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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Capítulo 12 - Fria


1

Era primavera mais uma vez. Tinha lá seus dezesseis anos, um excesso de energia e a certeza de que poderia mudar o mundo quando bem entendesse. Dita lhe pegou pelas mãos e juntos correram pelo campo, seguindo as trilhas das poucas flores que forçavam seu caminho pela terra seca.

Enquanto a moça o levava pela mão, respirou fundo. Percebeu: não havia motivos para mudar o mundo. Sim, nada precisava mudar, porque isso era a felicidade. Richard sorriu.

Dita lhe segurou a mão com mais força. "Venha, eu quero lhe mostrar um lugar."
Richard não hesitou por um segundo.


2

Correram juntos até um morro alto. Do topo, viu que o morro se emendava com uma porção de rochas mais escuras conforme se terminava. Era talvez um lugar interessante, mas Richard esperava por algo mais. Já não eram mais crianças, afinal de contas, pensava consigo mesmo.
"Ali.", Dita apontou.

Entre as rochas, Richard encontrou a flor mais bonita na qual já havia posto os olhos. Era grande, branca, e única. Não havia nada parecido.
"É linda.", disse ele.
"Não é verdade?", riu Dita da reação do rapaz.
Richard se aproximou para tocá-la.
Dita o interceptou: "O que é a beleza?"


3

Richard não sabia se havia entendido a pergunta repentina. Não conseguiu dizer nada.
"Essa flor, que você acha linda, eu acho repugnante."
"O quê?", disse Richard, pasmo.

"Essa flor nasceu aqui, entre essas rochas escuras, contra todas as chances. Aqui ela cresceu, sozinha. E ainda assim, a primeira coisa que você comentou ao vê-la foi sobre como ela é bonita. O que é a beleza senão uma máscara?", disse a moça.
Richard pensou sobre essas palavras por um momento.

"Ninguém sabe dizer o que ela passou para chegar até aqui. Nesse ambiente sem vida, talvez ela se considere uma abominação.", disse a moça sorrindo.
Dita lhe correu a mão sobre o rosto, a fim de lhe fechar os olhos.
"Não acredite em tudo que vê.", disse, e lhe deu um beijo leve.

Isso Richard foi capaz de entender.


4

Abriu os olhos. Estava de volta àquela noite fria, o vento soprava de encontro às rochas. O corpo da moça pareceu encará-lo por uma eternidade, mas logo desfaleceu-se sobre o chão rochoso. Richard se aproximou lentamente, e a pegou nos braços suavemente, como melhor pôde.
Ao lado dos dois, observador silencioso, a flor branca contemplava a noite.


5

Julia não conseguia dormir. Sua mente girava em círculos, mas dizia um único nome: Eytan. Desde o incidente da outra noite, não conseguia lhe tirar da cabeça.
Tudo bem, ele ainda era o mesmo paspalho de sempre, mas a forma com que lhe ajudou quando mais precisou- isso era algo com que Julia não estava acostumada a lidar. Sentiu que precisava responder à altura.

Havia decidido que viraria uma nova página para com o rapaz, mas quando foi ao seu quarto mais cedo, lhe tratou com a mesma frieza de sempre. Essa mesma camada que Julia sempre usou para se proteger do mundo, sentia como se não pudessem mais quebrá-la ela mesma.
De súbito, decidiu que não podia mais esperar: levantou-se num pulo, agarrou algo para se agasalhar melhor e foi ao quarto dele- pela porta, como que para mostrar respeito.


6

Bateu à porta. "Entre.". Abriu-a lentamente.
O rapaz estava sentado na cama, pensativo. Finos raios de luz azulada desciam pelas fendas no teto e lhe iluminavam o rosto aflito.
"Eytan, eu preciso te dizer algo. O bilhete, fui eu que escrevi."
"...Do que você...?"... Eytan precisou de um segundo pra absorver essa ideia.
O bilhete... no seu quarto. Destinado a outra pessoa. Porque motivo teria sido entregue a ele? Era tão óbvio.
Esteve tão cego com a possibilidade que o texto lhe revelara, não pôde sequer questionar as circunstâncias. Julia tinha passe livre para o seu quarto quando bem entendesse, se tivesse parado por um segundo para raciocinar... teria percebido mais cedo.

"Você...". Eytan ficou sem reação por um momento. Em parte, estava chateado por ter sido enganado. Por outro lado, estava aliviado. Com a descoberta de que o bilhete era falso, Richard já deveria estar de volta. Era tarde, ninguém deveria ter que ficar lá fora.
"Por que você faria isso?", disse Eytan, em tom calmo.
"...A verdade é que eu não... eu não sei o que há comigo às vezes.", a moça tentou se explicar. Mas o que poderia dizer-lhe, que o fez por ciúme? Ela própria não sabia ao certo o motivo.
"Eu só queria dizer isso, e te pedir desculpas... por tudo. Boa noite.", e assim lhe deu as costas, fechou a porta devagar, e se foi.
Eytan estava chateado, é verdade. Mas mais do que isso, estava cansado disso tudo. Cansado de desentendimentos, cansado de mentiras. Essa moça havia vindo até seu quarto com o único intuito de lhe pedir desculpas. Nem sequer ficou para ouvir resposta. Havia colocado seu ego de lado por ele. Precisava assegurá-la de que estava tudo bem. Precisava ter certeza ele mesmo. Era uma noite tão fria...


7

Julia voltou e deixou-se cair de bruços na cama. Sentia-se estranha. Há muito não pedia desculpas sinceras a alguém. Estava desconfortável, mas sentia que havia feito o certo.
Já quase adormecia agarrada ao travesseiro, quando sentiu a mão do rapaz lhe tocar suavemente os cabelos.
Sim, havia vindo até ela por conta, e como se não bastasse, pela passagem na parede. O mero pensar no ato fez a moça ter vontade de rir. Trocaram olhares em silêncio por um segundo. Ela o beijou.

Era claro para ambos que o frio que sentiam não poderiam superar sozinhos.


8

Richard havia terminado. Estava abaixado ao lado da lápide, improvisada em madeira. Ao seu redor, todas as demais lápides rústicas que havia feito ele mesmo. Era sempre o encarregado dos enterros, de tal forma que já considerava este lugar como um canto só seu. Havia enterrado tantos que já havia perdido a conta. Não, talvez não quisesse contar.

Um vulto negro interrompeu suas meditações. Um homem velho, coberto em mantos escuros, sentava-se sobre a lápide ao lado, e observava Richard, imóvel.
"Olá, Richard. Eu sou-"
"Eu sei quem você é.", interrompeu Richard, seco.
"Formalidades, rapaz. Um homem não é nada sem elas."
Richard pareceu perdido em seus pensamentos por um segundo. Tornou os olhos ao velho encapuzado.
"...Como você pôde? ... a sua própria filha...", balbuciou Richard, a angústia atravessada na garganta fazia falhar a outrora grave voz.
"Isso já não importa agora, garoto.", Ground respondeu.


9

"...O que você quer?", Richard perguntou, hesitante e enraivecido.

"Eu não quero nada, Richard. Eu apenas me pergunto quando aqueles dois lhe dirão que estavam escondendo Mercedes na pousada."
Richard parou por um momento, como quem leva um susto. Não havia se perguntado o que havia levado Julia a arriscar tudo e sair sozinha pela noite.
Poderiam eles ter mantido Dita tão próxima dele sem que ele notasse? Não, impossível. Ground precisava estar blefando.
Mas por que Dita lhe enviaria esse bilhete agora, depois de tanto tempo? Só havia uma possibilidade.

"Noite passada, Julia estava levando Dita para você.", Richard concluiu, tentando aceitar.
O velho assentiu com a cabeça.
"Por quê?!", Richard bradou de súbito.
"Liberdade, é claro. Eu ofereci isto a ela, mas ela não soube aceitar.", explicou, calmo.
Richard silenciou por um segundo.
"Onde ela a mantinha?", perguntou.
"No quarto de Eytan."
Eytan estava envolvido. Isso explicava sua reação ao entregar o bilhete.
Esses dois. Eles haviam mantido Dita escondida dele, a entregaram a Eles. Depois de tanto tempo, Dita estava bem, mas agora... agora tudo se foi.
E a culpa era deles.

"... É só isso? Não vai tentar me levar?", Richard perguntou, rangendo os dentes.
"Você é um rapaz inteligente. Tenho certeza que virá a mim quando a hora chegar."
Richard manteve silêncio.
"Mais importante, está ficando tarde. Talvez você queira se apressar.", disse o velho, sempre monótono.
Richard o encarou por um segundo. Em seguida, juntou sua pá e lamparina, e deu as costas ao velho. Não olhou para trás.


10

Eytan olhou para o lado. A moça dormindo parecia sorrir suavemente, algo que ele não estava habituado a ver. Sentiu-se bem.
Levantou-se lentamente a fim de não acordá-la, e passou a recolher suas roupas para voltar ao seu quarto. Dentre as roupas da moça que juntava, caiu uma pequena caderneta azul. Curioso, Eytan a folheou rapidamente. Não parecia ser dela.
De repente, o som de passos por toda a pensão tomou conta. A moça estremeceu como quem acorda lentamente, e no susto Eytan decidiu guardar a caderneta em seu bolso.
"...Que foi?", ela perguntou.
"É só o Círculo. Pode voltar a dormir."
"Você vai descer?", resmungou a moça, enquanto se aconchegava melhor nos travesseiros.
"...Sim."

Um comentário:

  1. Queria mostrar parte do que faz Richard ele mesmo, e que ele conhece bem os defeitos que o incomodam no protagonista.

    Também queria mostrar que as pessoas tem mais lados do que simplesmente 'bom' ou 'mau'.

    Por fim, queria mostrar que estava muito frio nas noites em que escrevi esses textos.

    Aguardo ansioso o próximo capítulo.

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