1
Ao cair da noite, Eytan olhou ao seu redor. Todos estavam sentados, suas cadeiras formando um círculo.
A velha dona da pousada se retirou logo que os preparativos estavam razoavelmente organizados.
Julia não estava, como ele já imaginara. Essa noite ele iria testemunhar aquilo que ela tão fortemente lhe pediu que evitasse.
Anthony sentou-se ao seu lado. "Calma, meu jovem. É natural ficar nervoso.", esclareceu.
"Agora, por favor, conte-nos a sua história.", disse e sorriu.
"Eu... não sei por onde começar", disse Eytan, olhando em volta, nervoso.
"Comece por onde lhe for mais conveniente.", completou Anthony.
Havia mais do que isso. Eytan não gostava de contar essa história.
Mas percebeu que. na situação na qual se encontrava, não havia escolha a não ser
lhes falar o que queriam ouvir. Colocou a mão no bolso; ainda estava lá.
Súbito, um som baixo chamou a atenção de Eytan.
Era como o farfalhar das folhas secas ao vento.
Conforme Eytan se concentrava, o som ficava cada vez mais alto e evidente. Até que percebeu.
Era o som dos escorpiões.
Escorpiões de um vermelho escuro cobriram o chão ao redor dos pés de Eytan.
Eram tantos que não podia ver o piso de madeira por debaixo deles.
Eytan se apavorou com aquela visão. No terror, gritou tão alto quanto pôde.
Sua voz não quis sair.
...Sentiu um leve tapa no ombro.
"Não se preocupe. Todos nós os vemos volta e meia.", Anthony o confortou.
Eytan voltou os olhos para o piso. Tudo estava como sempre foi, as leves nuances da madeira velha desenhando um padrão que só o tempo conhece.
"Por favor, prossiga".
2
Já era hora. Dita abriu a porta do quarto da forma mais silenciosa possível, e observou
a porta na outra extremidade do corredor por um segundo. Eytan ainda não havia voltado do jantar.
Respirou fundo, encostou a porta e atravessou o corredor escuro.
Julia a esperava sentada em sua cama, e a recebeu com um sorriso menos animado que o costume.
Parecia mais séria, menos disposta a brincadeiras ou jogos. Ao perceber isso, Dita estremeceu.
"Eu vou ser direta: você está pondo Eytan em perigo."
Mercedes a ouviu, incrédula por um segundo. Julia aproveitou:
"Hoje mais cedo, a ligação. Eram eles. Sabem que você está aqui."
Mercedes não queria admitir, mas já temia que seria isso que ouviria.
"A única forma de manter Eytan a salvo é entregando você a eles.", continuou Julia.
'E mais um ace', pensou Julia, orgulhosa do seu intelecto. Só havia um resultado possível nessa barganha:
a mexicana iria se entregar para evitar machucar o seu benfeitor. O melhor de tudo
é que seria capaz de terminar com essa história sem que Eytan jamais percebesse a tempo.
Era um plano simples: muito embora tenham exigido que os três estivessem presentes essa noite,
provavelmente o fizeram por precaução. Argumentaria que Eytan sequer fora informado deste encontro, e portanto
não poderia interferir de forma alguma.
Ao mesmo tempo, ao término da troca, Eytan já não seria mais necessário. Sim, Julia detestava dirigir, mas isso não
iria pará-la de desaparecer desse lugar de uma vez por todas. De qualquer forma, não é como se Eytan fosse cogitar aceitar essa troca,
e lhe servir de choffer enquanto a escoltava embora desse inferno.
Pensando assim, isso não era apenas o melhor plano possível. Era também o único.
"...me desculpe, mas não posso aceitar isso.", Mercedes interrompeu seus devaneios.
3
Eytan ainda não podia aceitar o que havia testemunhado poucos segundos atrás.
Era sobre isso que todos falavam? Era isso que Julia o havia advertido a evitar?
Lembrou da conversa com Anthony- sanidade.
"Não pode ser", pensou consigo. Até ontem se sentira perfeitamente bem. Como poderia enlouquecer da noite para o dia?
Os Escorpiões. Não, não os aracnídeos. As pessoas, "Eles". Segundo Anthony, eram estes os que 'levavam' aos hóspedes.
Mas nunca teve contato com nenhum deles. A não ser que... eles estivessem aqui, sentados neste círculo?
Sentiu a cabeça pesada. Havia algo na bebida? Precisava ser a bebida. Nada mais lhe ocorria.
Deric observava o comportamento de Eytan.
"Eu avisei que era muito cedo pra trazê-lo.", murmurou cabisbaixo, com ar de desaprovação.
"Foi você, não foi, velho?", Deric dirigiu-se a Anthony.
"Agora não é hora para isso, Deric.", censurou o senhor. Deric não respondeu.
Só então Eytan percebeu algo crucial: Deric mantinha o revólver ao alcance da mão a todo momento.
Esse detalhe, somado aos disparos que havia ouvido noite passada, muito contribuíram para o mal-estar que Eytan sentia.
"Rapaz, eu entendo que tenha várias dúvidas nesse momento, e eu prometo que, com o tempo, todas serão saciadas, mas agora é importante que você continue a sua história.", ressaltou Anthony.
Enquanto falava, alguns últimos atrasados se sentavam no círculo, que tinha ao menos umas vinte cadeiras velhas.
Deric se certificava de que a porta estava bem barrada, como era de costume.
Naquela atmosfera opressiva, Eytan teve a impressão de que talvez as coisas não fossem como pareciam.
Talvez não haja ninguém lá fora, e a porta na verdade sirva para nos manter do lado de dentro.
4
"O que você disse?", perguntou Julia.
"Eu... não posso fazer isso.", respondeu a moça.
"E eu posso saber qual seria o motivo?"
"Eytan é um bom rapaz. Mas eu não posso voltar.", disse com um olhar determinado.
Julia sorriu e virou os olhos. "Então o que você está dizendo é que não se importa com o que venham a fazer com ele?"
Mercedes respirou fundo.
"Eu sei que Eles não entram aqui, Julia.". Mantinha uma calma admirável, frente àquelas circunstâncias.
Julia ficou séria. Nada a incomodava como ter seus blefes desmascarados. "Então o quê? Vai se esconder aqui pra sempre?", indagou segurando a fúria.
"Eu... vou pensar nisso depois.", respondeu, e se virou para voltar ao quarto de Eytan. Com sorte o faria antes que ele retornasse do jantar.
Julia havia se preparado para o pior."Não se depender de mim.".
Segurou Dita por trás, e cobriu sua boca e nariz com um pano embebido em algum líquido de cheiro nauseante.
Mercedes se debateu por alguns segundos, mas em pouco tempo cedeu, e perdeu a consciência.
"Agora, a parte complicada. Preciso dar um jeito de tirar ela daqui sem ser pega no flagra. Não posso descer as escadas, estão todos lá embaixo.".
Trancou a porta do quarto. Freneticamente vasculhou todo o lugar por qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lhe ocorreu então que só havia uma maneira.
Amarrou todos os trapos, lençóis e toalhas que encontrara.
"Eu sempre quis fazer isso.", sorriu sozinha.
Primeiro desceria Dita, amarrada pela cintura. Percebeu que levantar um peso morto não era tão fácil quanto imaginara. Deu a volta no pé da cama com os trapos e o fez de roldana. Sabia se virar.
Quando estava quase concluindo o trabalho, deixou enfraquecer a pegada por um instante, o que lhe custou um bom metro e meio de panos. Quando recuperou o controle, era tarde: Dita já estava no chão empoeirado do lado de fora.
"Com sorte não quebrou nada importante.", comentou Julia consigo mesma.
Em seguida, desceu ela mesma. Foi consideravelmente mais simples, bastando amarrar os panos ao pé da cama. Era pesada demais para Julia mover sozinha, mesmo sem o criado-mudo que acabara de colocar sobre ela.
Levantou Mercedes como pôde. Felizmente, a moça era consideravelmente leve, como indicava sua altura e porte físico. Também não parecia estar ferida, o que era ótimo, considerando que se tratava de sua moeda de troca esta noite. Pegou-a no colo, e se arrastou lentamente em direção à frente da pousada.
5
"Meus pais eram pessoas muito boas. Mas como muitos de vocês aqui devem saber, o mundo lá fora não é grato para gente assim.", disse Eytan, os olhos todos voltados para ele em silêncio sepulcral.
"Eram pessoas simples. Quando mais jovens, os dois trabalhavam juntos em qualquer oportunidade que encontrassem. Quando eu nasci, minha mãe passou a cuidar mais da casa, e coube ao meu pai manter a comida na mesa."
"Cada dia era uma batalha, como ele mesmo dizia. Mas de alguma forma ele parecia sempre dar um jeito, e quando minha irmã nasceu, nos mudamos pra uma casa mais afastada da cidade; branca e simples, mas grande o bastante."
"Eu e minha irmã costumávamos brincar juntos no campo que se estendia ao redor da casa. Era grande e bonito, e tinha uma árvore enorme que, no tempo, eu achava que alcançava o céu."
Foi interrompido por uma agitação que parecia se formar. Era a respeito de Lindsay.
Aparentemente, a moça não queria participar do círculo esta noite.
"E quanto a Julia? Ela nunca participou!", exclamou a moça.
"Isso não se trata de Julia. Sente-se.", respondeu Deric, sério.
Relutante, a moça se sentou na cadeira que Deric lhe indicou.
Eytan continuou.
"Certo dia, meu pai chegou em casa antes do fim da tarde. Era seu hábito chegar apenas ao anoitecer.", prosseguia Eytan.
"Eu e minha irmã..."
Nesse momento, alguém pareceu descer as escadas. Uma menina ruiva com cerca de uns dez ou onze anos.
Era sua irmã.
Sua irmã estava ali, nos degraus da escada. Sua irmã, que deveria ter por volta de vinte anos, estava ali à sua frente, e era nada mais que uma criança.
Todos se voltaram e observaram a menina que descia a escada. Era pálida, mas bonita. E sorria.
Eytan não sabia como explicar o que estava acontecendo, mas sentiu-se compelido a continuar. Ainda que ninguém insistisse.
"Naquela tarde, eu e minha irmã brincávamos no campo como sempre. Minha mãe estava preparando o café."
A menina atravessou sorridente por entre o círculo de cadeiras e correu em direção à árvore.
"Não corram muito longe! Está quase pronto!", exclamou a mãe, enquanto cuidava as crianças pela janela da casa, mais afastada do círculo.
"Lembro que ela vestia um vestido branco simples, tão claro quanto o seu sorriso.", recordou Eytan, nostálgico.
"Na época eu não tinha a menor ideia, mas a verdade é que meu pai estava envolvido até o pescoço com dívidas. Havia pedido emprestado para alguns homens dos quais nem sabia os verdadeiros nomes.
Naturalmente, era uma armadilha. Em pouco tempo, não apenas lhe haviam tirado todas as economias, como também a paz: era perseguido e monitorado constantemente, e não se passava um dia sem receber
algum aviso para 'lembrá-lo' da boa fé de seus credores."
Nisso surgiu seu pai, nervoso, correndo, tropeçando sobre os móveis e o que quer que visse pela frente.
Correu até sua mulher e a abraçou com força. "Eles estão vindo!", exclamou em pânico.
Afastou-se um pouco e a fitou nos olhos. "Por favor me perdoe...", suplicou.
As lágrimas rolaram silenciosas sobre o rosto dela. Percebeu que não podia ser perdoado pelo que havia feito.
"Tudo isso... Eu fiz tudo isso por nós! Pelas crianças!", grunhiu o pai, fora de si.
Batidas na porta. Eles já haviam chegado!
"Rápido, pelos fundos!", disse o pai, em desespero.
As batidas na porta se tornaram mais fortes.
Eles haviam vindo. Para lhe tomar tudo que ainda lhe restava.
"Depressa!", disse, enquanto corriam ambos em direção à grande árvore algumas dezenas de metros afastada da casa.
As batidas na porta se tornaram murros.
Chegou ao pé da árvore e olhou ao seu redor. Não havia onde se esconder, não havia como fugir.
Mas precisava escondê-la. Não podia deixar que lhe levassem tudo.
Ouviu o claro som da porta sendo derrubada.
"Suba, depressa!", disse para sua mulher. E assim ela o fez, agarrando-se aos galhos mais baixos e escalando como melhor podia.
Não podia deixar que lhe levassem tudo. Havia algo muito importante que havia deixado para trás.
Decidiu por voltar à casa.
"Onde você vai?", perguntou perplexa a mulher.
"Suba! Suba o mais alto que puder! E não olhe para trás!", disse e correu de volta à casa.
E assim ela o fez. Subiu, e continuou, e quando cansou subiu ainda mais.
Quando finalmente parou, percebeu que já não podia mais ver o chão.
De fato, podia ver apenas galhos e folhas. Não podia ver a casa, e não podia ver o céu.
O silêncio imperou por alguns minutos. Seu marido não havia voltado. Poderiam aqueles homens terem achado o que procuravam, e então decidido por ir embora?
Em seguida, ouviu passos se aproximando. E um assovio que cantava alguma música infantil.
"Eu sei que você está aí em cima.", disse o homem que assoviava. Ela ouviu e tremeu.
"Por que você não desce aqui para nós conversarmos melhor?", disse o homem, calmo.
Ela não respondeu.
Ele riu. "Muito bem."
Novamente silêncio. Em poucos minutos, o homem volta.
"Você não vai acreditar no que eu tenho aqui. Vou dar uma dica: última chance para descer."
Novamente não houve resposta.
"Me desculpe por isso. Você tem que entender que, aqui, é a sobrevivência do mais forte.", disse o homem, e derrubou a árvore a machadadas.
6
Julia se aproximava da frente da pousada. Tão logo conseguiu abrir caminho pela noite escura, avistou dois vultos, afastados da frente da pousada, mas olhando fixamente em sua direção.
Eram eles. Se aproximou, trazendo Mercedes consigo.
Os homens encapuzados a observaram em silêncio.
"Onde está o carro?", perguntou ela.
"Em um local seguro.", respondeu um dos homens. "Venha conosco.", disse, e o outro pegou Mercedes nos braços e a carregou pelo restante do trajeto.
7
Eytan silenciou, exausto.
Ali estavam apenas ele e os demais integrantes do círculo, ainda sentados como quando começou. Não havia árvore, não havia sua mãe e seu pai, tampouco havia sua irmã.
Certamente não se sentia bem, mas não sabia descrever o que lhe passava. Estava muito cansado.
O círculo lhe observava em silêncio. E não sem motivo; era incomum ouvirem uma história dessas de um recém-chegado.
Anthony esboçou um sorriso por entre as barbas, o qual Deric ignorou sumariamente.
Nesse momento, ouviram um som alto.
Uma cadeira caindo sobre o velho chão de madeira.
Lindsay se arremessou em direção à porta, atravessando o círculo.
"Droga!", gritou Deric. Estava distraído! Procurou sua arma: não a encontrou!
Lindsay se batia freneticamente conta a porta barrada, e a cada novo empurrão ambas pareciam ceder mais.
"Lindsay, não!", alertou Deric, enquanto se levantava.
"Se afaste!", Lindsay se virou, a arma de Deric apontada contra o verdadeiro dono. "Saia de perto de mim!".
Segurando o revólver com as duas mãos, Lindsay apontou para a porta e disparou. Com um estouro grave, ela se abriu.
Em seguida, silêncio. Um segundo rugido ecoou.
Lindsay caíra de bruços, por sobre o vão da porta. Em sua rubra imobilidade, parecia fitar a escuridão do lado de fora.
Richard se mantinha também estático, como que preparado para um segundo tiro de sua espingarda. Relaxou a posição apenas vários segundos depois, a fumaça ainda soprando dos canos.
Ninguém ousava proferir uma palavra.
Eytan observou aquela cena, horrorizado.
Medo, ansiedade, culpa. Uma enxurrada de sentimentos lhe passaram pela mente naquele instante.
Medo, ansiedade, culpa, e uma porta aberta.
Então ele correu.
8
Quando Julia chegou no ponto de encontro, um vento gélido soprava violentamente. "O sinal deles.", pensou consigo mesma. Estava muito escuro, e mesmo que não estivesse, não poderia ver a pousada de tal distância.
Luzes extremamente claras se acenderam. Quando Julia se acostumou com a luminosidade, percebeu que eram os faróis de um carro, logo à sua frente.
Do carro, desceram pessoas encapuzadas, cobertas em mantos acinzentados.
Dentre eles, um se destacava. Claramente um homem mais velho, a grisalha barba por fazer lhe escapando o capuz que cobria o rosto. Era Ground.
Ele se dirigiu aos homens encapuzados que a acompanharam.
"Tragam Mercedes até mim."
O homem que a trazia no colo se aproximou, e Ground observou o rosto da moça por um segundo. "Tão linda quanto a mãe. Ponham-na no carro.", disse, monótono, sem esboçar qualquer hesitação.
"Onde está Eytan?", disse o velho.
"Ele não será necessário. Eu tenho aqui o que vocês querem, e vocês tem o que eu preciso. Vamos terminar logo com isso.", respondeu Julia, calculista mas nervosa.
"...acho que você não me entendeu, mulher.", disse Ground, que a circulava lentamente.
Aproximou-se até o ouvido de Julia. "Onde está Eytan?"
Julia o repeliu, com asco. "Ele não sabe de nada! Ele nunca viu os escorpiões! Vocês não podem levá-lo!"
Ground se afastou, analisando em seu silêncio. Era impossível ver seu rosto contra os faróis.
"Talvez. Mas... você já os viu, não é mesmo?", disse, o tom apático ainda na voz.
"Levem-na".
Só então Julia abriu os olhos para o que se passava ao seu redor. Como pôde ser tão tola?
Os homens de Ground se aproximaram a fim de imobilizá-la. Julia tentou correr pelas areias turvas, mas em vão. Tão logo caiu de joelhos, os homens encapuzados lhe seguraram.
Como pôde não ter visto isso antes? Realmente esperava que lhe fossem deixar sair assim? Todo esse tempo, sempre esteve fugindo. Fugia de ambos, escorpiões e dos homens da pousada.
Esteve ela cega pela esperança de sair desse pesadelo?
Debateu-se como melhor pôde, mas não encontrava forma de se livrar das mãos que a imobilizavam. Enquanto a arrastavam para a noite, sentiu que talvez pudesse ter feito as coisas serem diferentes.
Perguntou-se se era isso o melhor que podia esperar de si mesma. Não houve resposta; era tarde demais para lamentos.
9
Amanhecia o dia. O frio ainda era quase tão intenso quanto à noite.
"Está mais calmo?", Richard perguntou.
Eytan não respondeu.
Richard observou o seu pequeno quarto anexado ao seu galpão. Havia o feito ele mesmo. Não era muito grande, mas nunca esperava visitas.
Agora, com Eytan sentado em uma de suas cadeiras e Julia desacordada em sua cama, podia perceber que o espaço era realmente pequeno.
Richard nunca foi de se envolver muito com as pessoas. Ainda assim, naquele momento, não podia suportar aquele silêncio.
"Lindsay...", Eytan deixou escapar de seus pensamentos.
"Ela já não era mais uma de nós.", disse Richard.
Eytan olha com um olhar vago. Lindsay havia tentado ajudá-lo, não?
"Eu sei que ela falou com você. Como você acha que eles conseguiram o número do seu celular?", esclareceu Richard.
Eytan não entendeu a princípio, mas então lembrou-se da ligação que Julia recebera em seu nome.
"Ela se negava a participar do círculo porque suas visões estavam ficando muito frequentes. Já não podia separar a realidade da fantasia. Deric esteve a observando."
Eytan ainda estava confuso. Noite passada, mesmo que por um momento, esteve convencido de que estava sendo mantido prisioneiro. Que Lindsay o queria ajudar. Que, caso parasse de correr sem rumo pelo deserto escuro, Richard mataria a ele também. Mas Richard não atirou. Ao invés, ele o perseguiu com uma lamparina pela escuridão, enquanto chamava seu nome contra o vento.
Quando Richard finalmente o alcançou, Eytan havia se deparado com uma visão terrível. Vultos envoltos em mantos tentavam arrastar Julia para dentro da noite.
Sem hesitar, Eytan tomou a lamparina das mãos de Richard e correu em direção a eles, e com nada além de um brado furioso, afastou os vultos negaceiros.
"Lindsay mentiu pra você, Eytan. O que quer que ela tenha lhe dito na despensa, foi tudo pra tirá-lo da pousada. Ela mentiu pra você e atraiu Julia para fora.", disse Richard.
"É por isso que alguns de nós tem que se encarregar d'Os que são levados. É por isso que precisamos do círculo. Caso contrário, eles irão por em risco a todos. Você consegue ver isso, Eytan?"
"...Eu não sei. Eu não sei mais o que é certo, o que é errado, eu só não quero mais pensar nisso tudo.", desabou Eytan, e deixou o rosto cair sobre as mãos.
Refletiu silencioso por longos minutos. Era isso que aguardava a todos naquela pousada?
"...Quanto tempo eu tenho até terminar como eles?", disse em tom sincero e aflito.
"...Eu vou indo preparar o café. Feche a porta quando sair.", disse Richard. "Ahh, e não conte a ninguém o que aconteceu com Julia. Já estamos com problemas o bastante."
Eytan observou Julia novamente. Havia providenciado remédio para os contusões e cortes que ela havia sofrido, mas não sabia se demoraria a se recuperar.
De fato, era melhor que os outros não soubessem que ela havia saído por conta própria. Manteria isso em segredo. Contudo, o maior segredo que mantinha, e esse nem mesmo Richard poderia saber, é que havia perdido algo muito maior essa noite.
Eytan se perguntava se algum dia poderia ver Dita mais uma vez.
Decidiu que merecia uma hora ou duas de sono pra colocar as coisas no lugar.
Se dirigia para a pousada, mas uma voz o parou em seu caminho.
"Eytan... me desculpe."
Julia parecia recobrar lentamente a consciência.
...Fechou a porta e saiu em silêncio.
Aí está o capítulo 9, finalmente.
ResponderExcluirEnorme, eu sei. Mas espero que seja uma boa leitura.
Me permiti exagerar um pouco no tamanho, visto que a história começou a 'engrossar' por volta deste capítulo.
Fun fact: passei mais tempo cortando partes do texto do que escrevendo novas.
Desculpem a demora!