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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Capítulo 2 - Tempo

Capítulo 2

Tempo


Pietro afiava sua faca favorita contra uma pedra de amolar quando a viu pela primeira vez. Ela tinha os cabelos escuros, a pele clara e os olhos verdes mais bonitos deste lado do Oceano Escuro. Ele era só um filho de ferreiro, sujo do ofício e sem lugar no mundo. Por isso, quando se viu sentado sobre o muro, afiando sua faca e observando Lore escolher entre cebolas e tomates, Pietro sorriu. "Algumas coisas nunca mudam", disse para si mesmo. Desceu num salto e correu até o armazém.

"Adivinha quem é?", disse Pietro, cobrindo os olhos da moça por detrás, com a mão direita. Lore se surpreendeu por um breve segundo, mas logo reconheceu a voz do amigo de infância.
"Hm... Pietro?", respondeu sorrindo de leve.
"Droga, e eu achando que me passava por General Longo", disse o rapaz. Lore sorriu.
Pietro sempre foi assim, desde que eram tão pequenos que conseguiam roubar bolo da cozinha da velha Rita sem serem vistos. Bom, ele conseguia. Se tinha algo que Pietro fazia melhor do que ignorar regras, era ser rápido e silencioso. Mesmo depois de homem feito, não era raro ouvir de alguma peripécia da qual Lore sabia que só ele seria capaz. Era como se o tempo e a guerra não fossem capazes de domar seu espírito de criança.

"Como andam as coisas? Eu não te vejo há dias", perguntou o rapaz. Pietro era um dos poucos homens jovens que restavam na pequena cidade. A guerra havia levado quase todos homens saudáveis, de uma forma ou de outra. Embora fosse consideravelmente forte, o acidente na forja que o fez perder a mão esquerda anos atrás garantiu que nunca seria convocado. Mas Lore tomava o cuidado de não tocar no assunto- parte dela achava que, se tivesse a opção, Pietro escolheria estar na guerra.

"Tudo vai bem", respondeu Lore. "Augusto está crescendo rápido e Marco disse que foi enviado para uma região sem conflitos. Ahh, e eu consegui um trabalho", acrescentou, sucinta.
"Ele disse quando volta?", perguntou Pietro, como que tivesse ignorado o restante da resposta.
"Disse que vai mandar nova carta assim que possível, sim", respondeu de imediato.
Pietro pensou por um segundo, incerto. "Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, não é?"
"Eu sei, Pietro", disse Lore, e gentilmente lhe beijou a testa.
Lore sabia o que Pietro sentia por ela. Mas, depois de tanto tempo, ver o rapaz evocava em Lore sentimentos mistos de nostalgia e tristeza, e ela preferia não pensar a respeito. Já não eram mais crianças. Os tempos haviam mudado.

***

De volta em casa, Lore tratou de seus afazeres domésticos e se recolheu cedo. Enquanto esperava Augusto cair no sono, pegou-se pensando em seu novo trabalho. Segundo os comentários que havia ouvido das demais, era bem provável que o excelentíssimo General Julius Longo estivesse presente no dia seguinte. Estava estranhamente ansiosa para conhecê-lo.

Diziam que o general era um homem enrijecido pelo tempo. Diziam que havia lutado e tomado um acampamento inimigo acompanhado de apenas três homens de confiança, quando mais jovem, e que já esteve tão perto de morrer que era como se já estivesse morto. Lore se perguntou como poderia um homem como esse, que já viu a morte em todas suas mil faces, ser capaz de se agarrar à vida.

A vida se provara mais difícil do que outrora imaginara, em seus tempos de menina. Seus pais partiram juntos, já havia muitos invernos. Eram apenas ela, Marco e o pequeno Augusto. E agora Marco a deixara. O chamado da guerra, irrefutável.
"Mas ele certamente voltará", se assegurou. "Ele tem de voltar. Se ele não voltar..."
Calou-se. O mero pensar no assunto era o suficiente para lhe fazer estremecer. Não havia hesitado até então, não seria essa noite que o faria. Virou-se e deixou o sono lhe tomar.

Naquela noite, como em todas as noites, Lore teve um sonho ruim. As pessoas eram armas e matavam umas as outras por medo. O tempo andava de costas e dançava na ponta da adaga.

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