1
Richard chegou e olhou a tia com uma expressão dura, mas claramente de tristeza. Vinha trazendo algumas cobertas, e as pousou carinhosamente sobre Lindsay.
- Quanto tempo mais? - perguntou sua tia. - Quantos mais terei que ver morrer?
Ele não foi capaz de dar resposta alguma naquele momento. Não foi capaz de sequer encarar ela nos olhos. Apenas se abaixou e tirou Lindsay dos braços dela e começou a move-la para o deserto. Era a primeira pessoa que Richard estava enterrando naquele dia, mas não seria a última.
2
Eytan estava comendo mais um dos saborosos sanduíches que pareciam lixo empacotado com papel. Permaneceu muito quieto, não falando mais do que "sim" e "não" por todo o tempo que ficou ali. Anthony estava sentado ao seu lado, mas simplesmente não sentia coragem de começar nenhuma conversa. Até mesmo ele tinha ficado abalado com a história do garoto na noite anterior. Vendo que não poderia ajudar em nada, se levantou e foi para seu quarto. Durante a viagem que o tinha feito ficar preso naquele lugar, carregava consigo um único livro, que na época em que estava em sua casa, não tinha passado mais do que 2 capítulos lendo. Nesse momento, já havia lido o mesmo livro um total de 14 vezes.
Eytan terminou de comer e uma tristeza bateu em seu peito. Lembrou de Lindsay, é claro, mas começou a pensar principalmente a pensar na irmã. Colocou a mão em seu bolso. Retirou um colar prateado que tinha um pingente com uma única letra: "S". Nesse momento, alem da tristeza, começou a sentir algo mais. Um frio característico das noites naquela pousada. Inconscientemente chorou muito, estático, apenas parado no meio do hall olhando para o colar. Não havia ninguém ali para ver o ocorrido, ninguém ali para confortar Eytan. Ele estava sozinho chorando não pela perda de uma desconhecida que parecia interessada em ajuda-lo, mas chorando talvez por saudades da própria irmã e talvez por causa dos próprios pais. Não, era tudo pela sua irmã. E pensando nela, percebeu que não estava realmente sozinho ali no hall. Uma jovem ruiva estava na entrada olhando para ele. Conseguiu sair de seu estado de paralisia e olhou para o corpo que parecia o da sua irmã nesse exato momento. Ele desejou ardentemente dizer qualquer coisa, mas nenhuma palavra saiu. No fundo ele sabia que não havia nada a ser dito entre eles. Começou a desejar toca-la. Abraçar a própria irmã já seria o suficiente. Ela não devia ficar andando por ai no deserto, seu corpo é muito sensível, isso apenas trará mais mal.
Sarah fez um pequeno sinal com a cabeça, e começou a mover as mãos. Parecia sinalizar para que Eytan se aproximasse. Usava um vestido completamente branco, e o cabelo ruivo estava solto. Não havia vento algum naquele local, mas Eytan via o cabelo se movimentando, e o vestido, longo quase até os pés descalços, seguindo a mesma direção de seus fios avermelhados. Começou a se mover na direção dela, primeiro lentamente, quase que com medo de assusta-la e perde-la. Mas logo mudou de opinião e decidiu correr com tudo. Enquanto corria buscando alcançar aquele vulto a sua frente, a sentia cada vez mais longe. Contudo, o frio era cada vez mais presente. Achava que estavam se aproximando outros vultos pelas suas costas, e algumas vezes até mesmo olhou para trás, mas não visualizava ninguém. Ele já corria no deserto, e a pensão já estava se tornando apenas uma marca no fundo do horizonte. Ele temia perder a irmã. Contudo, ele não temia pela própria vida.
3
Richard voltava para a pensão. Estava genuinamente preocupado com Eytan pela noite passada, mas acreditava que o velho Anthony conseguisse convencer o garoto a tirar mais algum sono. Eles dependiam disso, afinal novamente eles teriam outra noite com os escorpiões, e talvez o próprio Eytan tivesse que contar outra história. Chegou na pensão e olhou para a porta com uma tristeza profunda. Decidiu passar em seu quarto para pegar algumas ferramentas e tentar cobrir o furo que o tiro da arma de Deric tinha feito. Antes disso, contudo, notou que o hall estava vazio. Entrou e cruzou o estreito corredor que levava até a cantina, que nada mais era do que outra sala, muito pequena, com um balcão em que sua tia costumava passar todo tempo por ali.
- Onde está o Eytan? - perguntou ao entrar.
A velha apenas meneou a cabeça e fez uma expressão de quem não estava interessada no assunto.
Richard sentiu naquele ponto que algo estava errado, e talvez Eytan corresse perigo. Saiu a passos largos e foi até o quarto de Anthony. Com duas batidas na porta, o velho abriu.
- O que aconteceu? - perguntou Anthony, não acostumado com gente batendo a sua porta com tanta força.
- O garoto, onde ele está?
- Ah, ele estava no hall agora mesmo, por quê?
- Estou com um mal pressentimento sobre isso - disse Richard olhando seriamente para Anthony. - O pior de tudo, eu nunca tenho pressentimentos.
Com essa frase absolutamente sem impacto, e que fez Anthony questionar a seriedade e lucidez do companheiro, eles se separaram, Anthony foi ao quarto do garoto, e Richard foi até seu próprio quarto. Torciam muito para que não tivesse acontecido com Eytan o que já havia acontecido com muitos logo após a primeira noite em contato com os escorpiões.
4
Eytan começou a se sentir arranhado. Nesse ponto, para todos os lados que olhava, via pessoas desfiguradas, se arrastando. Sua visão estava turva, e não conseguia ver muito alem do horizonte. As vezes sentia seu braço ser puxado, seu rosto ser cortado, e sua barriga ser atingida. Continuava apenas correndo a frente, tentando suportar uma dor que começava a se tornar tão insuportável que parecia surreal. Olhava sua irmã, mas ela parecia cada vez mais longe.
Então ela parou. Nesse momento, tudo que estava a sua volta voltou a ser como devia ser: um infinito nada chamado deserto. Mas havia algo mais. Andando rápido alcançou a própria irmã. Se ele tivesse verificado a própria pele e roupa, teria notado que estava intacto, como se nada o tivesse tocado durante o percurso. Mas naquele momento ele não estava interessado nisso. Ao chegar no ponto onde Sarah estava, conseguiu apenas vislumbrar um sorriso, depois ela desvaneceu em areia. Mesmo assim ele não estava sozinho ali. Deric estava de costas para ele, segurando um objeto que brilhava a distância, e parecia de alguma forma importante. Mais do que isso, Deric parecia culpado por segurar aquilo.
Eytan não estava mais dentro de si, muita coisa estava abalando sua mente nesse momento. Foi por essa razão que ele nem pensou, apenas correu na direção de Deric. Queria explicações, queria sua irmã e queria ir embora. Mas acima de tudo, queria acabar com o frio que corria por toda a sua alma no meio daquele deserto.
Deric demorou apenas dois segundos para largar o objeto que tinha e sacar seu revolver. "Eu devia ter adivinhado que isso ia acontecer de novo" pensou.
E no terceiro segundo já estava com Eytan sob a mira de sua arma, e seu destino sob seus dedos.
Demorado como sempre, mas aqui está o maldito capítulo.
ResponderExcluirEsse em especial me causou o seguinte problema... eu não queria seguir o ritmo do último capítulo, mas não queria mudar o foco bruscamente para outro personagem (uma mania que não consigo controlar). Mantive a Júlia esquecida nesse capítulo e foquei no querido Eytan que depois de rever um trecho do passado achei interessante incluir alguns efeitos colaterais.
Resta saber se ficou interessante.