Capítulo 4
"Não se faz um herói sem medo"
O dia seguia normalmente; havia muito mais rifles a ajustar que homens com alguma noção de prumo. Alguns pareciam incrivelmente ter esquecido o comunicado que lhes deu bom dia. Os únicos marcos do dia eram as terríveis refeições daquela base.
O toque de recolher era dado às 21h; não mais, não menos. Soldado Flores se condoía com cada um dos minutos de atraso... eram 21h07 e ele tinha um péssimo pressentimento.
Sua redenção chegou às 21:13:11, segundo a segundo devidamente contados pelos seus nervos. Finalmente a sirene tocou e todos começaram a se dirigir aos alojamentos.
Sua redenção o deixou às 21:13:57, quando a sirene deu lugar a um comunicado especial. Vendo o rosto de sua mulher e seu filho a cada palavra, ouviu "Tivemos uma mudança no panorama. Partiremos para a Argélia antes do amanhecer. Ponham em execução o protocolo de campo.". Todos corriam para a sala de armamentos; o único animado era Daniel, como já se esperaria.
***
Marco estava estático. Olhava os rifles; as pessoas; os capacetes; os coletes; as bolsas; as botas; rifles; pessoas; capacetes; coletes; bolsas; botas; rifles e pessoas e coletes e bolsas e botas e... o rosto de Lore, sorrindo, com farinha no rosto, o sol entrando pela janela, o cheiro de bolo de laranja... "Soldado Flores? Está me ouvindo? Flores?". Viu a enfermeira; gorda e morena, sorridente por vê-lo abrir os olhos.
Ela deu-lhe um copo cheio de um líquido opaco de cheiro repugnante. "Beba. É, é horrível mesmo.".
Enquanto bebia aquilo como podia, viu uma sombra aproximar-se: "Esperava mais de você, rapaz". "Ah, Capitão Gonçalo, me perdoe, eu não sei o que aconteceu. Foi apenas...", "Não temos lugar na frente de batalha para soldados com fobia a rifles. Seria patético o senhor fazer o mesmo depois do início do confronto. Encontrarei onde possas ser mais útil. Recomponha-se e ajude as enfermeiras com os suprimentos de medicamentos, quando encontrar ocupação para ti, chamarei-te.".
Era impossível não se sentir humilhado, mas ainda mais forte que a humilhação era o alívio. Definitivamente não tinha nascido para uma frente de batalha, para empunhar rifles.
***
Pessoas morriam a todo momento. O ânimo e patriotismo dos soldados portugueses definhava. O primeiro confronto não estava sendo, definitivamente, o sonho português.
O único conforto aos soldados eram as refeições de batalha, que eram menos intragáveis que as da base. Mesmo com as refeições melhores, morrer não parecia tão ruim assim. Muitos não tinham com quem se preocupar, nem para onde voltar. Daniel era um deles, só o que tinha era a guerra, e era a primeira vez que podia dizer que era importante em alguma coisa.
O primeiro da frente de batalha era sempre ele, não havia nada que parece demais pra ele, que tivesse medo. Empunhava o rifle e seguia as ordens do comandante, sem olhar para os lados, sem pensar sequer um momento que podia não voltar. E a ordem agora era invadir o fórum de Argel.
Foi a primeira disputa ganha por Portugal, em incríveis 2 dias. Os soldados tinham sua confiança e patriotismo renovados. Menos Daniel, que voltou sabendo que sua importância tinha acabado junto com sua visão.
Com um estilhaço de bomba, ele perdeu o olho esquerdo. E com a frase, em tom de lamento, de Capitão Gonçalo, ele voltou para a base: "não se faz um herói sem medo, soldado".
"Marco, é bom te ver", disse Dolores, ao chegar no ambulatório. Na verdade, era bom ver que não era a pessoa mais desanimada com aquilo tudo. Por mais que o ferimento o deixasse tonto e sem forças, parecia muito mais vivo que o amigo.
A enfermeira logo tratou de levar o ferido para uma cama e começar a limpar o ferimento. Marco levou para ela o kit para desinfecção. Por todo o ambulatório podia-se ouvir os gritos de dor, mais pelo fim do sonho de ser reconhecido por algo na vida que pela dor.
Marco, a mando da enfermeira, foi preparar uma porção de ópio para aliviar a dor. O fez muito bem, incluindo uma generosa porção de estricnina. Nada além disso poderia aplacar a dor que Daniel sentia.
Em 15 minutos o rosto de Daniel transfigurava-se numa expressão horrenda de dor e agonia, seu corpo contorcia-se incontrolavelmente, sua garganta fechava e o ar já não era bem-vindo. Em 40 minutos, toda sua vida estava resolvida.
Era realmente difícil matar uma pessoa para salvar-lhe a vida.
O único conforto aos soldados eram as refeições de batalha, que eram menos intragáveis que as da base. Mesmo com as refeições melhores, morrer não parecia tão ruim assim. Muitos não tinham com quem se preocupar, nem para onde voltar. Daniel era um deles, só o que tinha era a guerra, e era a primeira vez que podia dizer que era importante em alguma coisa.
O primeiro da frente de batalha era sempre ele, não havia nada que parece demais pra ele, que tivesse medo. Empunhava o rifle e seguia as ordens do comandante, sem olhar para os lados, sem pensar sequer um momento que podia não voltar. E a ordem agora era invadir o fórum de Argel.
Foi a primeira disputa ganha por Portugal, em incríveis 2 dias. Os soldados tinham sua confiança e patriotismo renovados. Menos Daniel, que voltou sabendo que sua importância tinha acabado junto com sua visão.
Com um estilhaço de bomba, ele perdeu o olho esquerdo. E com a frase, em tom de lamento, de Capitão Gonçalo, ele voltou para a base: "não se faz um herói sem medo, soldado".
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A enfermeira logo tratou de levar o ferido para uma cama e começar a limpar o ferimento. Marco levou para ela o kit para desinfecção. Por todo o ambulatório podia-se ouvir os gritos de dor, mais pelo fim do sonho de ser reconhecido por algo na vida que pela dor.
Marco, a mando da enfermeira, foi preparar uma porção de ópio para aliviar a dor. O fez muito bem, incluindo uma generosa porção de estricnina. Nada além disso poderia aplacar a dor que Daniel sentia.
Em 15 minutos o rosto de Daniel transfigurava-se numa expressão horrenda de dor e agonia, seu corpo contorcia-se incontrolavelmente, sua garganta fechava e o ar já não era bem-vindo. Em 40 minutos, toda sua vida estava resolvida.
Era realmente difícil matar uma pessoa para salvar-lhe a vida.
Foi realmente difícil de escrever. Difícil de ter uma idéia e não errar a mão no excesso de detalhes (talvez tenham faltado, pensando agora, mas...)
ResponderExcluirFica uma dica de veneno, pra quem estiver interessado :)