ornamentada com a frieza e seriedade dos homens que lá trabalhavam e das decisões que lá eram tomadas. Uma secretária digitava incessantemente em uma máquina de escrever, sentada atrás de uma elegante escrivaninha de mogno. Outra servente viera pela terceira vez verificar o fogo da lareira.

Lore ainda não pudera conhecer o General Longo, líder do exército e ocupante do escritório que agora limpava futilmente, dado seu estado impecável. Aparentemente, a escrivaninha do General era limpa apenas enquanto ele estava fora, em reuniões.  Uma escrivaninha de mogno com detalhes em ouro, sobre a qual não havia um grão de poeira; apenas alguns papéis, e nem sob eles havia sinal de sujeira

A tinta sobre os papéis, no entanto, parecia desordenada, jogada casualmente para formar letras em ordem aleatória, sem sentido. Em um segundo olhar, porém... Algumas palavras pareciam familiares. Considerando os sons que Lore podia interpretar delas, pareciam vir daquele idioma grosseiro da nação inimiga. Alguns destes deselegantes termos que se infiltraram em nosso idioma.

Tais papéis—escritos no idioma do inimigo—pareciam estranhos, na escrivaninha do homem que dissera não haver mais espaço para diálogo—que mantivera tal posição durante os longos anos da guerra. Mas não cabia a Lore questionar tais cartas; era uma simples servente que pretendia manter o seu emprego e a segurança do filho.

***

"Filho, vou ao armazém. Prometes te comportar enquanto não volto?"

"Prometo", se esforçou Augusto a responder com a boca cheia de bolo. Lore temia deixar o filho sozinho em casa por muito tempo, mas não havia solução enquanto estava sozinha, e o marido longe lutando na guerra.

Enquanto caminhava diligentemente, mal percebia o caminho tão familiar a seu redor—principalmente dadas as preocupações que tinha—, até ser surpreendida por uma voz estranha.

"Olá! Deves ser Lore Flores, não?", perguntou a moça jovem e desconhecida que aparecera ao seu lado.

"Sim," respondeu Lore secamente, "conheço a senhora?"

"Ah, desculpe-me! Sou Mara Rodrigues, irmã de Lúcia Fraga. Vim ajudá-la com a taverna, agora que seu marido faleceu."

Ah, a irmã da pobre Lúcia! Lúcia e Lore foram grandes amigas desde crianças, embora disputassem a mão de Felipe Rodrigues. Desde o noivado dos dois, Lore manteve alguma inveja da amiga—até que a guerra começou e Felipe foi um dos primeiros convocados. Sete anos depois, foi baleado fatalmente em uma patrulha, em território considerado seguro. Isso fora apenas um mês atrás.

"Ah, Mara, prazer em conhecê-la", disse Lore, agora amigavelmente. "Ainda bem que vieste ajudar, a pobre Lúcia já penava para manter a taverna sem o peso do luto. Nas últimas semanas tem uma aparência tão sofrida que sua sobrevivência quase surpreende."

"Por sorte dela nunca casei, então pude vir ajudá-la.  Soube que teu marido também foi chamado, e que agora trabalhas para o exército. Deve ser interessante trabalhar tão perto de onde as decisões são feitas."

"As condições do trabalho são de fato muito boas."

"E a emoção de ver as decisões sendo tomadas? Deves ficar muito mais a par dos desdobramentos da guerra do que os cidadãos comuns". Havia algo de estranho no interesse—quase excitação—de Mara, um pouco exagerado.

A conversa foi, porém, interrompida: chegavam à porta do armazém. Lore despediu-se de Mara, e o preço das cebolas racionadas a distraiu de suas desconfianças.

Um comentário:

  1. A ideia dessa história vinha se desenvolvendo nas ultimas duas semanas, e finalmente consegui escrever algo :)

    Espero ter conseguido mostrar bem o ambiente e o clima da história. Também tentei deixar vários pontos a serem explorados pelo próximo escritor.

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