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terça-feira, 25 de março de 2014

Capítulo 12 - Passos de Inconseqüência

Capítulo 12

Passos de Inconseqüência



Foram necessárias dez horas de considerações e dez minutos de inconseqüência para bater à porta que vira Viriato bater. Sabia que não devia se meter nisso, mas se não podia colaborar com a guerra, ao menos podia confrontá-la.

Enquanto esperava o que parecia uma década até que atendessem a porta, ia pensando no quão desesperançosa andava sua vida. Talvez aquilo servisse para não se deixar viver por viver, mas o pensamento não o convenceu, já estava indo embora quando a porta se abriu.

"Pois não... Pietro?", disse Mara, com o rosto meio pálido enrubescendo rapidamente pelo susto.

"Eu... eu não sabia que moravas aqui. Legal que tenhas voltado", disse ele, sem saber exatamente o que fazer, nem para onde olhar.

Desistiu de ir embora, num inexplicável lampejo de coragem, e sibilou para a moça "precisamos conversar". Ela entendeu que se tratava de algo sério e indicou-lhe um quartinho aos fundos, pedindo que esperasse um instante.

Mara levou o balde que Lúcia havia pedido, para que não desconfiasse de nada, e voltou para conversar com Pietro.

***

"Eu vi tudo. Quem é ele?", perguntou, não inquisidor, mas genuinamente preocupado. "Vi-o apanhando, mudo, vi quando se arrastou até aqui e quando o ajudaste a entrar. Não havia reconhecido-a, tamanho choque de ver a cena, mas agora não entendo como foi que não vi que era você. Levei horas pensando se devia vir até aqui e, no fim, não sei exatamente porque vim, mas quero ajudar.", e desabou na poltrona que estava ao seu lado. Era mais difícil tomar essa decisão pra quem sempre ganhou as decisões tomadas e prontas para seguir.

A moça ficou perplexa por um instante. Se alguém devia tomar a decisão de ajudar, era ela, não alguém que simplesmente vira a cena.

"Ele é Viriato. Não posso dizer propriamente que o conheço, apenas esbarramos na rua e ele foi gentil. Ficamos de nos encontrar novamente, mas definitivamente essa não era o tipo de situação que eu esperava pra um reencontro".

As próximas quatro horas se deram com Mara explicando toda a história que Viriato contara na noite anterior. Por fim, combinaram por visitá-lo no hospital à noite.

***

Mara estava uma hora e meia atrasada. Pietro devia ter ouvido seus instintos: não devia estar ali. Mesmo estando no hospital, não poderia sequer reconhecer Viriato, que dirá tomar coragem de falar com ele sobre o que vira.

Mesmo sabendo que era um esforço completamente inútil, percorreu os corredores - cheios o bastante para não ser notado - que se ramificavam pelo hospital. Ficar sozinho com seus pensamentos naquele momento era a pior coisa a se fazer; não era hora de se arrepender, mas se não fosse tão covarde quanto era, teria algo melhor na vida que um amor de infância não correspondido.

Sua melancólica auto-depreciação foi interrompida por gritos e urros animalescos que vinham do corredor à frente.

Todos sabem que não há nada melhor para mover um covarde que a curiosidade fulminante.

***

Lore estava transfigurada. Gritava e se debatia, tentando soltar-se e correr. Seu rosto tinha muitos hematomas e um generoso filete de sangue correndo de sua cabeça.

Aquela não era a mesma Lore tímida e doce de seus devaneios. Aquela era muito mais real, muito mais dolorida. Pietro sentia a dor, o desespero, o medo, a revolta e o sangue espesso a escorrer como que do seu próprio rosto.

"Meu filho!!! Eles levaram meu filho! Eu preciso procurá-lo! Eu vou achá-lo, me tirem daqui, me soltem!". Os médicos tentavam sedá-la, sem qualquer sucesso.

Pietro viu tudo aquilo desmaecer com o ímpeto e a dor lancinante dos gritos de Lore. O mundo todo escurecer e sumir, virando apenas um grande vazio de agonia.

Um comentário:

  1. Eis que, finalmente, está pronto. Perdoem a demora. Foi uma tarefa árdua.

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